O menino e o encanto do seu brinquedo

Papo de Pracinha (*)

O menino tem cinco anos. A ascensorista, em torno dos 40. Ele entra no elevador com seu brinquedo na mão, uma nova versão daqueles antigos brinquedos, com água e argolinhas dentro, ou bolas para entrarem em cestas de basquete etc.: era dia de levar brinquedo para a escola e eu quis levar esse meu, disse ele. O desafio desse brinquedo se dá em função da pressão que se faz nos botões externos com as mãos que, ao injetarem ar, produzem deslocamentos dos pequenos objetos na agua. No passado, talvez fossem conhecidos como “acquaplay” mas o nome não importa, era esse o brinquedo que ele portava.

Ao entrar no elevador, os olhos da ascensorista brilharam. Ela se fixou no brinquedo e disse para o menino: puxa, deixa eu ver, quero segurar só um pouquinho o seu brinquedo, e o menino desconfiado o cedeu para ela.   Ela observava emocionada o joguinho, enquanto controlava os botões e a porta do elevador, e na saída ela disse: olha esse era o meu videogame quando eu tinha a sua idade. Nossa como eu brincava com isso, eu adorava.

Para a nossa surpresa, minha e de mais uns três adultos que ali estavam, o que ela disse não soou simpático para ele. Imediatamente ele se mostrou muito irritado, contrariado com o que escutou e saiu do elevador com seu brinquedo na mão, repetindo não é, não é, não é.

No hall do prédio eu o abordei com cuidado e perguntei se ele estava zangado, se ele tinha ficado aborrecido com alguma coisa. Parecia que a minha abordagem significava apoio e compreensão ao ponto de vista dele, que eu sequer conhecia. E ele respondeu: não é videogame, claro que não é. Tem bateria? Tem tomada e pilha? Não tem. Tem fio? Não tem. Ela não sabe nada. Esse tem dedo, tem a minha força, olha (e apertava os dois botões alternadamente para exemplificar o que dizia). Ela não sabe nada, nem sabe brincar com o meu jogo.

Não interessa a nós comparar um e outro, tão diferentes, mas apenas tentar entender a relação desse menino com o seu brinquedo, e mais. Nesse caso, buscar entender porque a observação da moça, comparando-o a um videogame, não funcionou para ele como uma valorização do seu brinquedo. Ao contrário, para a criança essa comparação desqualificou seu brinquedo e gerou irritação. Menos pelo que em si representa o brinquedo, mas, pela sua ação como protagonista, como atuante e gerador da ação e do encanto do brinquedo que não poderia, segundo ele, ser comparada a sua ação diante de um videogame. Usar a sua força e seus dedos da mão, sem qualquer apoio elétrico – pilha, bateria ou fio.

Videogames podem ser muito interessantes, não estamos negando isso, mas nesse artigo visamos chamar atenção para a forma como o menino reagiu à comparação do adulto, favorecendo uma situação de conversa e uma escuta respeitosa de seus motivos e argumentos.

Interessa-nos, sempre e cada vez mais, buscar aproximação e dar espaço para que se expressem, para que se sintam valorizados e se deixem conhecer. Inegavelmente, talvez merecesse atenção e escuta a moça-ascensorista, diante da comparação sensível não dos materiais em si, obviamente diferentes, mas do registro de memórias afetivas dela que a levou a estabelecer essa relação.

Importante, a mãe do menino que a tudo assistia se mostrou muito surpresa porque ela nunca soube que seu filho pensava sobre essas coisas, sobre eletricidade, sobre como funcionam as coisas e nem que ele gostasse tanto desse brinquedo.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

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