Xeque-mate no Papai Noel


Papo de pracinha (*)

Não se trata de nostalgia. Andar para a frente e ir vivendo cada dia é o que nos resta, a todos: crianças e adultos.  A efervescência da vida social é responsável por novas formas de ser, viver, se comportar e desejar. Geramos mudanças e somos impactados por elas. Produzimos e consumimos cultura, porque essa é a dinâmica da vida social, sempre em movimento.

Nessa mesma dinâmica, as festas de Natal e seus símbolos mais tradicionais vieram se transformando. As árvores já foram naturais, artificiais, douradas, prateadas. As bolas deixaram de ser frágeis, multicoloridas e até cilíndricas para se tornarem inquebráveis, substituídas por pequenas caixinhas penduráveis, carinhas de Papai Noel de resina, retratos em corações e por aí vai. A ceia precisou também se adaptar às rendas familiares e aos climas mais quentes, mas mantém – sabe-se lá por quê! – a tradição da ave à mesa (peru, chester ou frango mesmo), do presunto, da farofa, dos bolinhos de bacalhau. Mesmo aqueles de menor poder aquisitivo ou de outras religiões, a despeito de comemorarem o Natal desse ou daquele modo, sabem dizer como deveria ser uma festa tipicamente “natalina”.  As músicas típicas se mantêm vivas, passam de boca-a-boca nas famílias, são relembradas nas rádios e nas escolas, ajudando a manter vivo o encanto dessa festa.  Não há mais sapatinhos em janelas, parece.

O Papai Noel permanece gordo, bem disposto, portando as cores vermelho e branco. Os adultos continuam divulgando, pela televisão, em casa e, também nas escolas que o papai Noel ainda fabrica, manualmente, durante o ano, auxiliado por duendes, anõezinhos e elfos, os presentes solicitados pelas crianças do mundo todo, e que chegam a ele por meio das cartinhas que elas escrevem. Assim, não apenas no mundo cristão, celebra-se o Natal, que tem na distribuição dos presentes para as crianças o seu ápice. Sim, para elas, o encanto, a magia e a surpresa de ter o Papai Noel em suas casas deixando seus presentes é algo muito emocionante. E, como não poderia deixar de ser, ele só passa nas casas quando as crianças dormem e, como precisa ser, só vê os seus rastros quem nele acredita.

A figura do Papai Noel parece ter se originado na Turquia, inspirada num bispo de nome Nicolau, que foi transformado em santo pela Igreja Católica. Em função dos relatos de milagres a ele atribuídos, os alemães relacionaram a imagem de São Nicolau ao Natal, e depois disso Papai Noel ganhou o mundo. Suas roupas nem sempre foram nas cores vermelha e branca. Originalmente, ele se vestia de verde escuro e marrom. Apenas em 1931, ele se consagrou com o modelo que veste até hoje. Sim, a Coca-Cola foi a responsável por esse padrão universal da figura do bom velhinho, inclusive pelo gorro vermelho com pompom branco. A ideia era, claro, aumentar as vendas do refrigerante no inverno. O sucesso dessa campanha foi tão grande que espalhou essa imagem pelo mundo, ampliando exponencialmente a relação entre os interesses puramente comerciais e as festas natalinas.

Seria ingênuo pensar que o marketing voltado para fins comerciais não tenha relação estreita com a cultura. E, por vários motivos, em diferentes culturas, as festas e celebrações, não apenas as natalinas, não escapam dos aspectos que movem a vida contemporânea: o ter em detrimento do ser, a descartabilidade no lugar da sustentabilidade, o comprar no lugar do fazer/criar etc. Não se trata de nenhuma novidade, inclusive esse tem sido um papo recorrente na nossa pracinha. O consumismo desenfreado, alimentado pela adultização das nossas crianças, sublinhado e negritado pela mídia, se faz presente no dia-a-dia das crianças e de suas famílias, dando corpo ao que entendemos como “a cultura material da felicidade”. E, em tempos de Natal, tudo isso se adensa, de modo coletivo, tornando as crianças ainda mais vorazes para pedir e desejar presentes que até o Papai Noel duvida. Precisamos pensar e mais uma vez tentar responder: o que estamos alimentando em nossas crianças?

