As crianças e as fotografias na escola

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Nada revolucionou tanto as nossas vidas como a popularização da fotografia por meio das câmeras agregadas aos aparelhos de telefonia celular.

A fotografia digital, criada pelos menos 100 anos depois da fotografia revelada “no papel” permite, hoje, que a grande maioria da população seja autora de seus registros, um/a fotografo/a habilitado/a a selecionar cenas e pessoas, e sob que ângulos estas serão perpetuadas. Ou não, pois são tiradas mais fotografias, hoje, e um sem número delas é apagada, mas isso é um outro papo para um outro dia, na pracinha.

A fotografia funciona como registro documental, artístico e afetivo valiosos. Adultos e crianças, também nas instituições de educação infantil podem fotografar o crescimento de uma planta ali semeada (documental), fotografar “os chãos do outono” com as folhas e flores caídas (artístico) e, sobretudo, uma ida ao teatro com os amigos, por exemplo.

Os registros afetivos são deliciosos, e até necessários, porque permitem ao grupo a criação de um acervo que robustece uma narrativa muito particular, onde cada criança enriquece a imagem com detalhes e questões que a foto, em si, não poderia capturar. As fotos podem confirmar o que dizem os textos escritos e, também, questioná-los.

Nesse percurso, é importante valorizar o envolvimento crescente das crianças diante da prerrogativa acessível de elas poderem escolher o objeto a ser fotografado, tirar a sua foto, observar, comparar, apagar ou expor suas fotografias. Chegamos a defender que toda sala de atividades de educação infantil deveria dispor de máquinas digitais simples e/ou celulares para que professores e crianças montassem o seu próprio baú de memórias que poderia, com baixo custo, ir para a casa de todo o grupo depois de salvas em um DVD.

Susan Sontag, em seu livro Ensaios sobre a Fotografia (1981: 04), defende que fotografar-se, também ao outro e ao mundo, em última análise, “não deixa de ser uma

tentativa de apropriação da coisa fotografada. É envolver- se em uma certa relação com o mundo que se assemelha com o conhecimento – e por conseguinte com o poder. (…) A fotografia brinca com a escala do mundo, pode ser reduzida, ampliada, cortada, recortada, consertada e distorcida. Envelhece ao ser infestada pelas doenças comuns aos objetos feitos de papel; desaparece; valoriza-se, é comprada e vendida; é reproduzida”. Nesse sentido, ao tomar a fotografia como uma apropriação da coisa fotografada, várias questões éticas e legais acabam sendo envolvidas. E para esse diálogo, trazemos aqui o caso dos fotógrafos que vendem aos pais as fotos de seus filhos, tiradas nas creches, pré-escolas e escolas. E sobre isso, vale dizer que desconhecemos o pai ou mãe que não se encante com as fotos do grupo de seu filho, com os imãs de geladeira, os calendários e tudo o mais que recebem. Mesmo que a foto em si não consiga capturar o melhor sorriso de cada um deles, os pais em geral querem ter aquela foto, querem guardar para sempre aquela lembrança. No entanto, a forma como essas fotos acontecem, nem sempre se coadunam com o que a instituição e a família defendem para as suas crianças.

Um primeiro ponto se refere a uma autorização necessária de direito de uso de imagem, mesmo quando ela tem como objetivo a venda ao seus pais. Eles precisam autorizar as fotografias embora aconteça, hoje, de a maioria das instituições facilitar o seu próprio trabalho pedindo, já no ato de matrícula, que os pais deixem assinada uma autorização para fotos de suas crianças para fins pré-determinados.

Um segundo ponto se refere ao fato de haver crianças que têm autorização de seus responsáveis para as fotografias, se tiradas dentro da instituição, e elas não quererem e não gostarem de tirar fotografias. Já vimos crianças chorando muito porque não queriam se deixar fotografar e que precisariam, nesse caso, ser respeitadas.

O terceiro e pior ponto, ao nosso ver, se refere ao fato de os fotógrafos que vão às escolas serem “os donos” dessas imagens impressas em papel, e estas precisam ser enviadas aos pais. Nesse caso, a questão se torna bastante complicada.

As crianças se sentem muito mal de não comprar aquelas fotos. Recebem-nas em geral dentro de um envelope e os profissionais que tiraram essas fotos costumam passar pela instituição, quando não falam direto com o grupo de crianças, pedindo o pagamento ou a devolução do pequeno acervo enviado.

Sabemos que existe, hoje, e já não era sem tempo, uma proibição de propaganda e de venda direto para crianças, mas, muitas vezes, a intermediação desatenta da instituição, acaba favorecendo que isso aconteça, o que agora é crime[i].

Sendo assim, diante do valor desse registro de imagem maravilhoso, do respeito ao trabalho dos fotógrafos e das pessoas que fazem a gestão da escola, deixamos aqui algumas sugestões, certas de que muitas pessoas antes de nós já pensaram nisso.

Não seria possível ir tirando fotos dos grupos, de suas interações e de suas atividades durante o período, com a participação das crianças, como uma prática pedagógica rica, para evitar o registro das fotos pasteurizadas que exige delas que fiquem estáticas, com um sorriso fake para “verem o passarinho”?

Uma outra sugestão, no caso de serem tiradas fotos de grupos de crianças arrumadas, bem penteadas e organizadas, esse material não poderia ser entregue direto para os pais, sem que essa venda seja intermediada pelas crianças? Acho que isso seria totalmente possível e que caminharia no sentido do respeito a elas e aos seus direitos já instituídos.

Para concluir, vale lembrar que nenhum de nós gosta de perder a relação de pertencimento em relação ao grupo de que é parte, seja ele de amigos, do grupo trabalho, da igreja ou do clube. E as crianças, por razões óbvias, lidam muito mal em situações dessa natureza. Não comprar algo que está sendo oferecido a todos os seus amigos pela instituição que frequenta pode soar desigual e muito ameaçador. E isso não acontece apenas com as fotografias, mas também com ingressos de teatros e de eventos que são a elas oferecidos, diretamente ou pela agenda.

Creches e pré-escolas não podem ser espaços de compra e venda, e se possível, deveriam evitar que imagens de suas crianças virasse mercadoria. Isso é pedir muito?

[i] Resolução 163 do Conanda, parág.2º “Considera-se abusiva a publicidade e comunicação mercadoló- gica no interior de creches e das instituições escolares da educação infantil e fundamental, inclusive em seus uniformes escolares ou materiais didáticos.”

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Imagem: Luíza Gueiros

 

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