Sobre o desenho da criança na escola: é preciso enxergar a poesia da criança!

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Na nossa última conversa sobre o desenho e outras linguagens expressivas no contexto escolar, mencionamos as pastas que as creches/pré-escolas costumam mandar mensalmente para a casa das crianças, contendo as suas produções, ou “trabalhinhos”, termo muito usado na Educação Infantil. Muitas vezes, mais do que uma forma de promover a participação das famílias, no sentido de oportunizar  o diálogo entre a escola e os pais/mães e, também, destes com seus filhos/as, essa prática funciona, principalmente, como uma satisfação da escola em relação ao trabalho realizado com as crianças. Isso, certamente, influencia o planejamento das/os professoras/es em relação às experiências que as crianças terão com as diferentes linguagens expressivas: a preocupação maior é com o resultado, o produto, o papel que irá para casa ou para o mural, o desenho que encantará as famílias. A experimentação, as escolhas, a busca de soluções, as descobertas, ou seja, tudo aquilo que constitui o processo da criança, fica em segundo plano, ou melhor, na maioria das vezes, nem acontece! Ao contrário, as crianças frequentemente são comandadas, conduzidas pelos adultos a executar uma proposta pré-definida, que não abre espaço para o inusitado, para a surpresa, para que a criança deixe suas marcas e viva, efetivamente, com o seu corpo inteiro e a sua imaginação, suas mãos e suas mentes, a experiência de desenhar, pintar, construir etc.,  livremente!  Mas isso seria fazer poesia, e não  “trabalhinhos”!

Sim, como nos disse Drummond, as crianças são poetas, mas “[…] a escola não repara em seu ser poético, não o atende em sua capacidade de viver poeticamente o conhecimento e o mundo” (ANDRADE, 1976, p. 593). A poesia está viva na criança quando ela é livre para olhar, tocar, sentir as coisas, fazer conexões, falar, pensar, imaginar e, por meio de gestos, movimentos, sons, formas, cores e palavras, expressar-se e perceber o mundo e a si mesma. Mata-se a poesia da criança quando se prioriza a atividade-produto, a ser apresentada aos pais/mães. Onde fica a arte? Onde fica a criança? Onde fica a liberdade de fazer cavalos verdes? De fazer arvores que voam? Ou traços, formas, e cores que, não necessariamente, se traduzam em palavras– em resposta à pergunta “o que você fez?” –  mas simplesmente tenham o sentido da experimentação, da estética, da poesia da criança?

O que significa ver as crianças como poetas? Como podemos trabalhar com as diferentes linguagens expressivas de modo a enriquecer as possibilidades de expressão artística da criança e de refinamento do seu olhar sensível para o mundo?

A arte precisa estar presente na Educação Infantil, como um campo de conhecimento que se constitui pela imaginação, pela sensibilidade, pela criação, pela experimentação, pela pesquisa, pela surpresa, pela liberdade, pela escuta e atenção às coisas. Não comporta moldes, controles e normas!

Afasta-se da arte, quando as linguagens artísticas são usadas para o ensino de conteúdos. E também quando se tornam instrumento de normatização do desenvolvimento infantil, dispositivo avaliador e classificatório, supostamente revelador da evolução do desenvolvimento da criança. Sim, isso se faz, comumente, com o desenho infantil, quando o foco está muito mais nas etapas evolutivas, que definem um percurso na direção do pensamento adulto, racional-competente-completo, no lugar do processo singular de cada criança.

No entanto, é engraçado constatar que esse a maioria das pessoas desaprenda a desenhar na idade adulta, aquela supostamente completa, considerada o ponto final (?) das etapas do desenvolvimento. Por que isso ocorre?

Matisse, Picasso, Klee, entre outros tantos artistas, foram buscar na criança as fontes para o olhar curioso, sensível, livre e brincante, necessário à criação. Matisse disse: ao artista é indispensável ver a vida inteira como no tempo em que se era criança, pois a perda dessa condição nos priva da possibilidade de uma maneira de expressão original, isto é, pessoal. E Picasso declarou: “…precisei de uma vida inteira para aprender a desenhar como uma criança”.

Os artistas percebem a poesia das crianças! E nós? E a escola?

A escola não percebe a potência criativa da criança quando lhes apresenta desenhos estereotipados a serem reproduzidos, quando tentam conduzir e formatar seus processos, quando lhes constrangem as possibilidades de imaginar e criar, de fazer por si mesmas, de experimentar!

Para ver poesia na criança e permitir que ela amplie suas possibilidades de expressão criativa, a escola precisa caminhar no sentido de:

  • promover o contato da criança com a arte, através da apreciação de diferentes e variadas produções artísticas, em diferentes linguagens;
  • possibilitar o diálogo da criança com diferentes materiais, a partir da liberdade de experimentá-los, de fazer conexões e de dar forma a sua imaginação;
  • experimentar diferentes posições, suportes e texturas para desenhar, pintar, moldar, construir;
  • permitir que a criança “faça arte” com a mesma liberdade, encantamento e alegria com que brinca;
  • mobilizar os sentidos das crianças para as coisas, para os significados que se constituem nas suas relações com a natureza, com as pessoas, com os espaços, com os objetos e com a arte, promovendo ampliação de um olhar sensível sobre o mundo;
  • Ampliar as experiências reais e simbólicas das crianças, alimentando o seu repertório literário, imagético, cênico e fílmico. Olhar sempre o mesmo, o único, empobrece. Como a criança poderá enriquecer suas formas de expressão se o que vê são formas/cores únicas e estereotipadas de gatos, cachorros, árvores, casas, nuvens, cavalos etc.? É preciso ter espaço para o diverso, para a riqueza imagética que existe no mundo e, também, é claro, para aquela que se pode inventar!
  • Cuidar do visual dos espaços, oferecendo às crianças referências para o repertório de imagens e para o pensamento. O espaço também fala e educa o olhar;
  • Encorajar as crianças a se expressar em diferentes linguagens e a encontrar os seus próprios caminhos de expressão e criação.  Para tanto é preciso abrir mão dos moldes, do previsto, dos resultados, dos estereótipos, dos trabalhinhos a serem reproduzidos. É fundamental valorizar os processos das crianças!

Como dissemos em um dos nossos textos – “Sobre Romero Britto, crianças e arte na Educação Infantil” – promover o diálogo entre a criança, a arte e a educação é muito mais do que ensinar técnicas de arte e oferecer modelos para as crianças reproduzirem. É muito mais do que fazer trabalhinhos formatados de Romero Britto ou Tarsila do Amaral, é muito mais do que pintar e carimbar mãos e pés no papel. As crianças podem e merecem muito mais do que isso! As crianças precisam voar fora da asa!

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Referências:

ANDRADE, C. D. de. A educação do ser poético. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v. 61, n. 140, p. 593-594, out. 1976.

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