Lendo “cartinhas” de crianças com idades entre quatro a seis anos, encontramos pedidos que expressam desejos, no mínimo, curiosos. A maioria dos pedidos mesclam presentes tradicionais infantis – como jogos, bicicletas, patins, pincéis e tintas (ufa, alívio!) – com objetos identificados com o mundo adulto – como maquiagem, esmaltes de unhas da Giovana Antonelli e até mesmo o último CD da cantora Adelle, o “Hello 25”. Os aparelhos de telefonia celular são solicitados “pela marca”, com especificação de detalhes como: “tamanho grande, com boa máquina fotográfica e fones de ouvido”.

É importante frisar, são crianças com idade entre quatro e seis anos que frequentam uma pré-escola na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro e que, supreendentemente, ainda acreditam na existência do Papai Noel, como um velhinho que mora muito longe, e que vem do frio num trenó com renas. Uma menina desse grupo se dirige ao Papai Noel pedindo uma roupa de Aurora e explica: “ela é aquela Bela Adormecida, velha, do livro, que você sabe qual é, mas a Aurora é da versão Disney. É essa, eu só quero a roupa dela.” Além da roupa da Aurora ela pede uma boneca Barbie com cachorrinho e, ainda, um jogo “Lego Meninas”. Verificamos que esse jogo de blocos e encaixes, que faz sucesso no mundo todo, lançou agora uma versão para meninas (sic). A novidade consiste nas cores usadas na embalagem e em parte dos blocos, além da inserção de alguns pequenos objetos como bonequinhas etc. Vender mais, para meninos, para meninas, como vêm fazendo as marcas tradicionais de xampu na televisão. Só para isso, para vender mais.

Por fim, para concluir a análise das cartinhas, encontramos um pedido de uma “Boneca Descendente do Mal”.  O nome foi para nós assustador e, por isso, fomos pesquisar. A boneca foi lançada a partir de um vídeo da Disney “que já tem no NOW”, disse a criança querendo nos ajudar, “que se chama Descendentes. Não é Monster High que são vampiras. Elas são filhas dos vilões da Disney. As mães querem que as filhas sejam más, mas elas não são, elas são boazinhas”. E continuou reivindicando “Não pode esquecer do meu Esmaga Max e do Pula Macaco”.

Somos parceiras e defensoras das crianças, portanto, não cabe criticar os pedidos delas, apenas entender. Conhecer como elas pensam e como os adultos que vivem perto delas reagem, conversam e negociam com elas. Lutamos, ainda, para manter viva a alegria da festa, as boas surpresas e os melhores encontros.

Sabemos que quase todos os jogos e brincadeiras, para crianças de quatro a seis anos, têm a qualidade de reunir meninos e meninas em torno deles. Nesse caso, um brinquedo/ jogo destinado a um, ou a outro, costuma não ser interessante. Também ficamos com dúvidas quando aos pedidos de CDs de músicas, seja do repertório  infantil, de boa qualidade,  seja o da Anita ou o da cantora Adelle. Seriam esses desejos legítimos de crianças?  A ver.

Não temos dúvida de que o papai Noel tem um desafio imenso pela frente! Que adultos consideram “confortável” esse cenário? O que fazer para alterá-lo?

Acreditamos que caiba aos adultos, todos os dias do ano, e também no natal, resgatar valores que não podem sair de moda para colorir essa festa e, ao mesmo tempo, semear dias melhores para todos. As crianças precisam ser convidadas a “pensar e a agir junto com seus responsáveis”, no sentido de promoverem um troca-troca de brinquedos, montarem oficinas de criação de presentes com objetos/materiais simples, caseiros, que podem ir de porta-retratos com palitos de sorvete à confecção de pães gostosos, biscoitos, fantasias etc.; distribuírem roupas, alimentos e brinquedos para as crianças pobres. Valem as festas e os presentes “de loja”, desde que não faltem os princípios educativos de uma vida voltada para a paz, o amor ao próximo, a harmonia, os cuidados planetários, a gratidão, a solidariedade e a fraternidade. O xeque-mate do papai Noel, expresso pelas cartinhas do natal, sem nenhuma dúvida, vem sendo gestado a cada dia do ano, por relações frágeis e impregnadas pela lógica do consumo, sob os aplausos do comércio, da mídia em geral e de alguns adultos também.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

2 comentários sobre “Xeque-mate no Papai Noel

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