Sobre o desenho da criança na escola: a liberdade de fazer cavalos verdes!

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Na educação Infantil, é comum ainda existir na rotina um espaço dedicado ao desenho e, algumas vezes, a outras linguagens expressivas como a pintura, a modelagem, entre outras (a partir do Ensino Fundamental, infelizmente, esse espaço se reduz ou mesmo desaparece!) . Ao final de cada mês, os pais e mães geralmente recebem uma pasta com as produções de seus filhos/as nessas diferentes linguagens: desenho, colagens, pinturas com tinta e outros materiais, etc. O que será que essas produções geralmente expressam?

Vamos ver o conteúdo da pasta que o Martin levou para casa(2 anos e meio): (1) um sapo, em que o corpo é feito pela professora em papel colorido verde, recortado e colado no papel, e as patas do sapo são formadas pelo “decalque” no papel, na posição adequada, das mãos da crianças pintadas de verde; (2) um círculo, cujo interior é preenchido com colagem (com certeza comandada pela professora) de pequenos recortes triangulares de papeis de diferentes cores (pré-recortados por adultos); (3) uma flor, com pétalas e miolo feitos com o “carimbo” das pontas dos dedos da criança, pintados com tintas de diferentes cores, e posicionados acima do caule pré-desenhado pela professora; e outras produções semelhantes. A pasta do Diogo, do mesmo grupo, tem as mesmas produções. Idem para a pasta da Diana, da Maria e do João. Onde está a singularidade, a imaginação, a liberdade de experimentar, a criação, as formas próprias de se expressar de cada criança? Como é o jeito próprio de fazer de Maria, João, Diana e Martin?

O que os adultos estão dizendo às crianças com esse tipo de proposta? Na verdade, o que dizem é que elas ainda não sabem, precisam ser ajudadas, conduzidas, para executar o modelo proposto pelo adulto: vamos fazer “um sapo bem bonito”, “um jardim florido”  etc. As mãos das crianças precisam ser seguradas, orientadas para não borrar, para colar no lugar certo, para pintar a forma desejada, que é a forma (ou fôrma!) do adulto, a obra pronta que apresenta um resultado a ser exposto no mural e apresentado aos pais.

Outra forma de controle das crianças (sim, é controle!) busca definir as cores e formas que a criança deve usar no seu desenho ou pintura: o céu tem que ser azul, as nuvens brancas, os folhas das árvores verdes etc. Cavalo verde? Céu vermelho? Pessoas com os pés fora do chão? Nem pensar! Lá vem a censura e até mesmo a correção, o “lápis vermelho”(sim, isso ainda existe!).

Onde fica a autoria, a criação da criança? Por que as crianças não podem experimentar, seguir suas próprias ideias, movimentos, sentimentos, imaginação e se lançar no processo de criação e descobertas de suas possibilidades? Por que os adultos têm tanta preocupação com o resultado, não se sensibilizando com a riqueza do processo da criança?

Se dermos um lápis nas mãos de uma criança de 2 anos e meio e um papel, o que ela faz? Um risco, vários riscos, linhas retas, curvas,  fortes, fracas, contínuas, descontínuas, de uma, duas, várias cores…a que ela pode chamar de chuva, bruxa, fogo, casa, menino, ou mesmo não nomear, pois seu foco pode estar apenas na experimentação estética e não no desenho como representação. Perguntamos: isso não é desenho? Sim, é desenho, é expressão, é uma marca da criança, uma experimentação por meio da qual descobre formas, cores, sensações, conectando imagens, sentidos e experiências. Não pode ser vista apenas como expressão de uma etapa do desenho, a primeira etapa: a rabiscação.  Isso é uma invenção do adulto, da psicologia, que definiu um percurso para o desenho no processo de desenvolvimento infantil, cujo ponto final seria a representação de uma cena completa, a representação da realidade.

Essa é uma visão equivocada e empobrecida do desenho, da pintura, da expressão artística no campo escolar. E também da criança, que precisa ser vista, no aqui e agora, naquilo que faz, na sua potencia e não pela falta, pela incompletude, pela ausência, pelo vir-a-ser. Só assim, poderemos perceber o desenho da criança (e ela também!) em toda a sua riqueza, em cada momento do seu percurso, ao invés de enxergá-lo a partir do que falta para chegar à uma suposta etapa final.

Temos muito o que conversar sobre o tema! Enviem suas observações sobre as produções das crianças nessas diferentes linguagens! E vamos refletir sobre as possibilidades artísticas das crianças nos espaços de Educação Infantil! O que tem sido feito nas escolas? Como o trabalho com diferentes linguagens artísticas pode ser realizado na perspectiva de contribuir para o processo criativo e expressivo da criança?  E para a criança, o que significa desenhar? O que tem a ver o desenho com a brincadeira e a imaginação?

Aguardem a nossa próxima conversa sobre essas questões!

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

3 comentários sobre “Sobre o desenho da criança na escola: a liberdade de fazer cavalos verdes!

  1. Mais do que controle, os elementos das produções visuais são desconsideradas. A expressão artística a partir de imagens, é claramente violada nos exemplos citados. Aprendendo com os artistas, observamos boi roxo, árvores compostas apenas de linhas retas, corpos retorcidos, perspectiva intencionalmente desconsiderada. Os elementos que compõem as produções visuais devem estar a serviço das ideias que pretendemos expressar. A experiência com o que chamamos de elementos da visualidade pelas crianças deve ser realizada com absoluta liberdade.

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