Sobre Romero Britto, crianças e arte na Educação Infantil: vamos pensar sobre isso?

 Papo de pracinha (*)

1444722355_88Não vamos discutir aqui a qualidade do trabalho de Romero Britto e o seu lugar no campo e no mercado da arte. Sabemos que, ao lado da estrondosa popularidade do artista (suas obras são estampadas em todo tipo de produto, suas reproduções são vendidas pelo mundo todo aos lotes, seus originais já foram adquiridos por altos valores, entre outros indicadores de “sucesso”), há uma forte rejeição e crítica no campo da arte e da cultura ao seu trabalho. Nesse sentido, há uma recusa a reconhecê-lo como artista, diante da compreensão de que a sua coleção de quadros, esculturas e outros produtos multicoloridos está muito mais para fast-food do que para a arte.

Certamente vocês já ouviram falar de inúmeras comunidades do tipo #euodeioromerobritto! Mas é certo que no mundo escolar,  grande parte das instituições de educação infantil parece pertencer a outra comunidade: #euamoromerobritto !

Por que esse casamento entre Romero Britto e Educação Infantil, quando se pensa em um trabalho de arte com crianças? É porque as obras de Romero Britto são alegres e multicoloridas? É porque abordam temas ou figuras que se aproximam do universo infantil? Que tipo de propostas são feitas às crianças nas escolas, com base no trabalho do artista? Reproduções para colorir? Releituras, do tipo “fazer como Romero Britto”? Confecção de objetos modelados pelos professores a partir de figuras de suas obras, como, por exemplo, borboletas?

Certa vez, fazíamos um trabalho de formação com professoras de uma creche comunitária do Rio de Janeiro e a coordenadora pedagógica nos mostrou orgulhosa o produto de um projeto de arte com as crianças: um grande cartaz com a reprodução ampliada da obra “O palhaço”, pintada pelas crianças. Obviamente, pelo que pudemos observar, na verdade, pintada pelas mãos das crianças conduzidas pelas mãos dos adultos. A coordenadora nos relatou o tempo que levaram para produzir o cartaz e o quanto as crianças “aprenderam” sobre Romero Britto e arte. Trabalhavam com duas crianças de cada vez (certamente para controlarem melhor seus movimentos), sendo que todas participaram, com suas pinceladas, da confecção da “obra”. E não faltaram, em nossas andanças por instituições de educação infantil no país, referências de Romero Britto, em reproduções decorando as paredes de escolas, estampando produtos variados e, principalmente, em murais com “trabalhinhos” das crianças.

Mas o que esses exemplos têm a ver com um trabalho com arte na Educação Infantil? Como podemos pensar as relações entre criança, arte e educação?

Vamos pontuar algumas coisas que pensamos sobre esse tema:

  • a arte não combina com normas, regras, modos de fazer pré-estabelecidos, ordens para fazer assim ou assado, ou modelos para se chegar a um produto pensado pelo adulto.
  • a arte não combina com atitudes de corrigir, etiquetar, didatizar, controlar, enformar. As crianças precisam ter liberdade de fazer cavalos azuis, pessoas “voando”, nuvens roxas, céu verde. É preciso que o adulto tenha abertura para o novo, o inusitado, a inversão, a descontinuidade, a surpresa e a poesia da criança.
  • os adultos precisam abrir mão do lugar de controladores do pensamento e da expressão das crianças para ocupar o lugar de co-participantes dos seus processos de pesquisa e criação, aguçando a escuta para apoiar as suas necessidades e descobertas.
  • os adultos precisam se conter no seu desejo de traduzir o que a criança desenhou, pintou ou construiu, com perguntas do tipo “O que você desenhou aqui?”, feita, muitas vezes, de forma burocrática. As legendas feitas por meio da escrita dos adultos nomeando elementos como árvore, casa, mamãe, papai etc. se sobrepõem à criação das crianças, invadindo-a. Isso parece dizer para a criança que a sua produção não tem valor em si mesma, e que precisa corresponder/representar uma realidade traduzível na linguagem do adulto. Mas e quando as crianças expressam em suas produções muito mais o prazer estético dos gestos, das formas e das cores, do que uma realidade representável?
  • o uso da arte como instrumento para o ensino de conteúdos (outra prática comum na Educação Infantil) escolariza, empobrece e destrói a arte!
  • a arte envolve imaginação, experimentação e criação. Um trabalho com a arte  e a expressão precisa mobilizar os sentidos das crianças para os significados que vão construindo nas suas relações com o mundo, incentivando-as e apoiando-as na busca de novas possibilidades de dar forma às suas percepções e vivências.
  • as crianças devem ser encorajadas a se expressar em diferentes linguagens e, para tanto, é necessário alimentar a sua imaginação, ampliando o seu repertório cultural e estético; o diálogo com diferentes e variadas produções artísticas, nas suas diferentes linguagens, ao lado da liberdade de explorar e pesquisar as possibilidades dos materiais, ajuda a criança a encontrar seus próprios caminhos de expressão e criação.

