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Sobre formatura em instituições de Educação Infantil

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio A Rede Brasileira Infância e Consumo (REBRINC) e o Movimento Infância Livre de Consumismo (MILC) se uniram para dar apoio a uma criança e a sua família, em Belo Horizonte,  que não puderam participar da “festa de formatura” da Educação Infantil pela impossibilidade de pagar o valor solicitado pela instituição. Isso indica tratar-se  de um caso de exclusão e de constrangimento para a criança, que ficou impedida de participar dos ensaios e da festa de sua escola, de sua turma de alunos, segundo relato de sua mãe nas redes sociais (Leia o relato aqui).

A formatura em Educação Infantil nada mais é do que um rito de passagem, como serão o final do Ensino Fundamental, do Ensino Superior e da Graduação, acompanhando a vida escolar. Costuma-se fazer uma celebração devido a essa mudança de status de alguém dentro de seu grupo social, o que pode acontecer também na hora do nascimento, no batizado, quando a menina menstrua pela primeira vez, no casamento etc.

Como parte das práticas culturais de muitos grupos sociais, é humano e bastante natural que adultos e crianças desejem celebrar esses momentos considerados significativos em suas vidas, e que jamais se repetirão.

É aceitável e comum, também, que adultos e crianças sofram juntos quando há uma mudança de turno, de turma, de escola e, também, o fechamento de um ciclo, como o de Educação Infantil.

Nesse contexto de afeto, de emoção e de crescimento, o que dizer das instituições e das famílias que buscam celebrar esse rito de passagem e da forma como acontecem essas comemorações?  Não podemos generalizar, mas algumas escolas investem em festas-espetáculo como chamarizes para receber novos alunos, para atender as expectativas dos pais (muitos valorizam esse tipo de  celebração), para robustecer as vaidades da sua instituição no mercado, para investir num tipo de consumismo que empobrece a vida de crianças e de adultos.

Vamos refletir sobre o sentido dessas festas, para a vida das crianças, e tudo o que costumamos ver acontecer, em geral, produzido em nome delas, sem ouvi-las, sem respeitá-las.

Bem, as crianças devem estar matriculadas no 1º ano do Ensino Fundamental aos 6 anos de vida, segundo a legislação atual. Assim, essa festa se destina a crianças de 5 e 6 anos que ficaram juntas, por um ano ou mais, em cada instituição.  Vamos pensar…

  1. Se a vida escolar deve ter uma continuidade em seus vários níveis e tempos, que valores sustentam uma “festa de formatura” de crianças?
  2. Comemorar o ano que as crianças passaram juntas, em um mesmo grupo, exige roupa especial, alto custo de produção e comidas finas produzidas por um bufê especializado?
  3. Essas festas devem acontecer sem que as crianças sejam chamadas a opinar e a participar? As festas costumam ter “a carinha” de cada grupo com seu professor ou, ao contrário, são pensadas pelos adultos, produzidas por eles, com altos gastos financeiros como condição para ser boa? Para quem?
  4. Crianças de cinco e seis anos entendem a relação histórico-social do ano e ciclo que termina, como os ícones de formaturas universitárias que envolvem diploma (canudos) e becas (roupas pretas)? Roupas confortáveis e frescas fazem bem às crianças, para brincarem juntas! Brincar e comemorar! Até rimam.
  5. Que significado social tem hoje um canudo/diploma na sociedade contemporânea onde eles não oferecem nenhuma garantia de trabalho, de emprego, de sucesso e nem de felicidade? A diplomação, na vida universitária é apenas um quesito importante que não oferece nenhuma garantia para o formando. Que significado tem o diploma/canudo para as crianças? E para os adultos?
  6. Quem são os donos da festa e o que deve ser comemorado: a convivência e a amizade entre as crianças e suas famílias ou uma suposta antecipação de um mundo adulto que valoriza o valor do dinheiro, das vaidades pessoais e da exclusão que podem causar?
  7. Quando os pais escolhem uma instituição para compartilhar a educação de suas crianças, procura conhecer os “pilares” que sustentam essa instituição? Quais são os conceitos e valores que pautam a ação pedagógica que deveriam sustentar, também, as festas e as comemorações valorizadas pela instituição?
  8. Estão previstos passeios, piqueniques em espaços abertos, comemorações ao ar livre com brincadeiras livres para o ano escolar? Ou, de outro modo, as comemorações são pautadas pelos adultos, sustentadas em valores questionáveis que não respeitam suas crianças e suas diferentes famílias?
  9. As famílias não precisam “aceitar” placidamente tudo o que é proposto pela instituição escolhida. É importante conhecer os direitos, deveres e valores que devem reger a educação infantil e brigar por eles.  Quando não houver diálogo, trocar o/a filho/a de escola pode ser uma boa alternativa.
  1. Para concluir, precisamos todos reconhecer que há condutas inadmissíveis em certas famílias e, também, em algumas instituições que não respeitam suas crianças. Gostaríamos que todas as crianças tivessem acesso à educação infantil de qualidade e gratuita, mas isso ainda não é possível. Em qualquer situação, nenhuma criança pode sofrer invisibilidade por parte dos adultos, nenhuma criança pode ser excluída do seu grupo e nem pode ser privada de participar de uma festa, capitaneada pela instituição em que frequenta, por exigência quanto à roupa, quanto à uma impossibilidade de pagamento de taxas extras. Isso é aviltante.

 

O Papo de Pracinha defende que seja dever das instituições de educação, em todos os níveis, quebrar com essa visão consumista e reduzida do mundo que se pode comprar,  que só tem servido para competição, destruição e tristeza entre as crianças, também entre os adultos.

Se esses são os valores da instituição que sua criança frequenta, é preciso pensar se ela serve para a sua criança, para a sua família. Para as do Papo de Pracinha não serve. Não, mesmo.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

1 comentário em “Sobre formatura em instituições de Educação Infantil

  1. Maria Lúcia Figueiredo

    Ótima abordagem!!! Trabalhei muitos anos em boas instituições de Educação Infantil, tive 3 filhos que passaram por algumas outras e NUNCA participei de uma formatura destas!!!

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