Babás full time, mulheres quase perfeitas. Por que sim, por que não?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioO tempo urge e a vida exige que mães e pais trabalhem e deem conta de inúmeras tarefas, restringindo-se muito o tempo de convivência com suas crianças.  Sabemos que entre a vida na corda bamba, a sobrevivência, a vida profissional e os filhos, cada família cria seus arranjos que envolvem avós, tias, babás, creches e pré-escolas.

Essa dinâmica é tão estressante e dolorosa para as famílias que não nos cabe nenhum tipo de julgamento ou crítica. Ao contrário, um alento – a história comprova que as crianças sobrevivem e seus pais também, na maioria dos casos.

Sabemos também que há algumas famílias que vivem uma realidade de trabalho mais tranquila e que conseguem dedicar todo o seu tempo aos filhos. Mas, muitas vezes, nesses casos, percebemos um excesso de apego e cuidado, onde sobra pouco espaço para a criança e os pais respirarem o mundo fora dessa relação.

Pensamos em destacar aqui que o desacerto na dose, para os dois lados, no contato entre o pai, a mãe, seu menino e/ou sua menina, pode ser responsável por  uma possível inadequação na vida afetiva e emocional das crianças.

Ela só come comigo, ele só dorme comigo.

Aquelas crianças e mães, em geral, que vivem numa bolha intransponível onde não cabe mais ninguém e ambas acham que não sobrevivem uma sem a outra, faz acender uma luz amarela: ATENÇÃO. Aos poucos e sem estresse as crianças devem ir ampliando o seu universo de convivência, incluindo outras crianças, adultos e espaços novos. Portanto, ao longo da infância, as crianças e suas famílias precisam se desapegar, com cuidado, no sentido de ampliarem e não de restringirem o universo de experiências de suas crianças.

Portanto, frases assim “ela só come comigo, ele só dorme comigo” não devem ser motivo de orgulho para os adultos de referência de cada criança.

Por outro lado, vemos crianças que parecem felizes e saudáveis, coradas, bem alimentadas que passam a sua infância praticamente sem contato direto com o pai, a mãe. São aquelas que têm mais de uma babá ou acompanhante, que se revezam nos fins de semana com as folguistas. Estamos considerando, aqui,  todas essas profissionais como pessoas equilibradas, afetuosas e excelentes substitutas de mãe e de pai.  A tal luz amarela acende pela falta ou pelo excesso, de novo sugerindo ATENÇÃO.

Por que  é tão importante o contato e o vínculo com pai e mãe?     

Bem, dá pra garantir que profissionais da área de Psicologia tenham mais e talvez melhor o sustento para esses pontos, mas, como professoras e pesquisadoras do campo da Educação temos, também, pontos de vista importantes que, certamente, nos aproximam muito dos profissionais de outras áreas.

  1. Contato físico, direto:

O contato com o corpo, desde a gravidez e depois que nascem, por meio do olhar, do toque, da voz de pai e mãe são estruturantes para que nossas crianças se sintam seguras em seu movimento de ser parte e se integrar, de modo bastante personalizado, ao mundo em que vivem. Enfermeiras e boas babás podem oferecer muito conforto e segurança aos adultos e às crianças mas nada substitui, nas doses possíveis, essa relação mais constante e próxima entre os adultos e sua criança.

  1. O que é melhor, para quem?

Cada família tem princípios, regulações e formas de viver que diferem de uma para a outra. A entrada de uma terceira pessoa, que pode ser a babá ou a acompanhante da criança, poderia também ser uma avó ou uma tia que funcionasse como tal, pode trazer outros princípios e valores que não se coadunam com os do pai e da mãe. Isso pode ser resolvido sim, respeitando os valores da família e os da ajudante. No entanto, em geral, quando a família tem muito pouco tempo com sua criança, sequer consegue identificar esses pontos e, menos ainda, tem tempo e espaço para dialogar com essa “assistente”. Não nos referimos aqui a nenhuma maldade ou falta de escrúpulos dessa pessoa, apenas a coisas simples e preocupantes como eventuais fobias, que podem ser medo de ver sangue (chegam a desmaiar), medos exagerados de pequenos animais e insetos (barata, pombos, cães etc), pessoas que seguem a cosmovisões ou religiosidades de modo intenso. Ouvimos de certas famílias: “como ela é muito religiosa eu sei que nunca fará mal à minha criança”, sem uma reflexão mais profunda do que seja fazer bem e/ou fazer mal, em relação às verdades de cada casal e família.   Há também babás que ensinam os números e as letras do alfabeto para crianças antes dos dois anos, acreditando que estão contribuindo para a criança ficar “esperta”, “inteligente. Esse descompasso é complexo no dia-a-dia. E há, ainda, mães, pais e babas que fumam perto das crianças e que ficam com fones de ouvido ligados aos celulares enquanto estão junto delas. Qual é o limite do perdoável e do que deve ser  respeitado?