Promover o diálogo entre a criança, a arte e a educação é muito mais do que ensinar técnicas de arte e oferecer modelos para as crianças reproduzirem. É muito mais do que fazer trabalhinhos formatados de Romero Britto ou Tarsila do Amaral (outra artista que entrou no gosto das instituições de Educação Infantil)! É muito mais do que fazer trabalhos multicoloridos com temas considerados infantis: palhaços, borboletas, flores etc. As crianças podem e merecem muito mais do que isso!

As crianças refletem sobre o mundo, que é complexo, nem sempre colorido, e é diverso e contraditório! Observam as inúmeras imagens e sons que povoam as cidades, percebem as coisas e sentimentos que existem no mundo, as relações entre as pessoas… Elas podem e devem dialogar com a arte clássica, com a arte contemporânea e com diversas produções artístico-culturais. E podem e devem se aventurar a dar forma a suas percepções e sentimentos, expressando-se em diferentes linguagens!

Para tanto, precisamos ir muito além de Romero Britto!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

16 comentários sobre “Sobre Romero Britto, crianças e arte na Educação Infantil: vamos pensar sobre isso?

  1. O texto aborda, com muita propriedade, o respeito indispensavel ao processo criativo das criancas. A necessidade de se propiciar diferentes formas de expressao. O adulto quando interfere nesse processo utiliza otica, estetica, vivencias, dele, adulto. Lembrei-me de uma historinha contada por uma professora. Ao ver o desenho de um helicoptero feito pelo aluno, a professora observou que o desenho estava `Incompleto`. Faltavam as helices. Ela as colocou e ouviu a crianca gritar: ” Tia vai todo mundo morrer ! O helicoptero estah caindo! ” Eu nunca esqueci a licao.

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  2. Angela, querida, que maravilha de papo! Imagine minha alegria ao ver/ler o artigo de vocês – tanto pelo tema “educação infantil e arte”, quando pela provocativa inserção do Romero Britto na conversa! Muito pertinente e necessário o tema, o roteiro para a reflexão proposta está perfeito e instigante. Lembrei daqueles dias, naquela “creche de nosso coração”, quando a nova coordenadora avaliou que o espaço estava muito preenchido com produções das crianças, e que ela gostaria de ver pelas paredes “mais arte”, com obras de Tarsila, Romero Britto… Que pobreza e que falta de compreensão sobre os caminhos da infância, da educação infantil… e da arte! A discussão proposta por vocês, apresentada com clareza, beleza, fundamentos e coerência, dialoga diretamente com o que venho estudando, pesquisando e discutindo com educadores da Educação Infantil. Devo dizer: que bela síntese você e Maria Inês fizeram! Vou agregar o papo nos meus encontros de formação, grazie! Um prazer acompanhar os papos nesta pracinha. Parabéns pela iniciativa! Beijos com saudades de nossos papos e encontros pelos caminhos da sensibilidade.

