O que fazem os bebês?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Muitos pais nos perguntam sobre o desenvolvimento dos bebês, principalmente nos primeiros meses de vida. Sentem-se inseguros diante daquele ser que chegou às suas vidas, totalmente dependente deles e, ao mesmo tempo, tão desconhecido. O filósofo espanhol Jorge Larrosa nos fala dessa diferença radical entre o adulto e a criança: As crianças, esses seres estranhos dos quais nada se sabe, esses seres selvagens que não entendem nossa língua. (**). E não é? Para Larrosa, a criança é um enigma que precisa ser desvendado, a partir da nossa abertura para conhecê-la, admirá-la e também nos surpreender com ela! Mas nós, adultos, teimamos em rapidamente enquadrar as crianças em nosso saber, supondo que tudo sabemos sobre elas…

Para além de questões relacionadas aos cuidados com o bebê, como sono, aleitamento, cólicas etc. outras tantas questões começam a surgir na relação pais-bebê. O que o bebê sente e pensa? Como posso brincar com ele? O que faz um bebê com um mês? E com dois, três? Posso dar brinquedinhos? Quais? Coloco o bebê no chão? Ele deve ouvir música? De que tipo? Música clássica? Pode assistir DVD? Galinha Pintadinha? Quando posso colocá-lo no tapetinho de atividades? Por quanto tempo? E por aí vai.

Para tirar essas e outras tantas dúvidas, os pais recorrem à internet, e não faltam sites, blogs, pesquisas e textos científicos, contendo informações, dicas e até mesmo receitas detalhadas do quê fazer. Mas vamos lembrar que o terreno da internet é vasto e movediço, contendo do melhor e do pior! É preciso acessar sites confiáveis. É preciso refletir sobre o que lemos. E, mais importante do que tudo isso, é preciso ir descobrindo junto com o bebê suas preferências, suas possibilidades e limites. Sim, o bebê nos diz muitas coisas com seus movimentos, expressões e reações. Mas, para escutar o que eles dizem, é necessário entrar em conexão com eles e confiar mais na nossa sensibilidade! Afinal, junto com o bebê também está nascendo uma mãe e um pai! E é na relação com o bebê que se aprende a ser pai ou mãe, muito mais do que é possível aprender por meio de manuais, livros, internet e conselhos por aí (e esses existem em abundância!) Claro que as informações são muito importantes, e saber sobre os marcos do desenvolvimento infantil e comportamento de bebês nas suas diferentes idades ajuda a estruturar o cotidiano, e também contribui para que os pais criem possibilidades de interações com o bebê, mas nenhum manual dá conta da complexidade que é o desenvolvimento de uma criança e das relações e significados que vamos construindo com nossos filhos.

Os manuais baseiam-se geralmente numa compreensão do desenvolvimento infantil como etapas que se sucedem em direção ao pensamento adulto. Fomos levados a pensar que existe um percurso, desde o nascimento do bebê, que é previsível, uniforme e universal, como uma linha reta crescente, cujo ponto final é a racionalidade adulta. Mas uma linha em espiral, ou mesmo em forma de rede, seria bem mais adequada para representar esse processo, que não é linear e muito menos universal, uma vez que é função da cultura e das interações entre a criança, o ambiente e as pessoas com quem convive. Não faltam pesquisas e teorias com escalas de desenvolvimento que especificam as capacidades esperadas das crianças em cada idade, independente do contexto sociocultural em que ela se encontra. Quando olhamos para essas escalas, queremos logo saber se nossos filhos correspondem à normalidade ou, até mesmo, se estão “adiantados”, “acelerados”. Felizmente, há outras formas de abordar o desenvolvimento infantil que buscam a compreensão dos processos de desenvolvimento e dos modos particulares como as crianças se desenvolvem nas interações com o ambiente, com a cultura e com as pessoas do seu convívio. Tais estudos dão mais conta da diversidade, da singularidade e da complexidade do desenvolvimento e da aprendizagem das crianças. Podemos falar sobre eles em outro momento.

