Ver ou não ver as crianças

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Você já pensou no quanto os adultos decidem sobre coisas que interessam diretamente às crianças, sem que elas tenham a mínima oportunidade de participação? Seja na escola, na família e até mesmo no nível macro das políticas para a infância ou dos projetos urbanos das cidades, as crianças não costumam ser ouvidas. Talvez vocês estejam estranhando essa preocupação e pensando: como assim? As crianças, esses pequenos seres em desenvolvimento, não têm como saber o que é melhor para elas! Os adultos é que sabem quais são as suas necessidades, e são eles que devem supri-las; as crianças não sabem expressar suas ideias sobre as questões que afetam a sua vida e o seu cotidiano!

Será mesmo? Talvez se olhássemos as crianças com mais atenção e respeito, escutando-as de fato, entenderíamos que muito do que pensamos, programamos e fazemos para elas está a léguas de distância de suas necessidades e de seus desejos reais. E mais: se conhecêssemos melhor seus modos próprios de ser, pensar, se expressar e agir, e considerássemos suas expressões, ideias ou sugestões, aprenderíamos a fazer coisas muito mais legais com e para elas. Isso diz respeito às práticas educativas – familiares e escolares-, às construções e programações das praças e espaços de lazer, à programação cultural e televisiva para crianças, enfim, à tudo o que diz respeito à criança.

Para pensarmos um pouco mais sobre isso, trouxemos algumas cenas do cotidiano e um exemplo de projeto urbano, contrastando formas de se ocultar a criança ou , ao contrário, de torná-la visível, protagonista da experiência de ser criança.

Gael, 2 anos, corre sorrindo e abraça sua mãe, que acabou de chegar para buscá-lo na creche. Logo a professora se aproxima e inicia uma conversa com a mãe: Mãe (serão também invisíveis as mães, que nem nome têm em muitas creches?), o Gael está mordendo muito os amiguinhos. Hoje ele mordeu dois amigos. É preciso ver o que está acontecendo com ele. Está tudo bem em casa? A mãe, constrangida e preocupada, começa a conversar com a professora, comentando sobre as mudanças de comportamento do Gael depois que a irmãzinha nasceu e que poderia explicar as mordidas. Enquanto as duas conversam, Gael puxa a mão de sua mãe, incomodado e querendo ir embora. Para além das questões que envolvem as mordidas e o que estas geram em relação às interpretações dos adultos do porquê elas acontecem (assunto que já discutimos em outro texto: A boca: mordidas, conhecimentos e experiências), o que queremos chamar a atenção nessa cena é que, em momento algum, as duas se dirigiram a Gael, é como se ele não estivesse ali. Como será que ele se sentiu?

Numa creche universitária no Rio de Janeiro, houve uma experiência interessante no almoço das crianças. Sendo a participação infantil um dos princípios da proposta pedagógica dessa instituição, não parecia coerente à maior parte da equipe que as crianças de 4/5 anos tivessem seus pratos servidos pelos adultos. Mas havia uma “briga” com a nutricionista, responsável pela alimentação das crianças, que alegava a necessidade de seguir um padrão recomendado de quantidade e variedade de alimentos de acordo com a idade das crianças, e que isso só seria garantido se o adulto fizesse os pratos. Com muita insistência, a nutricionista foi convencida a fazer uma experiência, com o argumento de que as crianças aprenderiam, no processo, a dosar as quantidades ao se servirem e a negociar com os adultos as suas escolhas. Foi impressionante a transformação da atitude das crianças em relação à alimentação, que aprenderam a fazer suas escolhas, a reconhecer as suas preferências e as dos amigos, a experimentar as novidades, enfim, a se envolver com maior autonomia e responsabilidade no processo de se alimentar.

Em uma instituição de Educação Infantil, um mural expunha produções de crianças: uma reprodução da obra “Palhaço” de Romero Brito, colorida pelas crianças (aliás, porque Romero Britto invadiu a Educação Infantil, com a justificativa de que a sua arte é mais próxima da criança? Que ideias de criança e arte estão por trás dessa overdose de Romero Britto na Educação Infantil? Precisamos falar sobre isso, mas ficará para um outro momento). No mural, a mesma figura, todas muito semelhantes, com algumas diferenças no modo de preencher os espaços, nas linhas que saem ou não dos limites, na força dos traços, nas tonalidades das cores etc, identificadas pelos nomes de seus autores: Clarice, João Gabriel, Mariana, Pedro etc. Mas quem é Clarice, como ela desenha? De que cores mais gosta? Como são seus traços? E Mariana? E Pedro? A uniformização das crianças e a formatação das atividades impede que as crianças descubram seus gostos, seus traços, suas possibilidades gráficas, e não deixa ver a singularidade de cada criança!

Em uma outra instituição de Educação Infantil, um dos murais apresentava algumas produções de crianças, fruto de uma atividade realizada em um projeto sobre “ Identidade”. A proposta foi desenhar a careta do amigo, após se divertirem brincando de fazer caretas. Quanta riqueza nas produções! Quantos detalhes: cabelos lisos, encaracolados, curtos, longos, pretos, loiros, ruivos, olhos arregalados, bocas abertas, dentes, língua, etc.. Cada um se fez presente, como autor e como modelo! Vejam abaixo!

Careta do amigo

Em São Paulo, está acontecendo um projeto urbano muito bacana no bairro Glicério, na região central – “A voz da criança no projeto de arquitetura” – fruto de uma parceria entre o curso de Arquitetura da Faculdade de Belas Artes, o Criacidade (consultoria de projetos sociais e urbanos) e a Prefeitura de São Paulo. A ideia é revitalizar a Praça José Luiz de Mello Malheiro (que servia como acampamento para pessoas em situação de rua), ouvindo as crianças do bairro, especialmente os moradores dos cortiços da região, e levando em conta suas opiniões. São as crianças participando da cidade, escolhendo seus espaços de brincadeira!

Os fragmentos acima nos dão uma pequena dimensão do que significa ocultar ou potencializar a presença das crianças no mundo. Claro que os adultos, em última instância, são os responsáveis pelas decisões que afetam a vida das crianças. Mas é preciso ter uma relação de escuta das crianças para que pensemos e façamos um mundo melhor para elas, e não, agir supondo que tudo já sabemos sobre elas. Até onde respeitamos as crianças e lhes damos oportunidade de participar ativamente do seu cotidiano, dos seus processos de desenvolvimento e aprendizagem, e das cidades onde vivem? É preciso pensar sobre isso!

E não podemos esquecer das inúmeras crianças brasileiras tornadas invisíveis na nossa sociedade desigual, expostas à violência e às doenças, excluídas do direito à educação, à saúde, à habitação e à cultura, enfim excluídas do direito de viver as suas infâncias com plenitude e dignidade!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

2 comentários sobre “Ver ou não ver as crianças

  1. Excelente texto, um dos melhores que li aqui.
    Gostaria de sugerir, que falassem mais a respeito do último parágrafo em um novo texto, assim como pensam também , em escrever um outro, e necessário, sobre essa inundação de Romero Brito na Ed. Infantil.
    É inadmissível que, uma criança que vai à escola diariamente ter sua mãe e pai, serem chamados por, mãe e pai. Penso que para alguns pode ter passasado meio despercebido essa importante questão da identidade que passa também pelo nome de cada pessoa.
    Parabéns!

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