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    1. Querida Luciana, obrigada pelas palavras! Seu trabalho é uma forte inspiracao e fundamento para o que pensamos sobre arte, infância e educação infantil. O episódio citado por você, do comentário da nova coordenadora geral da nossa “creche do coração” reclamando por obras do Romero Britto nas paredes da creche, obviamente veio à tona no momento da escrita do texto, assim como o seu incômodo com aquela postura e a nossa conversa de que ainda tínhamos que escrever sobre isso! Que bom que você trouxe aqui esse exemplo que revela uma concepção tão empobrecida da arte e das crianças! Um beijo muito carinhoso e saudoso!

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      1. Bom dia,lendo seu artigo muito rico por sinal,a muita preocupação como trabalhar arte com as crianças,mas nenhum em momento vejo a preocupação por parte das instituições em preparar os profissionais como trabalhar arte,de que forma, melhor maneira,não podem esquecer que muitas vezes são impostas “tem que trabalhar artes”,muitos profissionais nunca viu de perto uma obra,nunca estudou a fundo a vida do artista,e suas obras,e tem mais, nem as obras impressas são fornecidas aos profissionais, tem arrumar a obra,os materiais, e não podem esquecer que tem que apresentar o produto final tanto pra a instituição como para as famílias, vejo muita preocupação com as crianças, e nenhuma preocupação com profissional,infelizmente a realidade educacional é triste.

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  3. Quero registrar o comentário que fiz na postagem de uma colega, quando postou este artigo em sua página do Facebook. Quero dizer que meus comentários são para somar e não apenas traçar crítica pela crítica. Acredito na educação, sobretudo na infantil, como base, alicerce de uma nação. ” Quem somos nós para determinar onde começa, ou termina, a arte? E o que elas (as autoras) estão fazendo não é delimitar, também, as ações de educadoras (muitas, em seu parco conhecimento, acreditam estar contribuindo com a educação de suas crianças) que querem, de alguma forma, trazer evidência ao trabalho que, certamente, realizam com carinho? Não cabe, então, levar a estas mesmas profissionais, mais conhecimento, formações continuadas, oficinas, ou que tipo de informação seja, para que saibam que há “arte, além de Romero Brito”? Mas, sem que as façam massacrar, como muitos, o artista que, em minha humilde opinião, trouxe cor, alegria, movimento, ludicidade e INFÂNCIA, com sua arte (sim, arte!), e, muito mais do que isso, colocou o Brasil em evidência, para além do futebol, samba e carnaval. Sim, pensemos mais como abordar a arte com nossas crianças, mas “sem perder a ternura” e sem ditar regras. Em sua opinião ambígua, as autoras ditam que há que se dar liberdade às criações dos pequenos, ao mesmo tempo em que estão pontuando “regrinhas” a serem seguidas, para o bom andamento da arte. Mais ações e menos papo”. #minhaopinião Marília Oliveira

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    1. Olá Marilia, obrigada pelo comentário! Você chama a atenção para um aspecto fundamental, que é a necessidade de que os professores ampliem as suas possibilidades de se expressarem em diferentes linguagens e apreciarem a arte. Isso, obviamente, passa por um programa de formação que inclua a arte!
      Mas, veja bem, não quisemos de forma nenhuma pontuar “regrinhas”, como você disse acima, mas sim levantar alguns princípios para se pensar um trabalho de arte com as crianças.

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    2. Só queria registrar que, na minha opinião, não faltou ternura e nem sobrou “cagação de regra” neste texto. Achei que as autoras foram bastante generosas com o (suposto) artista e, inclusive, se abstiveram de emitir um juízo próprio sobre a questão “é/não é arte”, limitando-se a apenas apontar para as distintas opiniões existentes e, a partir de questões concretas da obra, elaborarem sua construtiva crítica.

