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Pracinha: lugar de encontro entre crianças e adultos

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioPracinha tem para nós um significado especial, não é à toa que faz parte da nossa identidade: Papo de Pracinha. Papo que acontece no encontro espontâneo, coletivo e lúdico, em torno das crianças, suas vidas cotidianas e seus modos de ser peculiares.

Mas antes de falar em pracinha, termo que usamos para falar das praças destinadas às crianças, é interessante pensar nos significados das praças, em geral. Quais as suas origens, funções, características e relações com o espaço urbano das cidades e com a vida cotidiana dos seus moradores?

Sabemos que, ao longo do tempo e em diferentes espaços, as praças assumem diferentes usos e se configuram de diferentes formas, sem perder, no entanto sua principal característica, que é a de ser um local privilegiado de encontro, de convivência e de sociabilidade, além de desempenhar um papel importante na organização urbana das cidades. As praças abrigam a permanência e a dispersão, chegadas e partidas, a circulação de pessoas e atividades culturais diversas, constituindo-se em palco representativo das dimensões cultural e histórica das cidades.

As origens das praças remontam às ágoras gregas, que eram espaços abertos, onde o comércio, os encontros e as discussões políticas eram realizadas. No Império Romano, esses espaços passaram a ser chamados de Fóruns ou Foro Romano, e assumiram uma função de comércio, configurando-se como um espaço central, cercado de lojas e tendo no seu entorno os edifícios mais importantes da cidade. Já as praças medievais surgiram no contexto das cidades muradas, como espaços de encontro e festividades, de comércio e, também, de aplicação da justiça, localizando-se geralmente em frente à igreja e/ou mercado. No Renascimento, surgiu a prática do embelezamento, as praças ganharam suntuosidade e passaram a fazer parte da estrutura urbana. O período Barroco trouxe a monumentalidade às praças, retirando-lhes as funções comercial e social.

As marcas dessa história se podem ver nas praças, por aqui e por ali. Mas o presente nos convida a refletir sobre o papel desses espaços hoje nas nossas vidas. E, também, sobre quais as responsabilidades das administrações públicas na construção e manutenção desses espaços públicos e abertos de lazer, encontros e ações culturais, tão necessários para a ampliação dos nossos espaços de vida privada.

E as pracinhas? Que sentido têm para as crianças e suas famílias, e também para a dinâmica das cidades?

As pracinhas apresentam-se ou como espaços delimitados para crianças, no interior de uma praça maior, ou como espaços independentes, construídos ou adaptados como tal. Caracterizam-se por conter brinquedos que estimulam o movimento (balanços, escorregas, gangorras etc.), geralmente padronizados pela municipalidade. Algumas contêm vegetação e água, outras são mais áridas, e é comum haver espaços com terra ou areia. Com muitas diferenças entre esses espaços, na forma e nos usos, são espaços de muita importância na vida das crianças e de suas famílias. São muitos os benefícios da presença desses espaços nas cidades,  nas proximidades dos locais de moradia das crianças e das escolas. Vamos falar do que nos chama mais a atenção:

  1. Estímulo ao desemparedamento das crianças: as pracinhas convidam as crianças e suas famílias a saírem do espaço privado e fechado da casa (no qual a TV, os tablets e computadores têm presença marcante como formas de lazer) para brincar lá fora, junto com outras crianças, em um espaço público e aberto, experimentando outras formas de interação com outras crianças, outros adultos e espaços.
  2. Convívio com a natureza: como já afirmamos em outros textos, a natureza é essencial à saúde, ao bem-estar e à felicidade das crianças. As pracinhas podem ser espaços de natureza, onde se façam presentes o verde, as cores e as texturas, na vida das plantas e dos pequenos animais de jardim. Correr sentindo o vento, saltar pedras, escalar terrenos, subir em árvores, cavar a terra, catar folhas de diferentes tamanhos, formas e texturas, desenvolve a percepção e a sensibilidade na criança. A conexão com a natureza estimula ações de cuidado e respeito ao meio ambiente, a criatividade, a imaginação e a construção de brincadeiras não mediadas pelos produtos de consumo.
  3. Encontro entre as crianças: as praças promovem uma sociabilidade que se constrói no cotidiano, seja entre crianças que as usam com maior frequência (que têm obviamente mais oportunidades de aprofundar laços afetivos e de sociabilidade, e de construir brincadeiras que as identificam como crianças que fazem parte daquele lugar e que são “amigas da pracinha”), mas também é espaço de ampliação de formas de sociabilidade para as crianças que ali vão esporadicamente. Ali estão crianças em um espaço coletivo que deve ser compartilhado por todas. A gangorra fica mais divertida com duas crianças, é preciso esperar a vez de usar o balanço, de subir e descer o escorrega, é preciso desacelerar porque na frente tem uma criança menor, a brincadeira pode ficar muito mais legal com a história que o amigo inventou…. As interações entre as crianças promovem novas aprendizagens e ajudam a construir novas habilidades. O simples observar outras crianças em movimento ensina outras formas de explorar os brinquedos. Os repertórios individuais de brincadeira, quando compartilhados, ampliam as possibilidades de brincar das crianças.
  4. Convívio com as diferenças: as pracinhas abrigam formas diferentes de ser, de brincar e de educar. As intervenções dos adultos com suas crianças – pai, mãe, avós, babás etc. – revelam modos de agir, que ora sintonizam-se uns com os outros, ora entram em confronto. Há aquele adulto, por exemplo, que intervém no sentido do seu filho não permanecer no balanço por muito tempo para dar lugar a outra criança que também quer balançar-se; mas há outros que não se preocupam com isso, seguindo o lema, “nós chegamos primeiro, temos direito de ficar”. Há adultos que incentivam as criança a compartilhar os brinquedos que levam para a pracinha, outros não. Há adultos que intervêm com seus filhos de forma ríspida e agressiva, outros conseguem ser firmes e afetuosos, ao mesmo tempo. Há também aqueles mais permissivos, que deixam as crianças fazerem o que querem. Alguns incentivam as crianças a explorarem os brinquedos e os espaços de forma autônoma, apoiando-as apenas quando necessário para que sigam em frente, outros que adotam uma atitude de superproteção, não permitindo que as crianças ganhem confiança em si mesmas… Enfim, a pracinha é palco de modos de educar e de modos de ser criança bastante diferentes! É preciso jogo de cintura para lidar com essas diferenças… sempre aprendemos com elas, seja para mudar nossos modos de agir para melhor, seja para afirmar nossas crenças e escolhas em relação à educação dos nossos filhos.

Está mais do que na hora do poder público adotar como parte de suas ações a garantia de espaços públicos ao ar livre, seguros e bonitos, que convidem as crianças e suas famílias a elegê-los como seus espaços de lazer! Para tanto, é preciso que as pracinhas estejam mais conectadas com as crianças, com o que elas desejam que esses espaços lhes ofereçam, com seus modos de brincar, se movimentar e imaginar! O Papo de Pracinha tem perguntado às crianças sobre isso. Querem saber? Esse será o assunto do nosso próximo texto!

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

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