Tapas, mordidas e puxões de cabelo entre crianças.

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Uma mãe, amiga da pracinha nos procurou com alguma preocupação. Ela foi chamada na “escola” do filho, que tem quase dois anos, para tentar entender, junto com a professora, o que está acontecendo, pois ele está batendo nos amigos às vezes e, também, batendo com a cabeça no chão e na parede, quando contrariado.

Existe uma tendência. Quase sempre, quando a escola chama os pais para conversar sobre seus filhos, na grande maioria das vezes, é feito o anúncio de algum problema em relação à criança. É sempre assim? Deve ser assim? Pois é, sabemos que não. Defendemos a parceria e a proximidade casa-escola para gerenciar essas questões, que não necessariamente significam um problema da criança, podendo estar relacionado com o próprio processo de desenvolvimento ou com relações que se constroem no contexto da própria escola. Na verdade, as próprias crianças, mesmo com quatro ou cinco anos,  já sabem que um convite para os pais irem à escola pode ser indicativo de problemas. Isso é fato, acontece muito ainda,  mas pode ser diferente.

Sair da escola do seu filho/a com uma batata quente na mão e alguns sustos no coração não é simples, nem confortável. Vários motivos levam a mãe e/ou o pai a pensar que morder, empurrar, puxar cabelos e até bater a cabeça na parede etc. são consequências diretas de “problemas em casa” que podem ser resolvidos pelos pais. Mas não é assim. E, nesse processo, os adultos tomam para si certas responsabilidades mescladas de culpas que não existem, ou que são hiperdimensionadas devido a um conjunto de fantasias equivocadas que são construídas culturalmente. Seriam os filhos um rebatimento direto do que são seu pai e sua mãe?  Seriam os seus filhos crianças que agem de “forma errada” (???) porque estão longe do controle dos adultos? Seriam eles agressivos ou violentos porque começam a apresentar certos comportamentos nem sempre doces, ternos e conciliadores?

Na nossa opinião, as escolas de crianças poderiam se antecipar e conversar com os pais desmistificando certos medos e preocupações dos adultos diante de alguns comportamentos que são bastante comuns entre as crianças, sem rotulá-las e sem colocá-las em “formas de comportamentos previstos” para cada idade, não se trata disso.

Crianças em geral a partir de 18 meses começam a perceber a sua potência e força para lutar pelo que querem e, se possível, alcançar seus objetivos com agilidade. Vale o aqui e o agora, para elas. Em segundos, a bola que todos disputavam pode estar abandonada num canto da sala. E todos estarem atrás de uma panelinha, velha e quebradinha. Acontece.

Nem sempre as formas que as crianças desenvolvem para “impor sua vontade” são delicadas devido a sua incapacidade temporária para negociar, para entender o seu desejo e o dos amigos, e mais, para conseguir transformar isso tudo em linguagem socialmente compreensível, em linguagem produtiva que permita pactos e acordos.

Crianças em torno dos dois anos e, às vezes, até bem mais tarde, procuram resolver impasses e atender aos seus desejos com o corpo, com o esquema melhor organizado que dispõem. E, vamos combinar, que embora isso não indique agressividade, nós adultos nos aborrecemos, queríamos ter filhos gostosos e educados, quase uns “Ghandis” quando, na verdade, na hora da mordida, do empurrão e da cabeçada nada disso esteja exatamente em jogo.

Para concluir, mãe amiga da pracinha, pedimos a você que não aceite esse lugar comum de mulher e mãe de filhos de faz-de-conta, filhos de livros de poesia, suaves e cor de rosa, sempre.

Alguma agressividade usada na hora certa e sob o controle da sua criança, aos poucos, vai permitir que ela ande de bicicleta, jogue futebol na praça, mergulhe numa piscina. Alguma agressividade será sempre necessária para ser possível viver.  Converse com a sua criança sem expectativas outras, sem exageros e sem pressão, dê-lhe amor e tenha firmeza, sempre que necessário.  Parabéns, ele é bem normal e saudável.

Sobre mordidas, saiba mais aqui: A boca: mordidas, conhecimentos e experiências.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s