Sobre crianças e adultos: ódio e intolerância

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Um menino de cinco anos deu um chute em uma menina de apenas um ano, numa praça carioca. Embora exista uma boa diferença de idade entre eles, o fato isolado poderia até ser relativizado, entendido como coisa de criança, pelas outras mães e babás que frequentam habitualmente essa pracinha. No entanto, duas outras atitudes assustaram muitos os adultos: a frase dita pela criança maior – detesto criança pequena, elas enchem o saco; e a atitude da mãe desse menino de cinco anos, que assistiu a tudo sem nada dizer, expressando até certa concordância com o que fez e disse seu filho. Não tomar atitude é, em si, uma postura de omissão que pode ser grave. E uma pessoa disse, sem titubear: se precisar vamos chamar a polícia para essa mãe e para esse menino! Uma outra mulher de uns 30 anos, concluiu: já avisei para o meu patrão. Se esse menino tocar na nossa menina vamos todos para a delegacia porque vou partir para cima do filho e da mãe dele.

Em uma outra praça próxima, há apenas alguns balanços para as crianças usarem. As crianças vão se revezando nesses balanços, sempre sob a mediação dos adultos. Muitas reagem, choram mas há adultos que entendem a importância desse revezamento. Até que uma mãe, sentada em um dos balanços, com seu bebê de aproximadamente um ano no colo avisa: pode fazer fila, chorar e espernear. Pode chamar a polícia para me tirar daqui. Eu fico esperando horas para sentar aqui com meu filho e hoje vou ficar até eu cansar, até eu encher o saco de vocês, para vocês verem como é bom ficar aí parado, esperando. Criança grande vai jogar bola, vai brincar do que quiser, de outras coisas. Desiste porque vocês não são os donos dessa praça!

Teríamos aqui inúmeros casos para relatar o que se configura como falta de educação, desequilíbrio emocional e omissão/negligência de adultos em relação às suas crianças. Mas vale lembrar que para esses dois casos, em tempos e espaços diferentes, houve reação. E nos dois casos a polícia foi citada como capaz de equacionar o conflito, amenizar as tensões. Assustador!

Ficamos nos perguntando quais devem ser os limites de compreensão dos adultos em relação às habituais e históricas brigas de crianças, por acreditar que existam intervenções necessárias ao embate em si, à educação da sua criança e das outras, envolvidas no impasse, além das do entorno que ali estão, assistindo sem serem chamadas a opinar.

Como agir ao ver uma criança que mal anda receber um chute de uma criança de cinco anos, que corre livremente pela praça gritando “detestar crianças pequenas”. Claro, impossível analisar o chute sem o peso do termo “detestar”. O que faz uma criança manifestar que detesta outras crianças? O que ela entende por “detestar”? E sua mãe, não repercute internamente essa cena com preocupação, susto e até com tristeza ao ouvir a tal frase do seu filho? É preciso declarar, aqui, que não sabemos como é a vida dessa criança, como funciona a sua família, nem quais são as bases da sua educação. Pode-se dizer que, embora seja desconhecido o cenário global da vida dessa família, que entre mãe e filho não exista compromisso ético, afetivo, nem parceria respeitosa. Onde está presente o adulto, responsável, que tem deveres em relação às suas crianças? Essa relação de responsabilidade para com os filhos ultrapassa qualquer tipo de conforto material que possa ser oferecido a elas. Estamos falando aqui daquele patrimônio imaterial chamado de educação. Educar é difícil, trabalhoso, além de ser um processo relacional. Ou seja, exige interação de diferentes ordens: de adultos com crianças, entre as próprias crianças etc. E, para haver relação, é preciso que se estabeleça visibilidade e respeito ao outro, cada um nos seus diferentes lugares sociais. Além de ser possível ver e respeitar os seus pares, seus próximos, mas, em especial, os seus ímpares, os que são e pensam diferente.

Diante da omissão de certos adultos e, ainda, como parte do cenário político e social atual em que punir se confunde com educar, são os adultos que nos dois casos ameaçam chamar a polícia, para resolver o que são incapazes de fazer. Esses não são casos de polícia.

A mãe sentada no balanço com sua criança, ao avisar que não vai sair de jeito algum, volta a ser punitiva em relação às outras crianças. Ou seja, se foi muito ruim para ela, adulta, esperar pelo balanço para seu bebê, ela devolve com intolerância e grosseria a sua raiva, mostrando-se incapaz de distrair a sua criança até o balanço vagar. E nem estamos discutindo aqui se o balanço deveria ser usado por adultos, numa pracinha para crianças. Essa mãe também fala da polícia, se mostrando mais poderosa que a própria, enquanto ensina às crianças que esperam pelo brinquedo que façam o que ela não soube fazer com seu bebê – buscar outra diversão para tornar a espera mais suave, suportável.

Estamos diante de casos em que a falta de educação, a omissão, a raiva, a vingança, a insegurança e a prepotência se mostram presentes na vida desses adultos demonstrando o tamanho do desafio que eles e todos nós temos e teremos para educar essas e outras crianças.

E pior, até agora não pensamos nessas crianças como sujeitos que têm o que dizer, sobre como entendem a figura de seus pais, dos adultos em geral, da polícia, sobre os cuidados necessários para com outras crianças, menores e maiores, também com adultos, com idosos, com todos os outros. Nem sobre como entendem esse espaço chamado de ‘pracinha’.

Podemos dizer que a figura simbólica da polícia, por exemplo, que supostamente deveria estar relacionada à ordem social necessária para a vida, não é assim entendida por todas as crianças. Muitas delas sentem que a polícia, muitas vezes, é quem traz a desordem, e já sabem, aos cinco anos, que a polícia chega sempre dando tiros, que crianças morrem de balas perdidas, além de outras informações mentirosas, ensinadas pelos adultos, diante de sua incapacidade para educá-las: que a polícia vem e prende as crianças que saem de perto dos seus pais nos shoppings, que a polícia segura a criança e corta o cabelo daquelas que choram para serem penteadas, por exemplo, dentre outras coisas ainda piores. E, sempre que os adultos colocam a figura da polícia na relação com as crianças eles declararam sua incapacidade para gerenciar e educar os próprios filhos.

Crianças precisam de amor, de segurança, de firmeza, de conversa e de acompanhamento permanente de adultos comprometidos com seus direitos e deveres; também que sejam pessoas equilibradas, felizes, que sejam capazes de lhes ensinar a brincar, a rir, a respeitarem-se e também aos outros. Elas não precisam de polícia, mas de adultos inteiros, presentes, amorosos e firmes. A pracinha precisa ser gerenciada por quem ali convive, com generosidade, respeitos e muitas vezes com firmeza, não pela polícia.

Para concluir, lembramos que as construções sociais se dão na convivência, na efervescência da vida social. Assim, nunca somos vítimas apenas dos contextos desastrosos que se configuram e que parecem se impor, como se estivéssemos fora deles. Isso exige pensar no tamanho do desafio de educar para uma vida melhor para todos, para tempos melhores, para a gratidão, o amor e pelo fim dos preconceitos, das injustiças, dos extremismos, do ódio e da intolerância, de toda a ordem.

(*) Autores: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s