Os dois lados dos grupos de whatsapp de mães e pais da escola

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Outro dia conversávamos com um amigo sobre filhos, mais especificamente sobre o contexto da escola, e um dos temas debatidos foi sobre os grupos de whatsapp de mães/pais da escola dos filhos. Ele dizia o quanto estava incomodado com algumas coisas que vinham acontecendo no grupo de mães da turma de um dos filhos, o mais velho (7 anos), a partir de uma situação que havia ocorrido na escola, de desentendimento entre seu filho e um colega de  turma. Ele comentou sobre a interferência das mães em relação ao fato ocorrido, bem como sobre o quanto aquela discussão entre elas havia exposto o filho, e a outra criança também, que passaram a ser alvo de julgamentos precipitados e recomendações quanto à conduta dos pais e da escola em relação às crianças.  Ficou tão aborrecido que sugeriu que a esposa saísse do grupo, com o que ela não concordou, argumentando que, se o fizesse, não saberia mais o que estaria acontecendo na escola no âmbito da turma de seu filho. Nosso amigo é da opinião que esses grupos podem trazer mais prejuízos do que vantagens e, ao comparar com o seu tempo de escola, lembra que o cotidiano da sua turma era mais preservado, não tendo tanta interferência dos pais. Quando os problemas surgiam, na maioria das vezes, eram resolvidos ali entre os alunos, não ultrapassando os muros da escola.

O problema é que hoje, com as redes digitais, a vida na escola ultrapassa em muito, e de forma quase instantânea, os limites da escola. Para o mal e para o bem! São muitas questões envolvidas no uso do Facebook, Instagram, WhastApp, Youtube, entre outras possibilidades. Mas hoje nossa conversa é sobre o uso do whatsapp pelos grupos de pais no contexto escolar.

Os grupos de whatsapp de mães e pais são uma realidade cada vez mais presente. A entrada nesses grupos é quase compulsória e inevitável. Mas quais são os objetivos e limites desses grupos? A que servem? Em princípio, são criados para troca de informações sobre o dia a dia dos filhos na escola, contribuindo para que cheguem a todos, de forma rápida, informações e assuntos que envolvem combinados, festas de aniversário, programas culturais, alertas sobre doenças contagiosas, promovendo uma relação colaborativa entre os pais.  Se antes o encontro, a conversa, as programações (e também as “fococas”) aconteciam na porta da escola, entre as mães que tinham mais disponibilidade de levar e/ou buscar seus filhos, hoje a conversa foi ampliada, envolvendo também aqueles pais e mães que não podem levar e buscar seus filhos todos os dias na escola.

Mas precisamos levar em conta que, volta e meia, aparecem, nesses grupos, temas/conversas que geram desconfortos, constrangimentos, intrigas, desavenças… É preciso refletir também sobre os aspectos negativos dessa nova forma de comunicação, para que tenhamos um uso mais cuidadoso dessa ferramenta, não é mesmo?

O bom uso do whatsapp

 Já mencionamos acima vários aspectos positivos desses grupos, que funcionam como um  meio eficaz e prático de comunicação entre as famílias, facilitador da conexão, da troca de experiências, da colaboração, da informação, da organização de programas nos finais de semana e feriados, do esclarecimento de dúvidas sobre tarefas de casa e outros acontecimentos da escola.

Quando funciona com esse objetivo, é uma poderosa ferramenta de colaboração e aproximação entre as famílias e, também, entre as crianças. Além disso, promove possibilidades de participação na vida escolar dos filhos para todas as famílias, incluindo as que têm pouco tempo para estar presente no levar e buscar ou nas reuniões de pais.

 Mas até onde vão os limites do whatsapp?

 Quem pertence a grupos “temáticos” diversos de whatsapp sabe que é muito comum receber mensagens desprovidas de “bom senso”, como as que espalham correntes, vídeos, fotos, piadas, desejos de bom-dia ou assuntos relacionados a política, causando um excesso de conteúdo no seu aplicativo que perturbam e prejudicam a leitura de mensagens pertinentes ao objetivo principal do grupo. Isso é um aspecto comum a muitos tipos de grupos, como família, amigos, trabalho etc., não escapando, a alguns grupos no contexto escolar. Temos relatos que indicam isso. Mas esse talvez seja o menor dos aspectos negativos, uma vez que pode incomodar os membros do grupo, mas não envolve diretamente as crianças.