  1. As crianças precisam de uma vida organizada.

Há um tipo de vínculo que é indispensável para a organização da vida interior da criança que, durante parte da sua infância, precisa se sustentar na frequência, no contato habitual e comum com pessoas e espaços, por mais descolados e arejados que sejam uns e outros. Assim, podemos dizer que algumas ordenações sejam estruturantes: tomar banho num certo horário e com uma certa pessoa, sempre respeitando cada criança, ser recebido/a sempre por uma mesma pessoa na creche ou na escola, pegar e guardar brinquedos em lugares conhecidos e ao alcance das crianças, e por aí vai. Esses adultos “de todos os dias” não precisam ser sempre, nem apenas, pai e mãe, mas pode ser bem ruim variar demais ou os pais não estarem com eles hora alguma, não terem contato de corpo, de olhar e de toque, não brincar. Tomar banho junto, por exemplo, é uma intimidade possível apenas para pai e mãe, e as crianças adoram, muitos pais também. Há um tipo de aproximação e de intimidade que gera amor e segurança, que depende dessa relação entre pais e seus filhos/as.

  1. Quantidade e qualidade

Como diz nosso amigo pediatra Daniel Becker, não vale apenas a quantidade do tempo com suas crianças mas alguma qualidade também. Claro, quantidade e qualidade juntinhos para não se anularem.

Segundo ele, ter filhos exige planejamento embora a maioria das pessoas não faça isso. Mas tem que pensar nas condições de vida que essa criança vai nascer e como nós vamos dedicar o nosso tempo a ela. Isso faz parte da responsabilidade de um casal. É preciso planejar a carreira, o local de trabalho para que a convivência familiar seja maximizada, para que a criança cresça com a presença dos pais, dos avós, tios, primos. 

Os pais sentem culpa porque não estão presentes na vida dela e quando estão juntos querem dar coisas demais. A gente briga com essa história de dar presente, ao invés de dar presença. 

  1. As crianças precisam ouvir histórias encantadas:

Embora reconheçamos que essas ajudantes estejam sendo a cada dia melhor formadas, em geral, a maioria das que resolve trabalhar com uma família já identificou com clareza por onde passa seu desejo (faxina? Cozinha? Idosos? Crianças?), sendo que ele precisa caminhar par e passo com o trabalho diário. Grande parte delas é identificada como cuidadoras e protetoras,  com todas as letras.

No entanto, se até dentro das universidades, nas creches e pré-escolas somos capazes de encontrar:  os defensores da ocupação integral do tempo as crianças com atividades programadas, aqueles que veem a brincadeira livre como perda de tempo, como uma atividade improdutiva etc. é fácil imaginar que essas doces mulheres não tenham recebido  formação e,  infelizmente, muitas delas não puderam brincar nem estudar na idade certa, para valorizar a voz e as falas de suas crianças, os espaços de brincadeira livre e ao ar livre e, também, a importância de estarem juntas  na hora das boas histórias. O imaginário infantil precisa ser alimentado por essas brincadeiras, pelas histórias encantadas, pela transformação da terra com a água, com pó de café, por palitinhos de sorvete que boiam na água etc.

Para concluir e reafirmar:   só temos reconhecimento, elogios e agradecimentos para fazer às babas e a todas as ajudantes na família. E não cabe aqui nenhuma crítica ou julgamento ao modo como cada família escolhe se organizar, quando podem pagar a uma pessoa para ajudá-la. Lembremos de um número imenso de crianças que vivem soltas, desconectadas de qualquer adulto, sem proteção alguma, sem direitos, quando não são “cuidadas” por outras crianças (irmãs e irmãos mais velhos), vizinhas etc.  Precisamos lembrar daquelas que ficam todos os dias da semana com uma tia ou uma avó e que passam apenas os fins de semana com seus pais.

Queremos apenas lembrar que nada substitui a relação de pai e de mãe com seus filhos!  Nada! Mas como dissemos no início, a história mostra que, de um jeito ou de outro, as crianças sobrevivem. Mas mais do que sobreviver, queremos que elas cresçam seguras e felizes.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

*Imagem: Designed by peoplecreations / Freepik

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