Mamãe posso ir? Sobre crianças e espaços.

Papo de Pracinha (*)

Ai bota aqui, ai bota ali o teu pezinho
O teu pezinho bem juntinho com o meu

(Barbosa Lessa e Paixão Cortês)

1444722355_88Crianças pequenas se deslocam em diferentes espaços, como podem, em cada momento de suas vidas e com isso vão experimentando situações ricas e importantes sobre as quais elas não têm noção real.

Não é pouco comum vermos bebês, as vezes com um ano, ou pouco mais, deitados no chão para tentar enxergar e encontrar objetos que eles mesmos acabaram de jogar debaixo de uma cadeira, mesa ou sofá. Assim que resgatam o objeto de seus desejos, tratam de jogá-los de novo, e assim deixam claro que estão vivendo sobretudo o prazer de jogar em si. Jogar coisas do berço ao chão são experiências de mesma natureza e, não pouco comum, temos que retirar essa criança “de dentro ou embaixo” de alguma cadeira em que entrou sem saber sair.

Essa possibilidade de experimentar diferentes planos espaciais: vertical, horizontal,  lateral etc., é parte do desenvolvimento/aprendizagem de cada criança, de uma  mobilidade física que se amplia e se complexifica, dia-a-dia. Aquele bebezinho que ficava olhando para o teto descobre aos poucos o seu entorno, vira-se pra lá e pra cá, no berço ou num chão limpo e protegido, gira de ponta-cabeça, de bruços e de novo pra cima, senta-se e, aos poucos, vai alongando o corpo para a posição de pé para, em seguida, andar. Nesse contexto, os adultos que interagem com ele terão influência decisiva, tanto pela disponibilidade, atenção total e cuidados, quanto pela oferta de espaços variados às crianças (chão de pracinha, chão de casa comum, blocos de espuma, objetos que rolam etc.), além de tempo, convidando-os a agir, sem nenhuma pressa.

Há aquelas situações em que a criança choraminga ou pede a mão de quem está perto indicando algum medo de cair. Cedam as mãos, ou apenas aquele dedo que dá segurança, quando pedem, porque elas precisam desse apoio.

O que podemos observar sobre isso é que, claro, os riscos de acidente aumentam com as maiores possibilidades de deslocamentos e com a agilidade que vão conquistando a cada dia. Essa movimentação livre, sob a atenção e adultos, é indispensável para elas.

E então, somos convidados pelas crianças a pensar sobre suas relações com os diferentes espaços, numa interlocução com o tempo próprio delas, em cada situação.

O tempo de brincar em cada espaço também é dado pela criança. Repetir incansavelmente uma tentativa de caminhar sobre uma raiz de árvore exposta, em alguma rua ou praça, é altamente desafiador e estimulante. O equilíbrio que lhes falta para a atividade costuma alimentar o desejo de fazer, fazer, fazer de novo, tantas vezes seguidas.

A simples exploração dos “lugares/espaços” do corpo como os pés, lá em baixo, as mãos para cima, o dedinho no nariz e por aí vai, exigem uma movimentação da criança que pode levá-las ao chão, tanto quanto fazê-las explorar o espaço aéreo para que vejam aviões e borboletas. Olhar para cima exige olhar com o corpo todo e, com isso, eventualmente perdem o equilíbrio. Já viram crianças buscando colocar e tirar um simples chapéu na sua cabeça, e na do seu papai? Às vezes, caem sentadas.

Andar sobre as linhas do chão, sem poder pisar nelas, caminhar sobre murinhos baixos, tentar entrar embaixo e dentro de certos objetos como caixas, tentar alcançar planos mais altos, que podem ser uma cadeira, uma caixa vazia ou uma bicicleta de adulto, por exemplo, são explorações espaciais que têm registros temporais.

“Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado”, como sugere a música, entrar na roda como o Pai Francisco, botar aqui  o pezinho (e não em qualquer lugar), ainda mais quando se pede que seja “bem juntinho com o meu”, brincar de Batatinha-Frita 1 2 3, de Estátua, de correr livremente e de tantas outras brincadeiras faz com que as crianças explorem e se apropriem gradativamente dos espaços. E com isso, das regras de cada um deles (já que não se pode jogar futebol dentro do metrô, por ex.), das caraterísticas de cada um também (já que dentro da piscina não se usa sapato, por ex.), além de precisar aprender a administrar seu tempo em brincadeiras coletivas. Essas, entre tantas outras, são experiências fundamentais para que as crianças sejam livres, seguras, solidárias e éticas.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

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