Encher o grupo com o envio de fotos dos filhos em passeios também é algo que acontece algumas vezes, transformando as “dicas de atividades” em exibicionismo e marketing pessoal. Outra questão relacionada a fotos é quando se coloca a foto de um evento em que nem todas as crianças foram convidadas, podendo gerar sentimentos de exclusão desnecessários.

Outro aspecto diz respeito às observações ou queixas, compartilhadas no grupo, em relação às práticas escolares.  Ao mesmo tempo em que  muitas dessas observações podem ser bastante úteis e servir de alerta para as famílias cobrarem da escola um trabalho mais cuidadoso com seus filhos, também podem ser fruto de interpretações equivocadas e exageros por parte de quem a expõe, gerando inseguranças e insatisfações desnecessárias nos demais, e que poderiam ser evitadas se o primeiro canal de comunicação para conversar sobre essas questões fosse a escola. A “lupa” ou a “lente” que interpreta uma cena ou uma frase, retirando-a do contexto, pode estar criando uma realidade distorcida que rapidamente pode se espalhar e se tornar “verdade”. Uma provocação de uma criança para a outra nem sempre é bullying, uma criança que agride a outra nem sempre é violenta ou uma ameaça, uma criança que está sozinha afastada do grupo, nem sempre foi excluída, uma fala mais incisiva de um professor para uma criança nem sempre é imprópria, entre outros exemplos. Antes de compartilhar e espalhar no grupo interpretações retiradas de uma situação parcialmente conhecida, que tal conversar com os profissionais da escola primeiro para questioná-los ou sanar as suas dúvidas?

Há ainda um aspecto bastante problemático, que tem a ver com situações semelhantes à relatada no início do texto, que são aquelas que expõem as crianças, trazendo para o grupo assuntos (muitas vezes frutos de interpretações equivocadas) ou fatos não totalmente conhecidos, que podem gerar julgamentos, desrespeito e indisposições entre os adultos, entre as crianças e, também, entre os adultos e as crianças. Desse modo, cria-se no grupo formas de controle/repressão por parte dos pais, que querem palpitar sobre tudo o que envolve seus filhos, não economizando em julgamentos e recomendações para a solução dos problemas que surgem.  Isso configura-se, muitas vezes, como uma espécie de bullying materno/paterno, gerando até mesmo exclusões de crianças e seus pais de atividades organizadas pelo grupo.

Levantamos aqui diferentes aspectos, mas há um elemento comum a essas diferentes situações, inerente à própria ferramenta, que nos ajuda nessa reflexão. A rapidez no repasse das informações, reconhecida como um valor (saber rápido, saber primeiro)  muitas vezes é responsável pela sua superficialidade na divulgação e, também, na análise, que deveria ser mais profunda, comprovando que o tempo pode ser um inimigo das reflexões sensíveis e contextualizadas sobre ações de crianças e de suas famílias. Todos precisamos conviver por segundos, horas ou dias antes de ser contra ou a favor de qualquer coisa. O tempo do whatsapp é quase imediato sendo que poucas coisas são entendidas e, muito menos, equacionadas imediatamente. O tempo da urgência que o whattsap estabelece propõe uma ingestão de coisas sem mastigação, sem digestão e, com isso, criamos outros tipos de urgência em relação à vida de nossas crianças. Quem nos ajuda a estabelecer a relação entre o que é urgente e o que é importante  para as nossas vidas e de nossas crianças?

E você, quais são as suas experiências nesses grupos? Que questionamentos você tem sobre o tema? Vamos nos arriscar, em um próximo texto, a elencar alguns caminhos e limites que possam orientar os pais/escolas no uso dessa ferramenta. Para tanto, gostaríamos da sua colaboração. Vamos lá?

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

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