Dormir é perda de tempo? Para quem?

Como defensoras das crianças e das diferentes infâncias, escolhemos discutir aqui sobre algo que foi ouvido no metrô. A história era assim: “ esse ano, embora o meu ainda vá fazer três anos daqui a quatro meses, a equipe da escolinha já começou a tirar o soninho da tarde”. Para nossa sorte, a amiga com quem essa pessoa conversava teve dúvidas: “mas como? Como elas conseguem não deixar as crianças dormirem? ” A primeira, então, explicou que não significava “não deixar, mas propor atividades bem legais para eles irem se habituando a tirar o sono da tarde”. Será que é isso mesmo? É ruim que as crianças durmam à tarde?

A essa altura já pensávamos em tantas coisas, inclusive no azar que aquela dupla teve ao sentar exatamente perto de nós, exatamente atrás de nós, com tantos bancos vazios no metrô. A segunda coisa que nos preocupou foram as “tais atividades”, que têm cheiro de escolarização precoce e que merecem um papo à parte. Elas podem ser criativas e interessantes, mas nossas cabeças de professora viajam logo para outros mundos, nem sempre felizes, e nos causa arrepios pensar num rol de atividades para crianças tão pequenas: quais, por que e para quê? Bem, mas desta vez, para abrir o debate escolhemos ainda explorar um terceiro ponto, tão importante quanto os anteriores: o controle dos adultos sobre o sono das crianças.

Será mesmo verdade que algum professor e a instituição onde atua acredita que, em torno dos três anos de vida as crianças não devam mais dormir à tarde, na creche?

Desafio, mesmo, quem nos convença de que seja bom para a vida das crianças que um adulto interfira no horário do sono delas. Desafio! Sono é um território onde é muito difícil, mesmo querendo muito, impor ritmo, duração, intensidade etc. E ainda bem. Claro, cada um de nós, e também as crianças aos poucos vão conhecendo o que o cada corpo pede, precisa e, às vezes, até impõe. E, com isso, cada criança e os adultos que a cercam também passam a conhecer as demandas de cada uma que, por recorrência, acaba sendo um hábito, ou uma rotina. Esses hábitos e rotinas também vão se transformando durante toda a vida. E, quando as crianças estão muito felizes e envolvidas numa brincadeira, esses hábitos ou rotinas podem ser quebrados, sem problemas. Claro, se num dia ela acordou muito cedo e brincou exageradamente, pode ser que mesmo não tendo o hábito de dormir à tarde, que nesse dia tenha sono. E o contrário também acontece com quem dorme, todos os dias, aquele soninho gostoso do pós- banho, pós- alimentação. Descansado e com bons amigos por perto, muitas vezes o sono da tarde vai embora e à noite, ou no cair da tarde… bem, aqui começam muitos dos problemas dos adultos.

Crianças com sono costumam ficar enjoadas, chorando à toa. Resmungam sem saber dizer o que sentem, o que desejam e as causas do desconforto. Muitas vezes esfregam o rosto com força, ficam vermelhas e choram nervosamente. E, quando crianças choram por qualquer motivo, os adultos ficam muito incomodados, estressados. Claro, em situações comuns, chorar sempre indica algum desajuste ou desconforto e, nesses casos, quanto menor é a criança maior deve ser a tolerância e o apoio do adulto ao acolhê-la para tentar, com cuidado e sensibilidade, ajudá-la a decifrar o indecifrável. O sono muitas vezes é responsável por cenas assim, desgastantes para todos.

Sabe-se que as crianças que frequentam creches desde cedo precisam aprender a seguir certas regras e rotinas que não necessariamente são desrespeitosas, mas necessárias. Os horários de banho, de alimentação e de sono, por exemplo, precisam ser organizados e planejados para atender ao grupo de crianças. Isso é razoável e compreensível, mas ter que dormir depois do almoço pode ser uma experiência tão ruim para algumas crianças, quanto não poder dormir.

Felizmente a maioria das crianças dorme “do jeito que dá”, quando o sono chega. Arrebatador, ele consegue fazer com que elas durmam sentadas, mal-ajeitadas, recostadas ou não, no chão, em cadeiras de restaurante, no banco do metrô e, também, na rodinha da creche ou da escola.

Enquanto as pessoas dormem o seu corpo descansa e as energias revigoram-se, mas não é só isso. Os cientistas dizem que não se pode dizer que o cérebro repouse durante o sono. Tudo indica que ele trabalhe fazendo certos tipos de seleção, de combinações, conexões de várias ordens, além de nos permitir sonhar. O sono é tão precioso que empresas estão criando espaços para que seus funcionários possam fazer uma sesta após o almoço, algo entre 30 min e 1 hora, para que se sintam mais dispostos, revigorados e, também, para que trabalhem mais e melhor. Mas, quando tratamos de crianças, não estamos falando de linhas de produção em série, em quem faz mais, em menos tempo, tem algum tipo de bônus. Podemos dizer que a gestão do tempo das crianças seja, às vezes, cruel e desrespeitosa para com elas. Isso é um outro assunto cáustico- a agenda de algumas crianças! Ufa!

Nós adultos somos os que permitimos, ou cerceamos, acesso, espaços e tempos dentro dos quais as crianças podem transitar. Mesmo sem dizer, claramente, o que pode ou não, já deixamos estabelecidos na organização que damos às nossas vidas e às delas o que achamos oportuno, razoável e desejável para a vida delas, na maioria das vezes, sem ouvi-las, senti-las, nem as conhecer no que elas podem trazer de novo para nós: mães, pais, avós e professores.

Por que elas precisam mudar seu ritmo biológico e dormir menos, ou não dormir depois do almoço, em torno dos três anos de vida? Em nome de quê?

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