As crianças e as câmeras de filmagem

Papo de pracinha (*)

A cada dia, cresce o número de residências e de instituições de educação infantil com as chamadas câmeras online (de segurança) espalhadas pelo espaço.

Os motivos para isso são muitos, mas o principal deles, sustentado pelas instituições, é de que as câmeras são um investimento (das empresas) na CONFIANÇA dos pais que lá deixam os seus filhos. Segundo as gestoras, esses equipamentos permitem que os pais participem da rotina dos seus filhos através do computador ou do celular e, ao mesmo tempo, facilitam o trabalho das diretoras para monitorar, vigiar e cuidar do andamento do dia. Os pais que optam por creches que têm câmeras entendem que elas permitem que eles saibam tudo o que os seus/suas filhos/filhas estão fazendo, além da possibilidade de fotografarem, filmarem e gravarem o que está acontecendo: à medida que a gente acompanha e vê tudo, a nossa confiança aumenta e o medo diminui.  

Vem aumentando também, nas residências, o uso de câmeras para fiscalizar o trabalho dos empregados, quando os patrões não estão em casa e, com muito maior rigor, quando optam por deixar o seu bebê aos cuidados de alguém. Assim, com a possibilidade de espiar online e full time a sua criança na relação com o adulto responsável por ela, segundo esses pais, a criança está mais segura e eles, mais tranquilos, por poderem verificar se escolheram corretamente a pessoa que cuida dela.

Não vamos discutir aqui, dessa vez, o que faz com que algumas instituições de educação infantil e também algumas famílias achem positivo disponibilizar ipads, computadores e celulares para suas crianças, às vezes com menos de cinco anos de vida. Embora isso também reflita a volume cada vez maior de uso de tecnologias nos dias de hoje, deixaremos esse assunto para um próximo papo.

Voltando às câmeras de segurança, é inegável a contribuição delas na investigação de crimes e de casos que outrora demorariam anos para serem esclarecidos, mas a presença de câmeras em creches e em residências, como um recurso promotor de confiança, é um elemento novo que merece ser analisado.

Lembrando do que disse Nelson Mandella, resgatado recentemente por Daniel Becker, na palestra postada no Papo de Pracinha: o verdadeiro caráter de uma sociedade se revela pela forma como ela trata as suas crianças. E, nesse caso, precisamos lembrar que a sociedade somos nós, não apenas as instituições e leis que deveriam atender a todos.

Nesse viés, fomos conversar com um grupo de mães de bebês com idades em torno de um ano. O que pudemos perceber é que as câmeras de segurança em casa são necessárias enquanto os filhos são bebês, na opinião da maioria delas, porque as suas crianças ainda não seriam capazes de fazer queixas de maus-tratos etc., e que para os filhos maiores elas não seriam assim tão imprescindíveis. Também percebemos que, das famílias que têm câmeras em casa, apenas uma delas avisou para a sua “ajudante“ sobre as câmeras e as gravações. As outras mães preferem não chamar atenção para a existência desse recurso.

Embora segurança e confiança sejam palavras que rimam, elas não são sinônimas. Entende-se que quando há confiança, em geral as pessoas se sentem seguras, mas nem sempre o contrário é verdadeiro. Sentir-se mais seguro não traz necessariamente o sentimento da confiança. As crianças podem estar totalmente “seguras”, garantidas em relação a acidentes, tombos e até a maus tratos, que se configuram em crime, sem que seus pais tenham confiança em delegar seus filhos a alguma pessoa ou instituição: eu sei que naquele espaço não deixarão que nada de ruim aconteça ao meu filho, mas eu não confio na proposta deles; eu sei que essa pessoa nunca deixará de cuidar e de proteger a minha criança, mas eu não confio que ela saia de casa com ela. E por aí vai.

Elementos muito diferentes geram confiança em cada casal, em cada família. O ato de confiar, em primeiro lugar, passa pela confiança no sentimento que nutrem em relação ao filho/a, pela certeza e confiança de que ele é capaz de estabelecer relações com outras crianças e adultos sem deixar de amar de modo diferenciado os seus pais. É preciso ter confiança de que existem outros modos de fazê-lo dormir, de tocá-lo e de agir que podem ser igualmente seguros e prazerosos, diferentes dos que os pais praticam habitualmente.

