A avó: entre a mãe e a sogra

*Fragmento do livro Como nascem os avós, Ed Multifoco, RJ:2016

Há vários mitos e frases feitas que fazem parte do senso comum e que se mantêm vivos ao longo do tempo polarizando os papéis de avós e de sogras. Às avós, cabe o título de “mães com açúcar” e às sogras, o que há de pior: são como cobras, traiçoeiras, via de regra são mulheres possessivas e ciumentas de seus filhos e, para sublinhar com bom humor isso tudo, têm a máxima de que também elas, as sogras, tardam, mas não falham, como se houvesse uma suposta astúcia ou ardil comum a todas.

Esse senso comum é totalmente rejeitado por nós, é equivocado e chega a ser crudelíssimo com certas avós. Dói no coração ouvir coisas assim: filho de filha, neto é. Filho de filho, será que é? Para sacramentar, há ainda a crença perversa de que as avós correriam o risco de perder o amor e a convivência com filhos e netos, os filhos de filhos homens. E a pá de cal é a ameaça latente de que, aos poucos, eles adotariam para si apenas a família de suas amadas. Crenças antigas, ainda vivas, mas que não são verdades universais que se repetem. Estamos aí, vivendo outros modelos de famílias que desafiam o senso comum em nome de amores verdadeiros, de outros tipos de relação entre mulheres de uma mesma família. Nenhuma dessas ameaças, precisa rondar a sua vida e isso depende muito da cultura, da liga de maior ou menor amor e respeito que une cada família, para além dos laços de sangue.

Você tem ciúmes dos seus filhos?

O que pode justificar o sentimento de ciúmes em relação às mulheres amadas e escolhidas pelos seus filhos?  Quem são elas, individualmente e quem é você na relação com elas?  Não se pode amar e respeitar sentindo-se ameaçada ou perdedora. Jamais.

Mulheres inteiras e felizes admiram noras e genros inteiros e felizes: autônomos, independentes, respeitosos e amorosos. Pessoas felizes.

Eventualmente tudo vai bem até o nascimento do neto, quando o filho ou a filha se tornam pai ou mãe, e de como se estabelecerá essa nova relação de mães, pais, avós, filhos e netos. Junto com uma avó e um avô nascem tios, primos, padrinho que querem cercar o bebê e o casal de amor.

E, embora rejeitemos esses lugares sociais antigos, gelados, cruéis e pré-estabelecidos destinados às sogras e às avós, essa proximidade da avó-sogra com o casal e com o neto vem exigir, indiscutivelmente, uma medida saudável e prazerosa para todos. Vale a frase sábia que ouvíamos quando crianças: o pouco enobrece, o muito aborrece.

Embora sem bula nem fórmula, não pode haver impulsos do coração que justifiquem uma quebra de respeito e de ética amorosa entre pais e filhos, entre sogras e noras, entre avós e netos. Como descobrir essa medida? Mesmo vivendo esse amor intenso que leva ao desejo permanente de estar com o neto e com o casal?  É preciso ter sensibilidade e cuidado para definir os espaços e os intervalos de presença – e de ausência – de modo a garantir apoio e amor sem invadir.

Como respeitar sem invadir?

Em geral, os avós procuram ser presentes e disponíveis afetivamente para o filho-papai, filha-mamãe e com o bebê-neto/a mas a medida deve ser dada pelos filhos, o pai e a mãe, em cada caso, já que tudo é novo para todos.  Afinal, com maior ou menor esforço educamos nossos filhos como quisemos e nossos filhos têm o direito e o dever de estabelecer o seu modo de ser pai e mãe.  E ainda, é possível que seus filhos, criados por você, criem seus netos de modo totalmente diferente. É preciso respeitar sempre, não julgar nem querer impor suas práticas e seus valores. Agora valem os deles!

Mais uma vez, encontramo-nos todos nessa ciranda de aprendizagens coletivas. O desafio consiste em aprender a compartilhar tempos e espaços, estar disponível afetivamente para ajudá-los com delicadeza, respeito e sem desabilitar o novo casal. Eles precisam se apoiar na sua própria sensibilidade e em suas escolhas para crescerem como pai e mãe. E nós, como avós. O que será que de fato está no centro dessas disputas femininas familiares? Responder a isso e superar essas coisas se configuram num desafio tremendo para algumas mães, sogras e avós, mas passível de superação. Sempre.

Por que os sogros e os homens em geral não carregam essa fama de invasivos, desrespeitosos e autoritários? Precisamos refletir para poder sair desse lugar.


*Como nascem os avós: o livro traz crônicas escritas pelo psicanalista e avô José Inacio Parente e pela educadora e avó Maria Inês Delorme, sobre a chegada dos netos e seus encantos e desafios. É encontrado na loja online da Editora Multifoco, aqui.

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