      Tenho a impressão de que o nosso cenário intelectual padece de um problema que, talvez, nos esteja impedindo de alcançarmos nosso potencial máximo: a leitura de que críticas são sempre uma ofensa ao criticado. Temos uma cultura de passar a mão na cabeça que, inclusive, quiçá seja reflexo de como tratamos nossas crianças na escola. Evidentemente há modos e modos de se fazer uma crítica, mas entendo que aqui temos um excelente exemplo de conduta de respeito, boa intenção e vontade de colaboração.

      Agradeço às autoras por terem trazido à baila esse necessário tema, assim como pela sua abordagem.

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  4. Texto excelente!! Estou trabalhando com fundamental 1 e quero que meus alunos conheçam o mundo! Eu quero de Basquiat a mestre Vitalino, quero zebras com listras coloridas e também quero o Impressionismo sem linhas! Esses dias meus alunos choraram, 4 ano, ao me ouvirem contar sobre a vida de Van Gogh, daí eu fui explicar a técnica de profundidade do Quarto de Arles, mas antes, eles se solidarizaram com o pintor… O segundo ano, eles tem 7 anos, pensam que Debret foi um “repórter” que tinha a missão de como era retratar os índios… Eu quero crianças com um vocabulário artístico variado para que eles escolham e construam seu padrão estético, mas para isso, precisam conhecer e experimentar. Nossa função é a de ofertar conhecimento e não a de adestrar…

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  5. Incrível e se conteúdo! Além de ser fã do Romero eu admiro a arte como estímulo à criatividade e imaginação, quero participar com meu de algum núcleo assim aqui na minha região. Vocês me indicam ? Moro em Paulinia e trabalho em Campinas. Grata

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  6. Muito bom!
    É altamente recomendável as observações sobre o ensino das Artes Visuais comentadas no texto. Acrescentaria que é possível que se exercitem os pequenos, nossos meninos e meninas, com leituras de suas próprias “obras”, distanciando-se dos parâmetros feio/bonito, analisando como usaram os elementos que compõem as artes visuais. Fazer arte com os menores não os afastam da análise (fruição) nem da vivência/experiência com as obras de artistas reconhecidos pela história. É preciso aproximá-los da arte, das diferentes e singulares experiências artísticas e como elas se aproximam, muitas vezes, das propostas dos miúdos.
    Uma outra questão que me parece importante é como organizo as “exposições” dos trabalhos das crianças. É importante lembrar que as exposições precisam ter critérios, evidenciando o caminho de leitura que se escolheu. As exposições em museus e espaços culturais são produzidas dessa maneira. As crianças devem definir, junto com o professor, qual o critério mais adequado, por onde orientar a leitura daquele conjunto de obras.
    Feliz pela leitura.
    Obrigado
    Henrique

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    1. José Henrique, muito boas suas observações! Muito legal o que você fala das exposições das produções das crianças, colocando-as como participantes da definição, junto com o professor, dos critérios para organizar o modo como seus trabalhos serão expostos.
      Obrigada pelo comentário!

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  7. Por nada. É um prazer. Vou organizar um texto sobre visita a museu com os miúdos. Tenho um livro da Mirian Celeste com boas ideias de como levar nossos alunos a espaços culturais, bem como o que podemos fazer para potencializar essa visita, fora dos parâmetros clássicos de “preparação” tipo: biografia do artista; apresentação de algumas de suas obras; estilos e “leituras” prévias de algumas obras do artista. Muitas vezes, essas ações prestam um desserviço à curiosidade, encanto e conhecimento que a visita pode proporcionar.
    Bjs.
    Henrique

    Curtido por 1 pessoa

  8. Não sou muito fã do trabalho de Romero brito,,, pois acho industrialuzado muita impressão industrial. Mas gosto muito e apoio às pessoas q como ele se preocupa com o crescimento das pessoas em especial as crianças através do estímulo a criação, a arte.

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