Crianças, ocupem as cidades!

Patricia Werner

Foto: Patricia Werner

Papo de Pracinha (*)

Onde estão as crianças nas cidades? Em que momentos ouvimos suas vozes, risos, choros e brincadeiras? De que forma as cidades refletem, na sua urbanização, a presença das crianças? Que espaços temos para as crianças? Como foram pensados? São efetivamente ocupados por elas? O que elas acham deles?

Nos shoppings, nos finais de semana, com certeza sons e movimentos de crianças estarão ali, em meio ao burburinho típico desses espaços. Mas não estamos falando de espaços fechados, e sim das áreas externas e públicas, que servem não apenas ao ir e vir, mas aos encontros de pessoas de todas as idades, inclusive crianças.

Se prestarmos atenção no cotidiano dos espaços de circulação das cidades, é possível ver uma concentração maior de crianças em horários bem específicos: os de entrada e saída das escolas.  Mesmo assim, muitas crianças, nesses horários, estão em carros ou transportes escolares, opção adotada por muitas famílias de classes economicamente favorecidas.

Nas pracinhas e parques, em dias de semana, também podemos ver a presença de crianças: há um número significativo de bebês de até seis meses, acompanhados de suas mães (que se encontram em licença maternidade), e crianças até seis anos, em sua maioria acompanhadas de babás ou avós e, poucas delas, com suas mães ou pais. Depois disso, parece que as crianças se enclausuram em suas casas ou nas escolas. Nos finais de semana, muda um pouco essa configuração e algumas praças ficam repletas de famílias em busca de atividades externas e livres com suas crianças. Isso mostra que precisamos revitalizar as praças, pois muitos desses espaços estão abandonados ou sem nenhum atrativo que mobilize as pessoas para a sua ocupação.

Tonucci[1] diz: quando nunca encontramos crianças, caminhando ou brincando nos espaços públicos, na semana ou no fim de semana, significa que a cidade está doente e que uma cidade que é boa para as crianças é boa para todos.

Sabemos quais são alguns dos problemas que levam a essa realidade, sobretudo nas grandes cidades: falta de segurança, horários puxados de trabalho dos pais, redução do tempo livre das crianças (e dos adultos também) que têm suas agendas lotadas de atividades, longo tempo de deslocamento de um lugar para o outro, urbanização desordenada, destruição de áreas verdes, invasão dos espaços públicos pelos automóveis, redução e abandono de áreas públicas de lazer coletivas, como praças e parques… São muitos os fatores que nos afastam dos espaços ao ar livre! As cidades pensadas pelos adultos criam cada vez mais possibilidades de se viver sem precisar ir ao exterior. O que vemos são adultos e crianças cada vez mais hipnotizados pelos aparelhos eletrônicos e vivendo a maior parte do tempo em espaços fechados, distantes da natureza.

Mas as pesquisas mostram que precisamos de ar livre e da natureza para termos saúde e felicidade! Para as crianças, brincar na natureza, em espaços públicos, favorece o movimento, a sensação de liberdade, a imaginação, a criação e o  encontro com outras crianças e adultos. O convívio com a natureza ensina à criança o sentido do cuidado e mobiliza sua sensibilidade para a beleza das diferentes texturas, dos cheiros, das cores e das formas ali presentes.

Então pensemos juntos: como as crianças podem ir até a cidade? E como a cidade pode acolher as crianças?

Há algumas iniciativas interessantes por aí. Projetos de caminho escolar estão sendo desenvolvidos em vários países, como EUA, Canadá, Austrália e países da Europa. A ideia é viabilizar que as crianças se movam com segurança e autonomia pelas ruas, passando a usá-las,  desfrutando e se apropriando dos espaços públicos, das cidades onde moram. O projeto Cidade das Crianças coordenado por Tonucci, e que hoje tem a participação de vários países, busca transformar as cidades a partir da escuta e da participação das crianças. São as crianças o principal parâmetro para se pensar a cidade. Uma das maiores reivindicações das crianças é fazer o caminho de ida e volta casa-escola a pé ou de bicicleta, sozinhos e/ou com adultos. Em Buenos Aires, uma das ações do Projeto foi, no lugar de requisitar maior presença da polícia, pedir maior participação dos moradores dos bairros nas ruas, nos horários dos itinerários casa-escola, garantindo maior segurança para as crianças. O resultado foi a redução em 90% dos incidentes criminais contra as crianças. Bacana, não? Experiências como essa, que ocorrem também em outras cidades, elevam a convicção de que a presença das crianças nas ruas torna as ruas mais seguras, além de promover a interação entre pessoas de todas as idades.

            Outro aspecto importante é que, para usufruir dos espaços da cidade, é preciso que a criança tenha tempo livre, tempo para viver a experiência de brincar, a qual envolve riscos, aventura, pesquisa, descoberta, superação de obstáculos, satisfação, emoção, entre outros aspectos. Em Roma, o prefeito, ao receber a reivindicação das crianças do projeto A Cidade das Crianças – de que precisavam de mais tempo para brincar livremente -, enviou uma carta a todas as escolas sugerindo que nos finais de semana e feriados não houvesse dever de casa. Seria uma boa iniciativa em muitas de nossas cidades, não é mesmo? E por que não pedir também para as famílias reduzirem a agenda das crianças, criando tempo livre para elas no seu cotidiano?

As cidades podem fazer muito pelas crianças e por todos nós: inverter a prioridade dada à circulação de automóveis, ampliando as áreas de circulação de pedestres; criar áreas de pedestres; bancos nas calçadas; ciclovias e estacionamento de bicicletas; espaços como Parklets (áreas anteriormente usadas para estacionamento e transformadas em espaços de convívio e lazer), entre outras ações.

Nós, adultos, também podemos fazer muito, tentando criar tempos de relaxamento, suspendendo a pressa, o “anda logo”, “depressa, vamos nos atrasar”, mesmo que seja por pouco tempo. Que tal experimentar passear pela cidade, por alguns minutos com sua(s) criança(s), explorando os espaços a sua volta? Pode ser uma grande brincadeira ver quem vê mais árvores, bueiros, postes, cachorros etc., seja num simples passeio, seja no caminho para a padaria ou para a escola. Que tal redescobrir a natureza que há nas nossas cidades?

Ocupemos a nossa cidade junto com as crianças, ela é nossa, e também das crianças! A cidade precisa se humanizar, precisamos estar nela, usá-la, fazê-la nossa! Uma cidade que é boa para as crianças, é boa para todos nós!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

[1] Francesco Tonucci é um pensador italiano, psicopedagogo e desenhista, coordenador do Projeto “La città dei Bambini”, nascido em Fano (Italia) , em 1991. Para saber mais sobre esse projeto, acesse http://www.lacittadeibambini.org

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