A “escolha de Sophia”: o olhar preconceituoso do adulto.

(*) Papo de Pracinha

Sobre notícia do portal Globo.com em 04.04.2017

texto_proprio Viralizou pela internet a história da linda Sophia Benner que escolheu, numa loja de brinquedos, uma boneca negra e não branca como ela é.

O fato de essa notícia ter sido destaque na mídia, para nós, por si só, não engrandece a escolha dessa criança nem justifica o olhar dos adultos para a escolha dela. Quando acompanhamos e estudamos crianças podemos verificar que os seus desejos, seus medos, suas escolhas não expressam linearmente o que seus pais, os seus adultos de referência e até a mídia esperam dela. E crianças de uma mesma família, de mesmo gênero e de idades semelhantes poderiam fazer escolhas bastante diferenciadas.

Para demonstrar a nossa preocupação, precisamos destacar algumas questões. A primeira delas consiste no fato de as crianças não serem uma audiência homogênea, pasteurizada e, portanto, não se submeterem aos padrões impostos pelos adultos, nem pela mídia, sem reservas. Nesse caso, a pequena Sophia foi levada a uma loja para escolher um brinquedo e nenhum de nós pode afirmar categoricamente o porquê de sua escolha, nem os valores que estão por trás dessa escolha. Quem disse que os brinquedos devem ser semelhantes aos seus donos, para encantá-los?

Bem, a atitude da Sophia soa bonita, sim. Sugere uma proximidade importante entre crianças e pessoas de diferentes etnias, sim. Mas sem o olhar preconceituoso dos adultos que a cercam, essa notícia não teria esse destaque.

Ninguém se prendeu ao objeto da sua escolha (por que uma boneca), o preço do presente (possibilidades reais de compra), se seria a boneca pesada demais ou leve para ser carregada pela menina? Se poderia tomar banho com Sophia, ou não? Se a boneca tem cabelo para ser penteado, ou não? E nem, tampouco, se seria bom para a vida de sua criança presenteá-la por ter se libertado das fraldas, coisa que não depende apenas da sua educação nem da sua vontade, mas de maturações de outra ordem.

Olhos preconceituosos questionaram a escolha de Sophia. A vendedora acusa que “ela poderia escolher uma boneca de presente e optou por um brinquedo de cor diferente da sua”, o que para nós é bastante curioso, no mínimo! E seguiu confrontando a escolha da criança: “tem certeza que é essa que você quer, querida? Ela não se parece com você. Temos muitas outras que se parecem mais com você”.

Sophia, com apenas 2 anos, respondeu: “Sim, ela se parece comigo. Ela é uma médica, como eu sou uma médica. Eu sou uma menina bonita, e ela é uma menina bonita. Você vê o cabelo bonito dela? E o estetoscópio dela?”, respondeu Sophia, admirada com o novo brinquedo. E muitos vivas para a Sophia que soube explicar muito bem a sua escolha, sem ter dado destaque à cor da pele da boneca, tal como fizeram a vendedora e também sua mãe. Os olhos preconceituosos desses adultos justificaram espalhar a atitude da Sophia pela internet mesmo sem terem “escutado” a criança, os motivos de sua escolha. Bacana é perceber que os dois anos de vida não a impediram de contestar a vendedora.

Ponto para Sophia por saber brigar pelo que quer. Bobo e preconceituoso dar destaque à escolha da criança sem que a questão étnica estivesse em pauta em sua vida, no auge dos seus dois anos de vida. Quem quer fazer sucesso com essa notícia?

Leia na íntegra aqui.

Imagem (fonte): Reprodução Facebook

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

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