Confiar “sob vigilância” parece uma meia-confiança, um voto de possível confiança que não poderá prescindir da vigilância à distância, proporcionada pelas câmeras. É preciso refletir se alguma pessoa que se relaciona com outra, de qualquer idade, se sentiria liberta e feliz para mostrar-se como é, sendo vigiada. E se um dia faltar luz, ou houver qualquer impossibilidade de “visionamento”, como ficariam a cabeça e o coração desses pais?

Na verdade, cada família deve operar com tecnologias da forma que acha satisfatória. No entanto, podemos dizer que confiança não se constrói sob vigilância.

O ato de confiar depende de poder acreditar, de ter fé na sinceridade, na lealdade do outro, e de conseguir delegar, aceitando as diferenças. Quando se confia, de certa maneira, é feita uma aposta interna de que algo não falhará, de que vai dar certo. Quando se confia, parte-se de uma certeza do comportamento desejável do outro, e de que ele saberá agir adequadamente diante de uma cena ou situação, mesmo que não necessariamente tome as atitudes exatamente como você tomaria.

Para entrar nesse processo de confiança em relação a alguém que cuidará do seu bebê, não podem faltar autoconfiança e confiança mútua, de todos os adultos envolvidos. Será, ainda, que “ajudantes-vigiados” saberão confiar nos seus patrões? Vão se preocupar em relatar o dia com o bebê sabendo que são vigiados o dia todo? Difícil responder. Mas, em princípio, nos parece que a confiança e a parceria não têm um bom solo para serem cultivadas, quando as relações são atravessadas pela vigilância desconfiada, imposta pelo uso da câmera.

Delegar a alguém os cuidados de um bebê para uma terceira pessoa é mesmo muito difícil. Encontrar alguém que se afine com a família é possível, mas que atue exatamente como se fosse a mãe ou o pai, impossível.

O que parece funcionar bem para essa seleção criteriosa são as referências de outras famílias, para quem a pessoa já tenha trabalhado. Conversas-entrevistas honestas, delicadas, mas lúcidas onde exista exposição clara das prioridades de cada família e, também, por parte de quem se candidata ao trabalho, costumam ser os melhores caminhos. Por que escolheu trabalhar com crianças? Se já assistiu a situações de conflito em pracinhas etc.? Como acha que deva ser o momento de dormir da criança? E a hora de comer? Por que saiu dos empregos que teve? Como foi a educação que recebeu na sua família? São perguntas que podem ajudar nessa conversa.

As câmeras de segurança, certamente, podem trazer uma relativa tranquilidade para os pais que as usam. Mas delegar, de modo a construir uma relação verdadeira, cotidiana, exige tempo, precisão, observação criteriosa de vários pontos. É importante que os pais ou responsáveis tornem claros os valores da família para a pessoa que deseja trabalhar cuidando da criança, inclusive em relação à saúde física e psicológica do bebê. Ouvir e valorizar a opinião dos seus ajudantes é fundamental. Eles precisam se sentir valorizados em suas opiniões, atitudes etc., quando for o caso, para se sentirem seguros e confiarem em si, também.

Nenhum pai e mãe poderá estar o tempo todo controlando e moldando o mundo de seus filhos. Suas autoridades e a relativa sensação de poder que têm sobre eles precisar dar lugar à segurança de que sua educação e o seu amor estarão sendo interiorizados na criança, e que estarão presentes mesmo quando estejam distantes fisicamente, lá na frente, um dia.

Poder ver tudo o que os filhos fazem, o que acontece por todo o dia na creche ou no lar, só serve para sofisticar a fantasia de controle dos adultos sobre suas crianças.

As câmeras não aproximam pais e filhos, embora possa parecer que sim. Ao nosso ver, o que aproxima pais e filhos são os momentos intensos na presença, o contato físico, a conversa, as boas histórias para contar, a parceria efetiva, as brincadeiras que façam juntos e o amor. Vale muito a qualidade e também a quantidade do tempo que ficam juntos, sim.

Confiança, de verdade, com letras maiúsculas, em nada combina com vigilância.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Um comentário sobre “As crianças e as câmeras de filmagem

  1. Mais um tema importante trazido por Inês e Angela para as mães refletirem sobre os cotidianos das mães com seus bebês, com suas crianças. Sem apresentar uma solução para os problemas a que as leitoras do papo de pracinha se veem submetidas, o texto segue, mais uma vez, a trilha do desafio à reflexão. Destaco, somente a título de ilustração, a interessante maneira de trazer questões envoltas no binômio segurança/confiança. Gostei, professoras.

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