Crianças e paralimpíada

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88 A olimpíada que aconteceu no Rio de Janeiro foi um sucesso incontestável. As crianças acompanharam, na medida de seus possíveis, a alegria dos jogos, a convivência com pessoas de outros mundos e culturas, além de terem tido contato com nomes de países e de esportes jamais conhecidos.

Chega o tempo da paralimpíada, já que se convencionou que os esportes individuais e coletivos envolvendo atletas com diferentes tipos de deficiências deveriam acontecer depois, não antes e nem simultaneamente. Sob o ponto de vista organizacional talvez não fosse possível essa execução simultânea, numa mesma cidade e nos mesmos espaços pelas adaptações exigidas, mas sob a ótica da valorização dos esportistas e dos esportes poderia ser lindo. Sem contar com a possibilidade de as crianças torcerem pelo seu país, em tempos tão bicudos, sem tantos ídolos.

Enfim, a televisão e a mídia em geral se canaliza para acompanhar os para-atletas, para seus esportes e performances. Discute-se a qualidade das campanhas publicitárias que buscam vender a paralimpíada, de modo sempre mais tímido que a primeira, com ingressos mais baratos também, embora as vendas tenham surpreendido pelo sucesso de público alcançado.  

Nesse cenário, alguns pais e mães revelam viver um dilema interno que flutua entre levar suas crianças aos jogos e, com isso, criar a oportunidade para que elas vejam pessoas felizes, ainda que às vezes mutiladas, com algumas deficiências ou, no sentido oposto, certos pais pensam em poupá-las de cenas e situações que podem “marcá-las para toda a vida. Talvez o futebol seja menos dramático, ou o basquete; já decidi que à natação não vou com eles, nem quero que vejam pela televisão. Sem roupas pode ser muito impactante e impressioná-los muito, embora já tenham oito e 10 anos.”.

E, já que essas mães e pais têm a confiança de abrir seus corações, seus medos e conflitos conosco, nos sentimos fortalecidos para opinar sem querer dar lições de moral, nem de bom comportamento a ninguém.             

Quanto à preocupação sobre as crianças ficarem “chocadas ou muito tristes diante de pessoas com tantas faltas: de visão, de perna etc.? ” Não poderemos dizer de que forma cada uma delas reagirá. Ninguém pode fazer esse tipo de “previsão”.

Podemos ajudar aos adultos dizendo que a paralimpíada poderá ser uma excelente oportunidade para que conversem com suas crianças sobre a diferença entre dificuldade e deficiência num cenário de força e de superação, onde se travam as melhores lutas.  O melhor de tudo parece ser a possibilidade de ver essas pessoas “de verdade e de perto”, atletas que apresentam diferenças visíveis em relação a nós, considerados supostamente “normais”.

Quanto a pergunta se as crianças vão curtir, achamos que sim. Se elas vão ficar impactadas, impressionadas? Pode ser que sim, mas não se pode apostar nisso. Se elas vão aprender muitas coisas novas e importantes para a vida? Com certeza sim.

Muitos pais e educadores estarão levando crianças para assisti-los, aplaudi-los e até para abraçá-los, se for possível.

Quando os pais perguntam sobre o momento certo de apresentar suas crianças à cenas ou pessoas que podem lhes causar susto, dor e medo, precisamos parar para refletir. Infelizmente, as ruas das grandes cidades estão repletas de cadeirantes, de pessoas muito pobres, doentes e ás vezes também mutiladas, eventualmente com curativos enormes nem sempre limpos, e em muitos casos carregando junto suas crianças.  Não foram poucas as vezes em que nossos filhos e tantas crianças com quem trabalhamos nos fizeram perguntas difíceis de responder, sem desânimo e tristeza diante da falta de perspectivas dessas pessoas, quanto à possibilidade de tempos melhores, de alternativas.

Quantas vezes já vimos, em instituições de educação infantil, crianças cadeirantes, ou com deficiências de outras ordens, totalmente integradas ao grupo? Havia aquelas que rezavam para chegar a hora do lanche, quando a cadeira de rodas ficava desocupada, para poderem nela sentar e brincar. Sem constrangimento algum elas disputavam as muletas e as cadeiras de roda. Ninguém deixava de dormir ou tinha medo do contato com essas crianças “diferentes”, beijavam-se e abraçavam-se, embora reconhecessem e até explicitassem suas limitações: “ eu sou amiga dela, mas no pátio, não sou. No pique do pátio, não, porque ela é ruim para correr”. E era verdade.

A televisão também traz para dentro das casas de todos crianças e adultos com deficiência que, ao que parece, não seriam “notados” pela maioria que julga ser a paralimpíada o momento em que seus filhos serão “apresentados às mutilações e deficiências humanas”. Será mesmo?   

E se for? Dependendo da decisão de seus responsáveis, da idade da criança etc., talvez seja um momento único em suas vidas, o de tomar contato com a vida de pessoas inteiras e felizes, de muitos países diferentes, que aqui estão pelo que são e têm, não pelo que lhes falta. Cheios de vida, de energia e de alegria. Por que não?

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

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