Crianças na pracinha já!

As agendas lotadas e o emparedamento das crianças não favorecem desenvolvimento e aprendizagem felizes. Pés descalços, sol e sombra devem fazer parte do cotidiano das crianças. Já pra pracinha, todo mundo! Tem quem pense como nós, essa semana no Papo de Pracinha. Em entrevista ao Jornal O Globo, em 02/08/16, Christiana Cabicieri Profice, diz: Crianças precisam ficar à toa. Vamos saber mais sobre o que pensa a psicóloga ambiental? Clique aqui ou leia abaixo a matéria transcrita.


por Márcio Menasce

Christiana Cabicieri Profice, psicóloga: ‘Crianças precisam ficar à toa’.

Especialista em Psicologia Ambiental, professora da Universidade Estadual de Santa Cruz (BA) veio ao Rio para realizar palestra em seminário da Uni-Rio

“Tenho 44 anos, sou carioca, mas saí do Rio aos 21 anos, assim que me formei em Psicologia. Fiz mestrado em Psicologia Clínica e Patológica na Université Paris Descartes, em Paris, depois em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente, na UESC (2006), e doutorado em Psicologia Social na UFRN.”

Conte algo que não sei.

Precisamos da interação com outros animais e plantas para que nos tornemos humanos.

Que problemas têm crianças sem contato com o meio ambiente?

Partimos de um conceito que é da Psicologia Ambiental: o da biofilia. Ou seja, nós, humanos, temos apego a tudo que é vivo. Crianças bem pequenas, quando vão à praia, enchem a boca de areia. Todo humano tem isso, mas quando essa biofilia não é estimulada acontece o que chamamos de déficit de natureza.

E qual a consequência?

As crianças que têm esse déficit não conseguem realizar seu desenvolvimento plenamente. Elas não se tocam pelo sofrimento dos outros seres. Daí partimos para a indiferença. Hoje, as crianças bebem o leite da caixa, mas não sabem que vem da vaca. Há casos piores, em que, em vez de desenvolverem biofilia, as crianças acabam tendo biofobia. Têm medo de tudo que se mexe, de tudo que é vivo. Essas crianças não conseguem ficar descalças na areia, ou na terra, ficam em pânico nessas situações.

O que as impede de ter esse contato com a natureza?

No Rio, a Zona Sul é privilegiado, com praias, Jardim Botânico, mas muitas coisas têm dificultado o acesso à natureza. A violência urbana é uma delas. Hoje, passear nas Paineiras e na Vista Chinesa, por exemplo, é arriscado. Você não fica tranquilo para sentar, ler seu livro e deixar seu filho brincar. Nas periferias, é ainda pior. Os pais não deixam as crianças brincarem nas ruas, porque temem uma bala perdida, ou mesmo que acabem em contato com o tráfico de drogas.

E o papel da escola?

A escola é a grande responsável pelo emparedamento das crianças. Elas têm um cotidiano superatarefado. Estudam, vão ao balé, ao curso de inglês. No fim do dia, estão esgotadas. Crianças precisam ficar à toa. Como elas passam a maior parte do tempo na escola, esta deveria ser a instituição a propiciar um maior contato com a natureza. Pelo menos nas escolas públicas, porém, quando se fala num passeio no parque, é um problema. Não há transporte, dinheiro ou acompanhante para o grupo; os pais não querem autorizar porque têm medo da falta de segurança.

Como chegou-se a esse ponto?

É todo um contexto social. Entra aí a jornada de trabalho dos pais, que não permite que eles fiquem com os filhos. É uma grande diferença que vejo na cultura indígena, onde os pais são mais presentes. No Brasil, a questão da violência influi muito. Nas periferias, mães saem para trabalhar e deixam os filhos trancados em casa. Pode-se ver aí uma perversidade, mas essa mãe não pode pagar uma babá, ou uma creche.

As crianças já introjetaram o medo da violência e pararam de questionar os pais?

Há estudos que mostram que as crianças leem a realidade nas feições e no discurso do pais. Se a mãe e uma criança estão perto de uma cobra e a mãe expressa medo, a criança atua quase como um espelho. Também vai se sentir ameaçada. Agora, se a mãe tem uma postura tranquila, a criança também terá.

Muita gente hoje é contrária aos zoológicos. Como pesquisadora na área de educação ambiental, o que acha?

É um mal necessário. Há quase consenso na Psicologia Ambiental que os zoológicos diferentes do modelo tradicional podem estimular o primeiro contato das crianças com outras espécies.

O Globo – Conte algo que não sei – 02/08/2016

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/christiana-cabicieri-profice-psicologa-criancas-precisam-ficar-toa-19830767#ixzz4GBRz5VWb
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