Madrasta: mãe 2 ou namorada do papai?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Manu e Duda são primas, frequentam a mesma escola, têm sete e cinco anos, respectivamente. Elas usam a mesma condução escolar e, nesse dia, Duda estava especialmente feliz. Contou sua novidade para a prima Manu: hoje eu não vou na condução. A namorada do meu pai vem me buscar e nós vamos ao cinema.   Manu, mais velha e em tom quase professoral disse: ela é a sua madrasta, não é a namorada do seu pai. Madrasta é a mulher nova do pai da gente, ma-dras-ta! Duda reclamou: não isso ela não é. Ela namora o meu pai. E, em seguida, começou a chorar.

Qualquer voz adulta, “com força de ponto final”, que desejasse dar um fim ao impasse, seria limitadora no caminho de conhecer como cada uma delas pensa sobre isso, e sobre as diferentes ordenações do mundo adulto. Elas têm o que dizer e precisam ter valorizadas as suas opiniões para sentirem-se seguras, para revelarem-se como crianças e como pessoas que têm formas próprias de ser/estar no mundo, além de serem sujeitos produtores de cultura.

Portanto, não há uma forma mais correta ou mais adequada para se nomear essa mulher que se une a um homem que tem filhos, se é madrasta, ou namorada do pai. É verdade, quando a mãe tem um namorado, e as crianças um padrasto, que seja comum emergirem preconceitos, no entanto, eles parecem ser menores do que quando um homem surge com uma nova namorada. Parece, sem que se diga por isso que a vida do padrasto seja facilitada. No caso da madrasta, sem buscar hierarquizar essa variedade de nomes no sentido de legitimar mais ou menos essas novas relações, não se pode negar o direito de cada pai e de cada mãe de querer apresentar e/ou introduzir uma pessoa nova na vida dos filhos do seu jeito, da sua maneira, embora em nenhum dos casos seja fácil. Vários aspectos intervenientes fazem parte desse processo: a qualidade da relação entre pais e mães, depois de separados; a segurança, maior ou menor, de cada criança em relação ao seus lugares como filho/a; a quantidade e a qualidade de tempo que esses adultos disponibilizam para seus filhos; uma relação respeitosa dos adultos para com seus filhos no sentido de não criticar nem culpar o outro conjugue de qualquer coisa (alienação parental) ; espaço físico organizado, na nova casa de ambos, concretizando a vontade e a importância de ter os filhos próximos, para sempre, a despeito de quem seja a nova companheira ou companheiro de cada um. E muito mais.

A figura da madrasta, na vida de todos, expressa o peso dado a ela pela cultura, ainda hoje. No caso de mulheres com filhos, quando ela deseja refazer sua vida com outro homem, diz-se que ela teve “a sorte de arranjar” (sic) um novo companheiro que poderá vir a ser seu namorado, o namorido, o marido e, quem sabe, um padrasto para seus filhos. Há mulheres com filhos que escolheram não morar na mesma casa com seu novo amor, embora seus filhos o conheçam, gostem de estar juntos, se respeitem e se amem, de verdade. Mas o pai tem o seu lugar garantido, é amado pelos filhos e mantem encontros regulares com eles. Há um pai, sempre. Embora não seja simples, mães e pais podem redesenhar a suas vidas

No caso do pai, dos homens separados que têm filhos, embora esses modelos venham se transformando, a sociedade ainda lhes atribui “um certo bônus” que se expressa numa liberdade consentida maior, ou mais direitos implícitos no que se refere as possibilidades de namoros, de experiências amorosas sem que sejam julgados como são as mulheres. Não por acaso, as madrastas entraram para a história com um peso simbólico bem pesado, mais difícil e muito mais complexo que o dos padrastos. Haja vista a criação do termo “boadrasta”, que eventualmente é usado para quebrar com o instituído culturalmente.

A espaço da madrasta na história se justificou como uma atribuição diferenciada e até mesmo impossível_ a de ocupar o lugar da mãe ausente, em geral, por sua morte. Nesses casos, o homem viúvo poderia voltar a se casar e…. o resto dessa história todo mundo já sabe. Quem não conhece a família Von Trapp que inspirou o filme A Noviça Rebelde? Quem nunca ouviu suas músicas? “The Hills are Alive”, “My Favorite Things”, “Do Re Mi Fa”, “So Long Farewell” e “Edelweiss”? Filme imperdível!

Para concluir, vale dar uma olhada nas histórias clássicas como Cinderela, Branca de Neve e os 7 anões, Cinderela e Rapunzel, só para começar. Em todas elas a madrasta é a antagonista e atua como uma mulher poderosa, má, fria, competitiva, invejosa, ciumenta, cruel e ardilosa que deseja sempre prejudicar as suas enteadas. Lady Tremaine não suporta que a beleza de Cinderela seja maior que a de suas filhas. A Rainha Má, teve ciúme e inveja doentias de Branca de Neve e os 7 anos, por não admitir que existisse no mundo ninguém mais bela do que ela. A pobre Rapunzel foi sequestrada ainda bebê por sua madrasta Gothel que a escondeu numa torre alta, trancada. Tem ainda a madrasta da história de João e Maria, e tantas outras.

Não faltam histórias encantadas e também, casos reais sobre competição entre madrastas – crianças e jovens, maus–tratos por parte de madrastas e, quanto mais recuarmos no tempo, mais eles aparecerão. Por que será?

Bem, as histórias que se centram nessa tensão entre madrasta e filhos surgiram no sec. XIX quando recaía sobre a mulher-mãe um endeusamento por ela gerar vida em sua barriga, poder alimentar e, garantir a sobrevivência, segurança, bem-estar de sua criança. Nesse lugar, a figura materna foi coroada como de mulheres dadivosas, voltadas para a vida dos filhos, sempre boas, sem defeitos, capazes de amar seus filhos sob quaisquer condições e, assim, insubstituíveis. E são. Mas no passado, qualquer mulher que ousasse ocupar o lugar de madrasta só poderia fazê-lo diante da morte da mãe e, por isso mesmo, essa pessoa “naturalmente” já entraria na vida das crianças com uma desvalia, incapacitada de chegar aos pés das mães “biológicas” sobrando para elas, então, os piores adjetivos e sentimentos como pessoas más, ardilosas, que buscavam ocupar esse lugar irrecuperável e “inocupável”.

Hoje, e pelo menos desde a lei do divórcio no Brasil, as famílias podem se reconfigurar, se redesenhar e se legitimar, sempre, desde que mantenham laços de amor e de compromissos mútuos para com suas crianças. Já podemos enxergar a existência de mães mais ou menos boas, de pais mais ou menos bons, madrastas e padrastos também, como seres humanos que são.

Assim, podemos entender sem criticar, ouvir e respeitar o que dizem a Manu e a Duda, sobre as tensões que expõem na busca por legitimar, pertencer e entender as relações amorosas de seus pais e mães.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

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