Educar com liberdade não é educar sem limites: continuando a conversa.

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioNosso texto da semana passada Educar com liberdade não é educar sem limites mexeu com muita gente! Falamos sobre a tensão entre garantir a liberdade e a necessidade de colocar limites para a criança. Liberdade, para que ela possa fazer suas escolhas e participar daquilo que lhe diz respeito, e limites, para que ela possa participar da vida coletiva, se relacionar com os outros e atuar no mundo de forma solidária e responsável. Esse é um tema polêmico e ao mesmo tempo muito presente para pais e mães que pensam/refletem/decidem sobre a educação de seus filhos, buscando coerência com seus valores e com o que desejam para eles, no presente e no futuro.

Fizemos algumas perguntas aos leitores: de que forma definir limites, sem ferir o respeito às crianças e cercear as suas possibilidades de autonomia e participação? Qual a relação entre liberdade e limites? Que tipo de participação a criança pequena pode ter nas escolhas e rotinas da sua vida cotidiana, na escola ou na família? É possível construir a autonomia da criança desde pequena? Ficamos felizes com as contribuições que recebemos e traremos aqui algumas delas para continuar as nossas reflexões.

Comecemos com B. (mãe e psicóloga):

Este texto do Papo de Pracinha nos chega na mesma semana em que o jogo “Baleia Azul” tomou conta da mídia e das redes sociais suscitando questões  diretamente ligadas ao tema da liberdade na educação de crianças e jovens. A este respeito, um meme que se tornou viral foi o de um chinelo azul onde, em tom jocoso, pais eram convocados a resolverem o problema de supostos suicídios e auto-mutilações ligados ao jogo através de chineladas!

 chinelo azul

 O fato de o meme ter se tornado viral indica a alta receptividade que o castigo tem na nossa cultura como concepção de prática educativa eficiente, onde ainda impera o antigo dito popular “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Assim, talvez, uma pista para compreender a rejeição por escolas que conferem mais liberdade e autonomia aos alunos possa estar na nossa tradição cultural autoritária representada pelo sucesso da piada “do chinelo azul.

B. chama a nossa atenção para a cultura do castigo, tão impregnada nos modos de pensar a educação de crianças e jovens. Frases como “é de pequeno que se torce o pepino”, “não há nada que uma boa chinelada não resolva” são mesmo comumente usadas para ressaltar/valorizar/justificar o poder dos adultos e o modo como estes subjugam as crianças, pregando e praticando uma educação que não admite qualquer grau de liberdade ou participação delas. Concordamos que, efetivamente, essa seja uma das razões para a rejeição por escolas que têm a liberdade e a autonomia como princípios. Neste caso, em função de uma oposição radical a esses princípios.

Mas, mesmo os adultos que se opõem a uma educação autoritária, aquela em que a criança não tem voz, muitas vezes se assustam com a liberdade das crianças, pois isso implica lidar com a imprevisibilidade, a abertura para o novo, a descontinuidade e a perda do seu próprio poder de controle. Para conferir liberdade às crianças é preciso que os adultos abram mão do porto seguro do seu controle e da ordem, geralmente baseados em normas arbitrárias definidas sem a participação das crianças. Ainda que esta ordem sempre possa ser desviada ou questionada pelas crianças, provocando rupturas nas práticas disciplinares, os modelos autoritários de educação representam, sem dúvida, um caminho conhecido e previsível e, talvez, mais  seguro (pelo menos aparentemente) para os adultos. O fato é que muitos pais optam por caminhos mais conhecidos (muitas vezes parecidos com os que eles trilharam) e as escolas “tradicionais” aparecem como uma opção mais confortável.

Vejam o que diz F. (mãe): É importante estimular a autonomia através de tarefas do dia a dia para que a criança adquira auto confiança! Mas em relação à escola, prefiro errar para mais do que para menos quando o assunto é disciplina e cobrança. Acredito que talvez percamos em criatividade, mas ter a possibilidade da criança confundir liberdade com falta de respeito ou de responsabilidade, me faz optar pelas tradicionais. Nesse caso, F. demonstra uma preocupação com algo que comentamos no texto anterior, que é “a dificuldade percebida em muitas dessas escolas de colocar em prática a liberdade como eixo do trabalho com as crianças. Não é incomum que, nessa busca de construir práticas que atendam aos princípios de liberdade, respeito e  participação das crianças, o trabalho educativo se apresente pouco estruturado e a  liberdade seja confundida com ausência de limites.”

É interessante observar também que a mãe F. se coloca no lugar de quem erraria sempre nessa escolha, para mais ou para menos, como ela diz. Mas perguntamos: o que é mais e o que é menos quando o assunto é disciplina? Ou liberdade e limites?

Agora vejam como aquele primeiro comentário, de B. (mãe, psicóloga), tem a ver com o que diz T. (mãe).

(…) posso dizer uma coisa, deixar os filhos terem um mínimo de autonomia e escolhas em suas vidas assusta a maioria das pessoas, eu e meu marido somos frequentemente vistos como pais “easy going” demais, e eu não concordo! Acho importante eles [as crianças] poderem tomar decisões, ainda que pequenas.

