Dia-a-dia Família

Comunicação Não Violenta: vale para todos.

(*) Papo de pracinha

texto_proprio Estão acontecendo pela cidade, pelo país e pelo mundo encontros entre pessoas para buscar formas “não violentas de comunicação”.  A Comunicação Não Violenta (CNV) consiste numa prática que se fundamenta em habilidades de linguagem e de comunicação que permitem que sejamos humanos mesmo em condições adversas.

E não nos faltam condições adversas na relação entre pessoas nos seus espaços de trabalho, no supermercado, na praia e também dentro de casa, em família. Com as crianças acontecem as mesmas coisas: impasses, negações, limites, frustrações que dificultam a relação entre elas em casa, nas ruas e também nas instituições de Educação Infantil que frequentam.

Famílias que não batem nos seus filhos, e com isso não enxergam alguns atos de violência que cometem em relação às crianças e certos professores, também, são violentos e que não tem noção disso. Por exemplo:  colocar sentado para pensar, como se em pé, ou em qualquer lugar, a criança não pensasse; obrigar a abraçar a criança envolvida num conflito como prova de amor depois de uma briga; mandar engolir o choro; chamar de bebezinho e até convidar para ir para o grupo dos bebês (crianças bem mais novas),  por conta de uma atitude que desagrada ao professor. Todas essas são condutas comuns e altamente violentas. Claro, cada criança age e reage de modo muito subjetivo, mas todas sentem a violência que se complementa com um olhar de desagrado e um tom de voz inconfundível. Cortar o cabelo da menina bem curto porque ela chora no banho, “dar gelo” ao não responder à solicitação de uma criança, são casos graves de violência. Gritar com elas, criar medo de lobo, de fantasma ou de barata, dizer que vai largá-la e que ela vai se perder,  não são modos de se resolver nenhum impasse e também são atos violentos. Já repeti dez vezes, você é surdo? Igualmente desrespeitoso, e violento.

Claro, quando elas se batem e se agridem fisicamente, o adulto precisa intervir, segurar com firmeza e tentar tirar a criança daquela situação extrema até que ela(s) se acalme(m) e possa conversar. As crianças precisam aprender a ouvir e a nomear os seus sentimentos para poderem resolver os conflitos de modo mais humano, mais sensível.

A situação que se segue aconteceu em uma instituição de educação infantil carioca. Nesse grupo de crianças de 4 anos é comum haver brigas por conta de disputa de objetos, por desejarem sentar num mesmo lugar e até para dar a mão à professora. Esta diz, com relativo orgulho, que consegue de certa forma acabar com as brigas em um minuto. E continua: mal eles começam a brigar eu pergunto para eles o que está acontecendo ali naquele espaço. Essa é a chave, como eles já sabem que não se pode brigar na sala de atividades, eles param na mesma hora.

Então, propusemos algumas questões para a professora refletir: você acha que eles assim resolvem rápido seus conflitos? Você sabe o que causa cada briga entre essas crianças às quais você se refere? Quem sempre briga: todas as crianças, algumas delas, sempre as mesmas? Certos pares ou trios de crianças? E qual a origem das brigas?

O que pudemos perceber ao dialogar com essa professora é que calarem-se e voltarem todos aos seus lugares soa, para ela, como uma resolução rápida de conflitos. No entanto, alguns pares de crianças brigam diariamente, mais de uma vez por dia. Não seria interessante observar com cuidado, buscar um diálogo com elas e com cada uma delas, tentando ouvir e entender, junto com elas, o que cada um produz no outro que faz com que ambos se irritem por qualquer coisa, todos os dias? Não podemos aqui dar receitas ou fórmulas, pois elas não existem, mas, talvez, anunciar alguns possíveis passos iniciais.

As crianças têm suas preferências, têm medos, raiva, competem entre si por variados motivos e isso nem sempre pode ser “visto” pela professora e por suas famílias. Com frequência, ouvimos dizer que “faz parte da idade”. Será que as crianças conseguem identificar seus sentimentos e nomeá-los? Não é comum encontrarmos adultos que parem e se refiram a elas com delicadeza e firmeza, respeitosamente, propondo questões para elas pensarem, como por exemplo:  eu posso compreender que você tenha muita raiva do seu amigo. Será que ele lhe irrita porque …. (aqui é preciso levantar uma hipóteses que possa vir a ser confirmada, ou não) ele corre muito nas brincadeiras de pique e você gostaria de ganhar dele?

Já vimos crianças muito irritadas entre si porque um deles podia vir todos os dias para a escola de patinete e o outro usava a condução escolar, por exemplo.

