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Alguns caminhos para enfrentar a birra das crianças

(*) Papo de pracinha

texto_proprioCom esse texto, vamos finalizar o tema “Birra das Crianças”, iniciado com o texto Os “TerribleTwos”: comportamentos antigos com roupa nova e seguido pelo texto As Birras das crianças: como lidar?, onde apontamos a necessidade de compreender primeiro por que as birras e manhas ocorrem, para depois discutir possíveis estratégias. Feito isso, chegou o momento de pensar em alguns caminhos para ajudar a pais, professores, enfim, pessoas que lidam mais diretamente com as crianças e buscam orientação sobre como agir.

É comum ouvir argumentos por parte dos adultos de que os castigos (e palmadinhas também), sempre funcionaram. É verdade que a punição geralmente interrompe, pelo menos naquele momento, o comportamento que está sendo considerado inadequado. Mas cabe perguntar: o que a criança aprende a longo prazo? Será que, com a punição (e essa reflexão também vale para as estratégias de recompensas), que é uma forma de controle externo, estamos contribuindo para que a criança construa ferramentas internas para resolver os problemas? Que resultados essas práticas têm a longo prazo?

Sabemos que, em alguns momentos, não encontrando outra forma de agir, os pais recorrem às punições. Mas é preciso tomar muito cuidado para não ensinar a criança a obedecer pelo medo, ou apenas pelo desejo de não perder o que gosta. É comum também os pais alternarem uma atitude rígida, de controle excessivo, com a permissividade (em alguns momentos cansam de ser “tiranos” e amolecem diante das exigências das crianças), o que também não ajuda, pois a criança pode ficar confusa diante dessa variação. Ser coerente é difícil, dá trabalho, aliás, educar dá muito trabalho, exige envolvimento, presença atenta, sensível e, muito importante, amorosa e firme ao mesmo tempo!

Mas então, o que fazer? Nossa ideia aqui não é fornecer dicas ou um método para educar, mas apenas apontar algumas práticas que podem ajudar as crianças a desenvolver habilidades para controlar internamente suas emoções e, assim, encontrar caminhos para resolver com autonomia e cooperação os problemas que se apresentam na vida. Tais práticas têm como fundamento, sempre, o respeito à criança e o objetivo de que ela se sinta capaz e aceita.

Alguns pais gritam com a criança, a ameaçam com castigo ou punição. Alguns usam, inclusive, a violência física, como forma de controle. É preciso saber que esse tipo de estratégia só ensina a criança coisas negativas, sobre si mesma e sobre os modos de resolver os problemas com os outros. É recomendável, portanto, evitá-la ao máximo! Outra atitude que é necessário ser evitada é qualquer forma de humilhação ou diminuição da criança, com palavras negativas que podem gerar rótulos que não a ajudam em nada: chata, chorona, escandalosa, boboca etc.

Algumas situações podem causar a birra, como por exemplo, sono ou fome e, nesse caso, pode-se tentar evitá-las, diminuindo a frequência ou a intensidade da birra. Mas, lembramos que, geralmente, a origem das birras está nos sentimentos de frustração, raiva etc, com os quais a criança tem muita dificuldade de lidar e de controlar as reações que deles se desencadeiam (nós, adultos, muitas vezes também, não é mesmo?). Os gritos e choros exagerados são uma forma de extravasar esse sentimento que não cabe dentro dela. É muito importante o reconhecimento desse sentimento que está por trás da birra, pelo adulto, expresso por meio de palavras, para que a criança possa, ela também, identificar o que está acontecendo. E claro, é preciso confirmar com a criança se a sua percepção está correta ou não (Levante uma hipótese: Acho que você está muito bravo porque eu peguei o celular da sua mão e você teve que parar de ver o seu filme. É isso? ).

Ao mostrar compreensão em relação ao que a criança está sentindo (Eu também sinto raiva, às vezes, e fico muito chateada(o), eu entendo que você queria muito continuar vendo seu filme), você estará demonstrando empatia com a criança. Isso a ajuda a perceber que o sentimento que ela está experimentando é legítimo, trazendo-a para mais perto de você e abrindo uma possibilidade de diálogo.

Nos momentos de crise e descontrole da criança, geralmente, não adianta falar muito com ela, pois quanto mais você falar mais ela se descontrola. Procure mostrar que você está ali ao lado dela e diga que vai esperar que ela se acalme, e que só então você poderá ajudá-la. Tente alternativas para ela se acalmar. Pode ser que um abraço funcione, pode ser que não. Cada criança reage de um jeito e a mesma criança pode reagir de forma diferente dependendo da situação. Por isso, procure escutá-la e respeitá-la. Pergunte: quer um abraço? Um colo? Se a resposta for negativa, respeite, podendo dizer: quando você se acalmar e quiser falar eu estou aqui para te escutar e para te dar um abraço se você quiser.

Se você estiver muito irritado(a), antes que se descontrole, afaste-se, respire, tente se acalmar, caso contrário, poderá entrar em crise junto com a criança ou entrar na briga com ela (Eu estou muito chateado e vou me acalmar um pouco; já volto!). Vale também refletir por que é tão difícil para você ouvir os gritos do seu filho. Claro, não estamos dizendo que gritos são uma boa forma de resolver frustrações, mas são uma manifestação das crianças para  extravasar seus sentimentos.  Precisamos sim, dizer-lhes que existem outras formas de mostrar que estamos zangados, que são melhores para ela e para os que estão a sua volta. Mas, para a criança, a aprendizagem de outros modos de lidar com esses sentimentos não é mágica, vai demandar ajuda e atitudes positivas da parte dos adultos que com ela convivem.

Nas crises de birra, algumas crianças chegam a jogar coisas no chão e até mesmo tentam bater no adulto. Não permita que ela bata em você, e demonstre firmeza ao impedir essa atitude (Isso não pode!). Vale também dizer a ela que você fica triste com aquele comportamento e não admite que ela faça aquilo. Aliás, é bom que a criança perceba que  seus pais também sentem raiva, tristeza, diante de algumas situações. Reconhecer o sentimento no outro contribui para que ela reconhecer os seus próprios sentimentos.

Em determinadas situações que geram a birra, cabe impor limites e mostrar para a criança que o seu comportamento tem consequências. Estas, no entanto, devem estar sempre associadas ao acontecimento. Por exemplo, se a criança teve uma crise de raiva porque a mãe lhe tirou o Ipad, porque ela não cumpriu o combinado, que era parar de ver o filme quando chegasse a hora do almoço, faz sentido que no dia seguinte ela não tenha o Ipad. E pode-se no outro dia, incentivar que a própria criança desligue o Ipad na hora combinada.

Finalmente, precisamos reforçar que é fundamental não ceder à birra das crianças. Se quando gritam, esperneiam, os pais se rendem e atentem o seu pedido ou então ficam totalmente focados na criança, mobilizados pela sua atitude (isso é um ganho para a criança, pois essa atenção, muitas vezes é justamente o que ela busca com seus gritos), estarão, na verdade, ajudando-a a fixar esse comportamento como estratégia para conseguir o que quer.

É preciso compreender que impor limites, de forma doce, respeitosa e firme, é uma forma de dar atenção à criança. E elas precisam dessa atenção, para se sentirem capazes e confiantes para conquistar novas formas de  lidar com as situações da vida! Só assim pode-se cultivar um relacionamento com as crianças no qual tanto elas como os adultos que com elas convivem (pais, professores e outros) possam crescer e se sentir felizes!

 

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

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