Coaching para crianças: sim ou não?

 

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioTermos novos surgem para designar coisas novas, coisas antigas e, também, para nomear combinações do antigo com o novo.

Falar em coaching, hoje, exige uma definição complementar que ilustre a que se destina, ou seja, que esclareça sobre todas as suas modalidades: pessoal, profissional, nutricional, financeiro, para performance, equipes, lideranças, esportes, empreendedorismo, para concursos, para tantas outras coisas e, também, para crianças.

O termo coaching (como um treinamento, uma consultoria, uma mentoria) vem sendo usado para designar um processo que deve ser orientado por um coach (tutor, treinador, mentor) e que tem uma metodologia que pode ser aplicada aos mais variados aspectos da vida humana. O termo usado, inicialmente nos esportes, parece agregar conhecimentos de áreas diferenciadas do saber como a Administração, a Psicologia, a Educação.  Vale informar que todas as informações sobre coachs e coaching para crianças citadas aqui foram recolhidas em diferentes sites da internet, em nome de pessoas ou grupos que defendem o uso da referida metodologia com crianças. Em todos os casos, o coaching tem como objetivo ajudar as pessoas a traçarem rotas, prevendo seus passos e percalços para acelerar a conquista de determinados resultados. Nesse sentido, torna-se importante entender de que maneira isso pode ser benéfico para a vida das crianças. É preciso lembrar que podemos chamar de crianças, tanto quem acabou de nascer, quanto quem vai completar ainda 12 anos de idade, como indica o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Não há dúvida de que pais e mães, irmãos, amigos, terapeutas e educadores podem funcionar como “bons coachs” desde que seja relativizada a impressão de que tudo pode estar “sob controle” o tempo todo, já que há variáveis que podem vir a exigir mudança de metas, por exemplo, durante os percursos.

Para tentar responder a isso, é preciso lembrar que crianças de mesma idade não são iguais, não têm os mesmos sonhos, temperamentos nem histórias de vida e,  assim,  não há metodologia adequada e nem benéfica a todas as crianças de uma mesma idade. As propostas de coaching para crianças a que tivemos acesso são organizada por faixa etária.

Outro fator importante a ser considerado é que o pensamento infantil costuma funcionar fortemente em função de desejos muito intensos e imediatos. As complexas noções de tempo e de espaço, que demoram para serem constituídas e, assim, poderem funcionar como “operações do pensamento”, dificultam a compreensão das crianças sobre as possibilidades reais de atendimento de muitos dos seus desejos. Nesse processo, elas vão viver conquistas e frustrações, vão precisar aprender a negociar, flexibilizar e redimensionar metas e objetivos para um mundo possível, seguro, ético e mais feliz, para eles próprios e para os outros.

Educar integralmente uma criança para a vida exige, além de favorecer o acesso aos conhecimentos historicamente construídos, fazer com que ela conheça seus limites, suas possibilidades, para que desenvolva inteligência e sensibilidade em variadas dimensões. Se quisermos concordar com Gardner, as inteligências seriam sete: Inteligência Linguística, Inteligência Musical, Inteligência Lógico-Matemática, Inteligência Espacial, Inteligência Cenestésica, Inteligência Interpessoal e Inteligência Intrapessoal.  A combinação de algumas dessas inteligências, já que para Gardner poucos têm as sete desenvolvidas, em doses diferenciadas e subjetivas, ajudaria cada criança a ter sonhos e a buscar realizar os que forem possíveis.

Também não há lugar mais para os antigos testes de QI que retratam uma ideia unitária, numérica e descontextualizada de inteligência, usada para comparar crianças em função de um número, maior ou menor, com vistas ao sucesso escolar. E sabemos todos, pais e profissionais, que, nos dias de hoje, não funcionam como gênios aqueles seres isolados, mesmo que altamente capacitados, que não tenham ampla possibilidade de compartilhar, de defender suas ideias, de lidar bem com críticas e oposições, de conhecer e administrar suas emoções. Isso, até no senso comum, hoje, já é conhecido como “Inteligência Emocional” ou Inteligência Social, tal como um dia a nomeou o psicólogo americano Daniel Goleman.

Se consideramos que crianças são curiosas e estão em permanente estado de aprendizado, de desenvolvimento e de mudanças, precisamos refletir se elas precisam de coachs para desenvolverem-se ou, em seu lugar, da convivência com outras crianças e com adultos que sejam seus guias, desafiadores, orientadores e protetores.

A alta competitividade que caracteriza o mundo moderno sugere que os processos de educação voltados para crianças não devam se voltar para treiná-las para que sejam os maiores, os melhores, nem líderes, até porque “aprender de verdade” não resulta de treinamentos de habilidades, nem em lideranças fabricadas.

Para conseguir alcançar sonhos e objetivos no campo pessoal e profissional, as crianças precisam ser, antes de mais nada, e sobretudo crianças, com direito a lutar pelo que querem e, também a chorar diante das frustrações que fatalmente acontecerão.

Adultos atentos, afetuosos e disponíveis internamente para acompanhar a infância das crianças, em família e na escola são seus guias preferenciais e não seus coachs.

“Trata-se da melhor e mais eficaz metodologia de desenvolvimento e capacitação humana existente na atualidade”: é o que anunciam, como um poderoso método que “promove mudanças permanentes e leva à conquista efetiva de sonhos e objetivos no âmbito pessoal e profissional”. Efetivamente, crianças não precisam de coachs para o seu desenvolvimento e aprendizagem, nem para promover mudanças de comportamentos. Em caso de distúrbios nos comportamentos infantis como ansiedade, apatia, insegurança excessiva etc., os adultos devem procurar bons profissionais da área de Psicologia para ajudá-las, junto com os professores da creche ou da escola, e não coachs.

Muito mais do que um coach, as crianças precisam de adultos – os pais, principalmente – que possam acompanhá-las e apoiá-las nos seus processos de construção de conhecimentos, habilidades e experiências, contribuindo para que constituam uma imagem positiva de si mesmas e ferramentas para compreender o mundo, atuar sobre ele de forma criativa, responsável e solidária e, sobretudo, para serem felizes!

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

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