Pensar não é somente “raciocinar” ou “calcular” ou “argumentar”, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece.(Larrosa, 2002)

 Voltando ao caso da professora, precisamos refletir se a pergunta que ela usualmente faz produz uma comunicação efetiva entre as crianças e, assim, se ela resolve, de verdade, o conflito. Parece que, em seu lugar, ela serve para calar as crianças e fazer com que voltem aos seus lugares dissolvendo o conflito em um minuto: o que está acontecendo aqui na nossa sala? Calar as crianças e supor que exista essa “dissolução do conflito” mostra que a prática não vem sendo eficaz. Se a professora precisa repetir muitas vezes essa frase, para as mesmas crianças, todos os dias…. Nada está sendo resolvido, nem se está buscando um caminho para a paz, para a solução. Resolução de conflitos exige uma conexão qualificada entre as pessoas, uma entrega mutua que impõe conexões com os olhos, o coração, as histórias, pautadas na confiança e no afeto. Como construir essa confiança?

Larrosa (2002), professor espanhol de Filosofia da Educação, licenciado em Pedagogia e em Filosofia defende uma educação que se fundamente no binômio experiência e sentido. Nesse viés, ele afirma que as palavras produzem sentido, criam realidades e, às vezes, funcionam como potentes mecanismos de subjetivação. O autor, como nós, crê no poder das palavras, na força das palavras, crê que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras fazem coisas conosco. E, se entendemos experiência não como aquilo que passa, mas como o que “nos passa e que nos afeta”, a linguagem tem papel importante e transformador para dar sentido às experiências. E segue: duas pessoas, ainda que enfrentem o mesmo acontecimento, não fazem a mesma experiência. O acontecimento é comum, mas a experiência é para cada qual sua, singular e de alguma maneira impossível de ser repetida.

E isto, o sentido ou o sem-sentido, é algo que tem a ver com as palavras. E, portanto, também tem a ver com as palavras o modo como nos colocamos diante de nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em que vivemos. E o modo como agimos em relação a tudo isso.

Sobre Comunicação Não Violenta (CNV)

A CNV não é um dogma, uma religião nem um conjunto de estratégias. Seu fundador foi o Dr. Marshal Rosenberg, na Califórnia, em 1984. Ele criou uma fundação capaz de oferecer treinamentos em trinta países, entre eles o Brasil. Ele introduziu programas de paz em países em guerra como Croácia e Servia, Burundi, Sri Lanka e seu legado vem sendo trabalhado em escolas de Israel e da Iugoslávia. O que tratamos aqui é apenas um aperitivo, um resumo rápido feito por seguidores que podem se enriquecer lendo o livro e indo aos encontros em suas cidades. Aqui no Brasil temos o Dominic Barter como um representante de peso da CNV, e junto com ele aprendemos, sempre em grupo, que há maneiras de desmontar certos discursos de ódio e, com isso, abrir uma gama de possibilidades de mudança para melhor na vida de todos.

A CNV precisa ser entendida como uma habilidade que precisa ser exercitada e desenvolvida, que envolve linguagem e comunicação, para ser possível falar e ouvir, ser ouvido, de modo a tentar alcançar a verdade das pessoas que ali estão. Muitas vezes fazemos perguntas sem querer ouvir as respostas, ou não conseguimos estabelecer um diálogo franco, verdadeiro, produtivo com o outro. Busca-se com isso estabelecer um território comum entre as pessoas, que faça com que a comunicação entre elas seja mais densa, verdadeira e profunda, considerando os sentimentos que pulsam em cada um de nós, para além das aparências (Rosemberg, 2006). Na verdade, embora com formação em Psicologia Social, o autor buscou uma “psicologia diferente”, capaz de ajudar a resolver de forma pacífica os conflitos. Para isso, ele considerou importante que cada um tenha a possibilidade de se colocar no lugar do outro, para que possam estabelecer juntos um patamar de resolução não violenta de conflitos.

Não é fácil, não é simples, mas é possível quando se busca promover a paz e produzir “um desarmamento cotidiano” nas/das pessoas.

Para concluir reiteramos que essa prática exige estudo, encontros coletivos e dinâmicas, experiências e linguagens estabelecidas com vários “outros” que podem durar uma vida inteira, para que cada um consiga vivenciá-la no trem, no ônibus, no trânsito e sobretudo nas escolas. É pra ontem!

 

Referências Bibliográficas :

Larrosa Bondía, Jorge –  Revista Brasileira de Educação. 26 Jan/Fev/Mar/Abr 2002 Nº 19

Rosemberg, Marshal – COMUNICAÇÃO NÃO VIOLENTA. SP: Ágora, 2006.

 

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

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