Eu e P.(pai) concordamos que nossos filhos devem aprender experimentando, vivenciando e isso normalmente ocorre por suas próprias decisões, após esclarecermos as  consequências (boas e ruins) de suas possibilidades de escolha. Exemplo: [ se querem ] correr de chinelos de dedo, explicamos que existe um risco maior de se “estabacar” com a cara no chão, e eles decidem se correrão ou não esse risco. Óbvio, não expomos nossos filhos a riscos graves, como entrar na piscina com ou sem boia quando não sabe nadar, nem transferimos a responsabilidade de  decidir sobre algo que eles não são capazes de decidir. [Mas] tentamos criar nossos filhos de forma livre dentro dos limites que estabelecemos para eles, e há espaço pra que eles possam avaliar e tomar suas pequenas mas importantes decisões. 

 T. sente o incômodo que a sua forma de educar provoca nas pessoas, chegando a ser vista como “easy going”, “liberais e inconsequentes” Talvez isso se deva a termos ainda como modelo de educação dominante o do “chinelo azul”. Será?

O que T. e P. demonstram considerar importante é envolver as crianças, sempre que possível,  nas decisões sobre o que lhes diz respeito, promovendo o exercício da escolha, da participação e da responsabilidade pelo que fazem. E isso é algo fundamental para a conquista da autonomia da criança. Por que não deixá-la participar da decisão sobre a melhor forma e hora de guardar os brinquedos, da escolha da roupa que irá vestir, a hora em que vai fazer a pesquisa ou tarefa de casa, também quando servem-se nos pratos, na hora das refeições, entre outras possibilidades?

T. comenta sobre a dificuldade que percebe em muitos pais em relação à colocação de limites para os filhos, e pensa que existe, de um lado, uma preguiça de lidar com a consequência de um SIM LIVRE e , por outro lado, também existe o desconforto de um NÃO NECESSÁRIO. E fecha essa ideia dizendo Educar dá trabalho.

Sim, dá mesmo, exige sobretudo a presença amorosa, generosa e segura dos pais, estimulando a autonomia, a liberdade e a participação das crianças e, ao mesmo tempo, dando-lhes os contornos/limites necessários para que tenham uma boa, democrática, respeitosa e responsável relação com os outros e com os espaços em que se inserem.

Em relação à escolha da escola, a mãe T. lembra que:

Muitos pais optam por escolas “fortes” por conta do mercado de trabalho que está cada vez mais concorrido etc., e tomam a decisão de colocar seus filhos de 6 anos em escolas que irão iniciar o processo de treinamento para o vestibular já na alfabetização, com muitos testes, muitos deveres de casa, com crianças lendo em duas línguas e escrevendo com letra cursiva e bastão com 5 anos. Filhos com futuro garantido, pais satisfeitos! Eu discordo disso. (…) Criança tem que brincar, sonhar, correr e, sim, aprender a ler e a escrever, mas de forma orgânica, sem competições e cobranças extremas. E sobre a sua escolha de escola, diz: eu pensei muito nas referências que tenho hoje e infelizmente não tive nenhuma referência de escolas mais “liberais”. Em contrapartida, tive somente referências positivas da escola onde ele estuda  hoje e o que mais importou foi ver que os ex-alunos que conheço dessa escola são pessoas que valorizam suas famílias e cultivam suas amizades. Além disso, possuem lembranças cheias de amor da escola, do incentivo ao esporte e contato com a natureza. Isso ultrapassou qualquer dúvida que eu tivesse e superou as questões que eu tinha sobre ser uma escola religiosa. A decisão foi acertada, pois meu filho está super adaptado e feliz.

 Chamamos a atenção para algumas expressões significativas e bastante arraigadas na nossa sociedade, que polarizam as escolas entre “fortes e fracas”, as decisões de pai e mãe “erradas para mais ou para menos”, quando falamos em liberdade, em autonomia e em limites na vida escolar. Vamos retomar essa discussão com o que nos foi dito por alguns/algumas educadoras para tentar oferecer ainda outros elementos para enriquecer a reflexão.

Ficamos nos perguntando se, e em que medida, precisaríamos conhecer mais sobre como se dá o processo de aprender, como as crianças constituem conhecimentos novos na relação com a experiência com outras crianças, pautadas nas interações sociais e na linguagem que sustenta e organiza o pensamento. Ao conversarem umas com as outras, saindo dos lugares estabelecidos para elas, para ir ao encontro de outras crianças com quem desejam falar, poderia ser  considerado como desobediência? Ou como falta de limites e de disciplina? E caladinhos e sentados, aprenderiam mais e melhor? São pontos importantes que precisamos levantar!

Há muito ainda o que dizer sobre o tema e na próxima semana pretendemos continuar o debate colocando foco maior nas escolas, no que se refere aos princípios de autonomia, participação e liberdade, no qual traremos outras contribuições dos leitores.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Um comentário sobre “Educar com liberdade não é educar sem limites: continuando a conversa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s