Para responder à questão que dá título a esse texto vamos deixar as escalas de lado e tratar aqui de princípios gerais que podem encorajar os pais a descobrir o que fazem os bebês junto com seus bebês:

  • O princípio maior e que orienta todos os outros: o bebê não é um organismo biológico simplesmente, mas um ser cultural e, como tal, precisa se apropriar, ao longo da sua vida, daquilo que a humanidade já produziu, das práticas culturais, artefatos e valores da família e dos grupos culturais com os quais irá conviver. Precisa se humanizar, o que significa não apenas apropriar-se da cultura mas também produzir cultura, através da sua ação e criação sobre o mundo.
  • Partindo desse princípio geral, é importante que as diferentes linguagens, que nos servem para a comunicação, a expressão e o entendimento do mundo, estejam presentes no cotidiano do bebê. A linguagem oral, a corporal, a musical, a literária, a imagética, entre outras, encantam e sensibilizam os bebês. Há diversos estudos apontando que o bebê aprecia música, ou mesmo a voz da mãe conversando e se conectando com ele, desde o ventre materno!
  • Ler em voz alta, tanto livros de literatura infantil como qualquer texto que faça sentido para nós, adultos, permite que o bebê sinta a cadência da voz, o ritmo da língua, sem dizer da experiência de afeto envolvida nessa ação.
  • Escutar música com o bebê, não apenas aquelas do universo infantil, mas ampliando esse leque para diferentes ritmos e estilos, trazendo referências e experiências musicais diversas;
  • Com o bebê no colo, podemos nos movimentar e dançar ao som de músicas diversas; a dança é uma rica forma cultural de expressão do corpo e de sentimentos!
  • Perceber as diferentes texturas, cores e formas das coisas que existem no mundo, tanto na natureza como nos objetos e na arte, permitindo que a criança olhe, toque e sinta diferentes objetos, possibilita o desenvolvimento de um olhar sensível sobre o mundo.
  • Conversar com o bebê, contar algo para ele, falar sobre o cotidiano, sobre a as coisas que existem no mundo, na natureza etc. introduz o bebê no diálogo eu-outro, promove a conexão entre pais-bebê, e faz com que o bebê vá se familiarizando com os sons da língua, com a cadência da fala, e também contribui para que ele vá atribuindo sentidos às ações com a linguagem.
  • Brincar de emitir sons, ou de imitar os sons que o bebê já faz; de fazer caretas para o bebê imitar, de esconder e depois fazer aparecer o rosto, são formas de brincar com o bebê! Essas rotinas simples de brincadeira, aos poucos, serão protagonizadas também pelo bebê, que será capaz de iniciar e dirigir a brincadeira, nos convidando para brincar. Lembrando, brincar é uma prática da cultura, é central na vida das crianças e contribui para o conhecimento de si e do mundo!
  • Olhar para a natureza com sensibilidade, aprendendo a admirá-la e a cuidar dos seus elementos; observar o vento movimentando as folhas das plantas, as cores, a exuberância e a delicadeza das flores e frutos, acompanhar o voo das borboletas com suas lindas cores e formas, escutar o som dos passarinhos, ou dos gatos, patos, cachorros, grilos etc.; enfim, quanta riqueza há na natureza, muitas vezes tão esquecida por nós! Voltemos os nossos olhos para ela junto com os bebês, vale a pena redescobrir a sua força e beleza;
  • Passear pela cidade, observar e conhecer os seus espaços, descobrindo suas possibilidades também amplia as experiências das crianças.

Lembramos ainda que o bom senso e a escuta da criança nos ajudam nas escolhas e nos ajustes necessários das nossas ações. Perceber que algo desagradou a criança não precisa ser motivo de frustração, mas sim que estamos conhecendo melhor nosso bebê e que ele está nos dando indicações para novas propostas. Confie na sua sensibilidade, brinque com seu bebê, procure formas de se divertir com ele, ofereça-lhe diferentes possibilidades de conhecer o mundo. E não se esqueça, ele vai sempre te surpreender, esteja aberto para isso! O bebê sempre nos desafia e traz muitas novidades na nossa vida! Curta o mais que puder cada momento, pois passa muito rápido, já já ele estará crescido, querendo ganhar o mundo…!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

(**) LARROSA, J. O enigma da infância ou o que vai do impossível ao verdadeiro. In: Larrosa, J.; Lara, N. P. de. Imagens do outro. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s