A boca: mordidas, conhecimentos e experiências

Papo de pracinha (*)

1444722355_88  Certo dia, alguém da creche do seu filho lhe telefona e diz: “hoje o Miguel mordeu um amiguinho”. Pode acontecer, também, de o próprio Miguel chegar em casa com o corpo marcado pela mordida de algum amigo. Em geral, pai e mãe correm para olhar a agenda à procura de um bilhete que, na maioria das vezes, contém um pedido de desculpas da professora e outras informações que não respondem nem a uma pequena parcela das angústias dos pais. Costuma ser assim.
Há muitas condutas diferentes utilizadas pelas instituições para tratar esses casos. Via de regra, as famílias são avisadas do ocorrido, algo que não acontece quando as crianças se batem, quando há chutes, empurrões ou puxões de cabelos entre elas. Por quê? Existem motivos variados, mas um deles, claramente, já justifica tal conduta: o fato de a mordida deixar marcas no corpo das crianças – e também na cabeça dos adultos, ainda que de outra natureza. “Seria meu filho agressivo para chegar a morder os amigos? O que será que ele fez para levar essa mordida? Não havia nenhum adulto perto, que pudesse evitar esse fato desagradável? ” E as cabeças não param de funcionar. Vamos tentar aqui refletir sobre alguns pontos que julgamos importantes para quebrar alguns mitos e responder a uma parte das perguntas.
O primeiro deles consiste numa relação difusa e, na grande maioria dos casos, bastante equivocada, que atrela as mordidas à agressividade. Algumas crianças – não todas – costumam morder, como forma de conhecer e experimentar tudo o que existe ao seu redor e, nesse viés, o corpo do amigo também pode parecer interessante. Nem sempre as mordidas resultam de disputas e conflitos entre as crianças.
Vamos lembrar aqui que há pais, mães, tios etc. que brincam de dar pequenas mordidas nas crianças e que oferecem seus corpos: braços, dedos das mãos, o queixo etc. para a criança brincar de morder e, com isso, sem perceber, estimulam esse tipo de atividade.
Um segundo ponto se refere a uma incapacidade temporária de as crianças negociarem, dialogarem e resolverem seus conflitos “conversando”. Nesse caso, as ações físicas em relação aos outros são a forma que usam para equacionar seus impasses de modo imediato, com os recursos de que dispõem: uns puxam cabelos dos outros, alguns dão chutes, outros deitam no chão e choram alto, uns empurram e outros mordem. Nesse caso, a mordida é um recurso utilizado em caso de disputa, tanto quanto os demais recursos que conhecemos, todos igualmente “desagradáveis”, mas são os possíveis, naquele momento. Crianças saudáveis passam por essa experiência devido a impossibilidade de ver o outro: o desejo, os espaços, os objetos e as demandas dos amigos. Eles querem saciar as suas demandas e de modo rápido. Essa aprendizagem na trilha da ética, da partilha e das negociações leva algum tempo e exige mediação de adultos. Os embates que as crianças travam entre si, “desastrosos” aos olhos dos adultos, embora não sejam desejáveis, também contribuem para encontrarem outras formas de luta. Todos ficam muito sentidos; chora quem morde, quem é mordido, quem começou a bater e quem deu sequência. E essas “brigas” valem como uma oportunidade para tomarem seus próprios pulsos, para descobrirem-se como seres de desejos.
Não defendemos a equação de conflitos “na mão ou no braço” mas reconhecemos essa fase como natural, superável e de muita aprendizagem.
Um terceiro ponto, também causado pelo fato de a mordida deixar marcas, é o natural envolvimento dos pais em impasses que eram das crianças, das experiências delas com o seu grupo, sob a orientação de um adulto que se espera habilitado para fazer essa mediação. Isso eventualmente pode fazer com que uma ocorrência comum, habitual e relativamente simples entre crianças passe a ter uma dimensão muito maior que o necessário. E o fantasma parece continuar a ser a agressividade e a violência entre crianças. Só quando se mordem? Por quê?
Já vimos adultos desestruturados que, na porta da creche e da pré-escola, aguardavam a chegada de determinada criança para questioná-la diretamente sobre uma mordida em seu filho. Há casos ainda mais dramáticos, em que o desrespeito e o desequilíbrio ocasionaram agressões verbais e até físicas dirigidas a determinada criança e a seus pais (sic!).
Como alternativa, propomos que pais e educadores se organizem e que se reúnam para conversar sobre a vida das crianças, sobre as suas experiências com outras crianças, sobre a(s) forma(s) como constituem conhecimentos sobre si e sobre o outro. Nesse espaço, é possível também estabelecer condutas entre os adultos, pais e instituição, para minimizar estresses, determinar rotinas, esclarecer dúvidas, o que deverá gerar mais segurança para todos.
Crianças não são SEMPRE doces, nem SEMPRE brigonas ou agressivas, nem SEMPRE ativas ou passivas. Em geral, não existe SEMPRE quando falamos de crianças e de seres humanos. Elas estão em movimento permanente de mudanças a partir de experiências, individuais e coletivas, no caminho de aprender a resolver as coisas de forma mais suave e mais dialógica. Só que esse processo precisa ser vivido por elas. E alguma agressividade é indispensável para a vida, sem ser necessariamente ruim. Sem alguma agressividade, por exemplo, nenhuma criança mergulharia da borda de uma piscina, nem brincaria de Dança das Cadeiras, não é mesmo.
Para concluir, vale lembrar que, desde que nascem, as crianças já têm a boca como o seu esquema mais bem organizado. Nascem podendo sugar, mamar e embora já abram os olhinhos e assustem-se com determinados barulhos, os sentidos começam a se organizar e a se articular aos poucos. Cada um desses sentidos tem características e percursos de desenvolvimento próprios, com ritmos específicos, mas, aos poucos, eles vão se articulando uns com os outros para virem a funcionar de modo interligado. Como assim? Somos capazes de sentir o gosto diante do cheiro de um churrasco, por exemplo. Também sabemos que a boca e os dentes podem auxiliar as pessoas em situações inusitadas: ao segurar lápis ou caneta, para assoviar, para sonorizar e imitar sons, até para certos deficientes físicos virem a escrever. A boca é imprescindível para beijar, para expressar afeto em conexão com mãos, braços e olhos.
Desse modo, embora nós adultos fiquemos muito desapontados quando nossas crianças mordem ou são mordidas, precisamos conversar entre nós, também com educadores, sobre os processos de socialização, de subjetivação, de constituição de conhecimentos delas, num contraponto com as nossas histórias pessoais, para ser possível não demonizar as mordidas nem as crianças que mordem, durante certa fase de suas vidas. Em caso de exagero e de permanência longa demais nessa fase, torna-se necessário conhecer a criança, sua família, o contexto e buscar entender cada caso.

(*)  Angela Meyer Borba e Maria  Inês de C. Delorme

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