Crianças e adultos: um relógio, vários tempos.

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88O tempo corre, cada vez mais rápido! É essa a sensação que temos hoje. Quais as razões disso? Suspeitamos de algumas: o volume de informações ao alcance dos nossos olhos e ouvidos e, ao mesmo tempo, impossíveis de serem apropriadas como gostaríamos;  o número de tarefas a serem cumpridas no nosso cotidiano e no trabalho nos fazendo chegar ao final do dia com algumas, ou muitas, ainda por fazer, com a sensação de dívida permanente; a rapidez e a quantidade de mensagens e e-mails que chegam a todo minuto nas telas dos nossos celulares, criando-nos cada vez mais demandas; a falta de tempo para o ócio, o lazer e a convivência em família, especialmente com as nossas crianças.

E as crianças, como sentem e vivem o tempo? Como esse “tempo contemporâneo” afeta a as suas vidas? E nós, adultos, como nos relacionamos com as crianças em relação ao tempo? Respeitamos o seu tempo? Ou impomos-lhes o nosso tempo, o ritmo veloz do nosso dia-a-dia?

Os gregos nos ajudam a pensar sobre a questão do tempo. No grego clássico, há mais de uma palavra para se referir ao tempo. Chronos significa a continuidade de um tempo sucessivo, designando o tempo físico, aquele que pode ser medido. Outra palavra é Kairós, que significa ‘medida’, ‘proporção’, e, em relação com o tempo, ‘momento crítico’, ‘temporada’, oportunidade (Kohan, ….).  A terceira palavra indica um caminho para pensarmos essa relação entre a criança e o tempo:  Aión, que significa a intensidade do tempo da vida humana, uma temporalidade que não pode ser medida, que segue outra lógica, não a da física. Heráclito disse que Aión é uma criança que brinca, seu reino é uma criança. Ora, sabemos que o brincar é central na vida das crianças, pois é o modo principal pelo qual conhecem o mundo e a si mesmas. Assim, podemos dizer que o brincar é a “medida de tempo” das crianças, correspondendo à intensidade com que elas exploram livremente os objetos, a natureza, os espaços, experimentando e inventando novas arrumações e significados para o mundo. Durante a brincadeira, a vida cotidiana fica entre parêntesis e se impõe um outro tempo, o tempo da imaginação, da sensibilidade, da experiência de transformar o que está ao redor.

Nós, adultos, interrompemos a todo momento as brincadeiras das crianças, desfazendo essa intensidade, provocando-lhe o sentimento de que a sua brincadeira durou pouco e que ela queria mais e mais e mais… Vem tomar banho, anda logo senão vamos chegar atrasados na escola, entra no carro e fica quietinho na cadeirinha, tá na hora de comer, anda, come rápido, vem dormir, já é tarde… e as crianças: Ah, mas já?; não quero;  peraí; mas todo dia tem creche? ; deixa eu brincar só mais um pouquinho… Palavras cotidianamente pronunciadas por adultos e crianças e que revelam o descompasso entre o modo como vivem o tempo. Chronus x Aión?

Carlos Drummond de Andrade traduz muito bem esse descompasso, no seu poema “Brincar na rua”. Vejamos a primeira estrofe:

Tarde?
O dia dura menos que um dia.
O corpo ainda não parou de brincar
e já estão chamando da janela:
É tarde.

Será que podemos olhar com um pouco mais de atenção esse tempo das crianças? Quantas imposições lhes fazemos, desde que nascem,  para que se enquadrem em um tempo que não é o delas? Vejamos: quando instituímos que elas devem mamar de três em três horas; quando ‘treinamos’ o seu sono com técnicas que programam um tempo progressivo para que fique no berço sozinha (mesmo que chore) até que se acostume a dormir sozinha e a noite inteira; quando as instituições de educação infantil programam  os tempos de atividades de desenhar, brincar, dormir, comer, tomar banho, sem que sejam respeitados os tempos próprios das crianças; quando enclausuramos as crianças em casa, não permitindo que experimentem o tempo da liberdade do brincar e do contato com a natureza; etc. etc. etc.

É claro que não podemos fugir de muitos desses enquadramentos. Temos nossos compromissos e nossa rotina de trabalho, que precisam ser cumpridos, e é importante que a criança se adeque ao cotidiano da família.  A criança, por sua vez, também necessita ter uma rotina, que lhe dê segurança, indicando-lhe onde está, com quem está, o que está por vir etc, ajudando-a a se organizar e a situar-se no mundo. Mas é preciso que essa rotina não seja para ela uma camisa de força e que contemple também seus desejos e modos de ser e fazer. As rotinas das crianças precisam garantir o livre brincar e o falar e ser escutada.  Precisamos aumentar esse tempo aión, para que as crianças sejam felizes.

E mais! Nós, adultos, também precisamos viver mais esse tempo da intensidade e da experiência: contemplar a natureza, ir à praia, viajar, conversar com amigos, ir ao cinema, ler um bom livro, passear pela cidade, não fazer nada… Sem esquecer que brincar com as crianças ao ar livre, explorar e sentir a natureza, ocupar a nossa cidade é um caminho para vivermos esse outro tempo. Já pra pracinha todo mundo! É tempo de brincar!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

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