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As birras das crianças: como lidar?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Birras, choros exagerados, acompanhados geralmente de gritos e gestos descontrolados, algumas vezes verdadeiros escândalos, costumam “tirar os pais do sério”, deixando-os chateados, constrangidos, envergonhados (principalmente quando a cena ocorre em locais públicos!). E, frequentemente, descontrolados ou perdidos quanto à atitude que devem tomar.

Não faltam dicas, textos na internet, bem como novas e velhas teorias abordando o tema.  Algumas bem fundamentadas, outras nem tanto, sendo que o que mais encontramos são aconselhamentos por meio de listas de atitudes/estratégias a serem adotadas, como se todas as crianças e situações pudessem ter o mesmo enquadre. Que serventia têm essas dicas? Às vezes funcionam, outras vezes não! Temos enfatizado aqui no Papo de Pracinha que as crianças e seus contextos familiares são sempre únicos e, muitas vezes, por isso mesmo, fogem dos limites colocados em receitas, regras, escalas ou estágios criados pelos adultos para compreendê-las e lidar com elas.

É fato que pode ser um alento para os pais encontrar dicas sobre como agir com as crianças em diferentes situações, em resposta às dúvidas e o desejo de encontrar saídas para questões que não estão conseguindo resolver sozinhos. Queremos aqui ressaltar, entretanto, que, muito mais importante do que um rol de estratégias é o que estas revelam sobre a forma de ver a criança e de compreender as relações entre esta e a vida em sociedade. Na realidade, são essas concepções que definem as nossas escolhas em relação ao modo de educar nossos filhos. Ter clareza do que pensamos sobre crianças e educação nos ajuda a ter coerência, ou pelo menos, a buscá-la nas nossas atitudes com as crianças.

Vejamos a situação: Felipe, 2 anos, ao sair da escola com sua mãe, entra no carro dizendo “cadeirinha não!”. Sua mãe, Carolina, lhe oferece o celular para ele assistir a um vídeo (ou: para que ele aceite sentar na cadeirinha permitindo que ela dirija, o que, de fato, ocorre), negociando que ele precisará entregá-lo quando chegarem na garagem do prédio onde moram. Depois de estacionar o carro, Carolina pede para Felipe devolver o celular, como havia combinado com ele, sem sucesso. Felipe agarra o celular e vira o corpo, cada vez que a mãe o pede. A mãe avisa que vai precisar retirar o celular da sua mão, porque eles precisam sair do carro e ir para casa. Quando ela cumpre o que disse, Felipe reage imediatamente, chorando e permanecendo aos berros por uma meia hora, demonstrando muita raiva e chateação por sua mãe ter-lhe retirado o celular da mão e ter interrompido o seu vídeo.

O que fazer numa situação como essa? Dar bronca na criança? Colocá-la de castigo? Abraçá-la e dizer que mais tarde ela vai poder assistir ao vídeo? Dizer que entende o que ele sente e que vai esperar ele se acalmar para conversarem? Mudar o foco da criança, para que ela saia da crise, chamando a atenção para outra coisa? E quando o choro se estende por mais tempo, crescendo a raiva e o descontrole da criança e nada que se fala tem um efeito positivo, ou seja, nada abranda a crise?

Para refletir sobre o tema e encontrar respostas para essas e outras questões que surgem diante dessas situações, precisamos compreender primeiro algumas coisas:

  1. Sentir raiva é legítimo, faz parte do comportamento humano e é uma emoção espontânea, que surge sem que a criança a controle. Principalmente na criança pequena, é comum reagir de forma exagerada, até mesmo descontrolada, diante de uma situação de frustração. Para a criança, o sentimento de frustração pode tomar uma grande proporção e gerar uma crise de raiva, como parece ter sido o caso do Felipe, no exemplo acima. Essa reação é uma ferramenta que a criança tem para se expressar. Qual o nosso papel diante da expressão da raiva do filho(a)? Na verdade, não podemos impedir que a emoção seja sentida, pois ela vem espontaneamente, é legítima e humana. Mas temos sim um papel, que é o de ajudá-la a criar ferramentas para lidar com as emoções que experimenta, de outras formas, que não gritos, choros ou gestos bruscos e descontrolados .
  2. Todo ser humano quer ser aceito no grupo a que pertence e se sentir importante. Para a criança, que está aprendendo a ser no mundo e nos diferentes grupos dos quais participa, ser aceito, perceber que importa para os outros, é algo fundamental. Lhe traz um sentimento de confiança e pertencimento. Nas relações que estabelece com os outros, em diferentes contextos e situações, vai experimentando formas de se fazer presente e de se sentir acolhida e compreendida. Às vezes, é na tentativa de descobrir um modo de ser aceita, que reage com birras, chamando a atenção para si. Ainda que, na maioria das vezes, o que consiga seja o oposto, gerando impaciência e frustração nos pais também.
  3. As crianças têm direito ao respeito e à igualdade, mesmo não tendo a mesma experiência e responsabilidade dos adultos. Os pais, professores, enfim, aqueles que lidam mais de perto com as crianças, precisam ter cuidado para não humilhá-las com suas atitudes, na tentativa de interromper seu comportamento inadequado. A humilhação pode desenvolver nas crianças um sentimento de que elas não são boas o bastante para serem aceitas. É o respeito mútuo que deve ser buscado nas ações dos adultos, de forma a apoiá-las na construção de formas próprias de resolver os problemas que experimentam na vida.
  4. O respeito envolve a escuta atenta e sensível da criança. O que ela está realmente tentando dizer com suas ações? Precisamos compreender e criar possibilidades de ouvir os pontos de vista da criança e, a partir daí, trabalhar com ela na solução do problema. Ser ouvida dispõe a criança a escutar também o adulto, criando um terreno propício ao diálogo.
  5. Nas relações com as crianças, nossas atitudes contribuem para a construção de valores importantes para a sua formação como sujeito e para a sua participação na sociedade. Desse modo, precisamos refletir se estamos contribuindo para a criança aprender a ter responsabilidade social, valorizar e respeitar o outro, tendo uma atitude de colaboração nos grupos em que se insere. É importante a criança perceber que as coisas não podem ser só do jeito que quer, pois existem os outros, com seus desejos e necessidades também. Ajudar os outros, colaborar, desenvolve na criança o sentimento de capacidade, autonomia e participação.

Mas o que fazer? Como agir? Que práticas podemos construir que respeitem a criança e os adultos também? É possível pensar algumas estratégias coerentes com essas concepções acima? Os castigos e outras formas de punição funcionam? O que a criança aprende com eles? Que valores estamos transmitindo às crianças com nossas práticas?

Na busca de acertar na educação dos nossos filhos, às vezes caminhamos para um lado, o da maior rigidez, às vezes para o outro, o da permissividade. Compartilhar experiências e refletir a partir delas, nos ajuda a ganhar confiança nas nossas atitudes e a encontrar, nós também, adultos, as nossas ferramentas para lidar com as emoções que nos invadem nos conflitos com nossos filhos(as) e para agir com eles de forma respeitosa, firme e amorosa ao mesmo tempo.

Vamos compartilhar questões, dúvidas, práticas, concepções e experiências?

Manifestem-se por e-mail (papodepracinha@gmail.com) ou pela nossa fanpage no Facebook. Com a contribuição de vocês,  nosso próximo texto sobre o assunto discutirá diferentes estratégias para responder às questões aqui levantadas e outras que possam surgir. Vamos?

 

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

1 comentário em “As birras das crianças: como lidar?

  1. Pingback: Alguns caminhos para enfrentar a birra das crianças

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