Educar com liberdade não é educar sem limites

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioCostumamos ver a criança como um ser frágil, imaturo, inocente e, também, incompetente. Ainda que a criança, nos seus primeiros anos de vida, seja dependente do adulto e tenha uma fragilidade incontestável, esse olhar da “falta” nos leva a não perceber as reais possibilidades e capacidades da criança. Estamos sempre buscando o que ainda lhe falta no caminho evolutivo para se tornar adulta: ela ainda não anda, não fala, não lê, e por aí vai. Mas o que já faz? Como enxerga o mundo ao seu redor? O que compreende daquilo que falamos e fazemos com ela?

Nós, adultos, tentamos explicar a infância com nossos saberes supostamente bem construídos e, assim, criamos/usamos escalas, grades e normas para medir o seu desenvolvimento e, também, inventamos/adotamos diferentes métodos para educá-la. Esse olhar da incompletude, que vê a criança prioritariamente por aquilo que lhe falta para se tornar um adulto racional é responsável por um projeto de educação que apressa o percurso da criança, antecipa aquilo que ela pode ou não fazer, programa os seus passos e conhecimentos a serem adquiridos, enquadra comportamentos, tudo isso na busca de torná-la um sujeito competente e produtivo.

No contexto escolar, esse projeto tem algumas características que sobressaem, com maior ou menor grau de intensidade, de acordo com a proposta institucional em questão: a relação vertical e autoritária dos adultos em relação às crianças, a definição de etapas progressivas a serem seguidas, a cobrança de uma disciplina rígida que garanta a ordem, as punições pelo não cumprimento das regras e ordens dos adultos, a ausência de voz e de participação das crianças, a transmissão (ou despejo?) de conteúdos (muitas vezes sem nenhum sentido). No âmbito da educação familiar, sobressai o mesmo modelo unilateral e vertical, em que apenas os adultos têm voz e a criança precisa se submeter ao que eles escolhem, desejam e organizam para elas.

Mas existem outras formas de se compreender as crianças que se desviam dessa visão e que, ao contrário da “falta”, revelam a potência da criança e as suas formas  próprias de pensar, sentir e agir.  Há estudos e teorias no campo da psicologia, sociologia, antropologia e educação que têm como base a confiança na capacidade da criança e a compreensão de que esta é um sujeito da cultura e não um ser meramente biológico a ser “dissecado” em etapas progressivas e universais de desenvolvimento. Tais conhecimentos nos ajudam a questionar a ausência de voz e de participação das crianças nas práticas escolares e familiares a elas dirigidas.

Essa visão da criança como sujeito potente e participante do mundo em que vive sustenta modelos de educação que, geralmente, enfatizam os seguintes princípios: a liberdade e a autonomia das crianças, a participação e o respeito às suas formas próprias de expressão e de pensamento. Mesmo considerando que, nessa categoria, que vamos chamar aqui de “escolas alternativas ao modelo tradicional”, existam diferentes perspectivas teóricas e práticas de educação, podemos identificar eixos comuns nas suas propostas, por exemplo:  uma relação mais democrática entre adultos e crianças e, também, um trabalho com os conhecimentos que seja mais contextualizado e conectado com interesses e conhecimentos próprios das crianças.

Algumas famílias que compartilham dessa outra visão de criança buscam escolas que ofereçam aos seus filhos oportunidades de brincar livre, expressar-se em diferentes linguagens, construir conhecimentos significativos e exercer o seu potencial criativo. Acontece que o leque de opções nessa linha não é grande, tornando difícil essa escolha, principalmente, quando é preciso levar em conta, além da proposta pedagógica, fatores como valor financeiro e distância de casa. Além disso, há outro aspecto que entra em jogo na escolha de uma proposta mais democrática de educação, que é a dificuldade percebida em muitas dessas escolas de colocar em prática a liberdade como eixo do trabalho com as crianças. Não é incomum que, nessa busca de construir práticas que atendam aos princípios de liberdade, respeito e  participação das crianças, o trabalho educativo se apresente pouco estruturado e a  liberdade seja confundida com ausência de limites. Ao se depararem com um trabalho “solto”, com contornos pouco claros para as crianças e para os adultos, os pais ficam desencorajados de fazer a escolha por essa proposta.

Efetivamente, um trabalho em que a liberdade é priorizada mas os limites estão ausentes peca por não oferecer às crianças as referências necessárias para que possam criar com confiança e, assim, expandir as suas possibilidades de agir e pensar livremente. Mas como educar com liberdade e ao mesmo tempo com limites claros para as crianças, sem ferir o respeito a elas como sujeitos e cercear as suas possibilidades de autonomia e participação? Que limites seriam esses? Qual a relação entre liberdade e limites? Que tipo de participação a criança pequena pode ter nas escolhas e rotinas da sua vida cotidiana, na escola ou na família? É possível construir a autonomia da criança desde pequena?

Nós do Papo de Pracinha temos algumas reflexões para expor, sobre isso. Mas gostaríamos de dialogar com as suas opiniões: você já viveu ou consegue se colocar nesse conflito no que diz respeito à escolha da escola para o seu filho, entre a opção de uma escola mais tradicional e uma escola que proporcione maior liberdade e autonomia para as crianças? Que aspectos entram em jogo nessa escolha? Que questões você levanta em relação a essas diferentes práticas educativas?

Vamos lá? Não deixem de manifestar seus pontos de vista, questionamentos ou experiências vividas, suas contribuições serão conteúdo do nosso próximo texto. Participe!

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

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