Quando o adulto escuta a criança

Papo de Pracinha (*) 

1444722355_88O escritor israelense Etgar Keret, em seu livro “Sete anos bons”[i], conta algumas passagens de sua vida, durante o período descrito por ele como aquele em que tive o privilégio de ser filho do meu pai e pai do meu filho. Uma das histórias, Taxi, nos faz perceber, de forma muito sensível, a força que uma criança tem junto às pessoas a sua volta, gerando nestas os sentimentos mais diversos. Com sua forma peculiar de entender o mundo e se expressar, a criança mexe com os adultos, tira-os de seu porto seguro, desestabiliza-os, provocando-lhes novos modos de se ver e de ver o mundo.

Difícil sair com um bebê nas ruas, sem que este não atraia a atenção de pessoas diversas, provocando olhares afetuosos, sorrisos ou palavras elogiosas. Por outro lado, em outras situações e espaços, como por exemplo, em um restaurante, uma criança que chora, grita, ri, brinca, corre etc. atrai, muitas vezes, outros tipos de reações: olhares ou atitudes de reprimenda, impaciência, intolerância, repulsa, raiva…

O que parece inquestionável é que as crianças se fazem presentes no mundo em que vivem, com suas formas próprias de ser, agir e compreender o que acontece a sua volta. As crianças, nem sempre se encaixam nos moldes que, nós adultos, preparamos para elas.

A história de Etgar Keret se passa em um taxi, quando ele ia com seu filho Lev, de 3 anos, para a casa do seu avô. Lev cantava Yellow Submarine, bem baixinho, inventando palavras, enquanto balançava as perninhas curtas, no ritmo da música. De repente, suas pernas bateram no cinzeiro do carro, onde havia apenas uma embalagem de chiclete, derrubando-o. Imediatamente, o motorista pisou no freio, olhou para trás e com a cara muito perto do rosto da criança gritou, em tom colérico: – Seu menino idiota. Você quebrou meu carro, seu imbecil! O pai perguntou ao taxista: – Ei, você é louco ou o quê? Gritar com uma criança de 3 anos por causa de um pedaço de plástico? Vire-se e comece a dirigir ou, juro, na semana que vem você estará fazendo a barba de cadáveres no necrotério de Abu Kabir (…), ouviu bem? O motorista lançou um olhar cheio de ódio para os dois, respirou fundo, e seguiu o percurso. Naquele clima, que estava longe de ser agradável, Lev rompeu o silêncio e disse, olhando duramente para o pai: – Papai, o que esse homem disse? O pai, respondeu rapidamente, em tom leve: – Esse homem disse que, quando você estiver dentro de um carro, precisa prestar atenção em como mexe suas pernas para não quebrar nada. Lev olhou pela janela e perguntou: – E o que você disse ao homem? E o pai: – Eu? – Eu disse ao homem que ele tinha toda razão, mas que ele deveria dizer o que precisava em voz baixa e com educação, e não gritar. – Mas você gritou! retrucou Lev. – Eu sei, mas isso não foi certo. E sabe do que mais? Vou pedir desculpas agora. O pai, curvou-se para frente, chegando bem perto do pescoço do taxista e disse em voz alta, quase declamando: Sr. taxista desculpe-me por ter gritado com o senhor, não foi direito. Passaram-se alguns minutos e Lev falou: Mas papai, agora o homem tem que me pedir desculpas também. O pai, achando que não era uma boa ideia pedir ao taxista que se desculpasse com uma criança de 3 anos, respondeu: – Você é um garotinho inteligente e já sabe muita coisa sobre o mundo, mas não tudo. Acho que não temos que pedir ao motorista que se desculpe, porque só de olhar para ele já sei que se arrependeu. Faltavam dois minutos para chegarem ao destino, quando Lev falou: – Papai, não sei se ele se arrependeu. Nesse momento, o taxista pisou novamente no freio, puxou o freio de mão e disse olhando nos olhos de Lev: Acredite em mim garoto, estou arrependido.

Precisamos escutar mais as crianças e dar espaço para que participem de tudo que afeta as suas vidas. Nós, adultos, costumamos achar que sabemos tudo sobre as crianças e, com isso, exercemos nosso poder sobre elas, programando suas vidas, dirigindo-as, corrigindo-as etc. Mas não sabemos. Na verdade, elas têm muito a nos ensinar, a nos fazer ver o que não vemos mais e olhar para o mundo de uma forma mais sensível e verdadeira. 

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme.

[i] Etgar Keret, . Sete Anos Bons. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2015.

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