Os aniversários e as festas-espetáculo

Papo de pracinha (*)

Volta e meia nos deparamos no caótico transito da nossa cidade com chamativas limusines, um tipo de carro-espetáculo ou festa de aniversário ambulante. Decoradas internamente para criar um cenário de celebridades ou princesas, esses veículos oferecem filmes, música e comes e bebes, com direito a guaraná servido em taça de espumante.

Há tempos, esse jeito estranho de celebrar aniversários tem “circulado” na nossa cidade. O que levaria uma menina a desejar ter a sua festa em um espaço ambulante fechado e limitado, no caótico trânsito do Rio de Janeiro, com algumas poucas amigas escolhidas a dedo (8 a 10)? O que fazem ali dentro? Conversam, comem, bebem e, quem sabe, brincam(será?) um pouco também. O que mais?

Ser a protagonista de um passeio-festa de limusine, automóvel equipado com teto solar, luzes, som, decoração, e viver algumas horas como celebridade parece consagrar a aniversariante – e também suas convidadas – como estrela-glamorosa-linda-poderosa, modelo de beleza-celebridade dos padrões de consumo da moda! Essa parece ser a motivação principal dessa festa e não o encontro para brincar, conversar e celebrar entre amigos a alegria de completar mais um ano de vida!

Esse modelo de festa, assim como outros tantos, como salão de beleza, top-model, cinema, casa de festas, fazem parte de uma indústria especializada em festa teens e infantis. Mais um dos produtos da lógica do consumo que tudo invade! Espetáculo e ostentação transformaram-se nos parâmetros para a organização da festa: decorações temáticas cada vez mais sofisticadas, brindes especiais, animações e atrações…Sem falar da música, supostamente utilizada como pano de fundo para tornar o ambiente alegre, mas que acaba se tornando a protagonista da festa junto “com o luxo e riqueza”, porque impede qualquer tipo de conversa pelo volume praticado– de bebês a jovens.

E assim, o evento festa de aniversário torna-se especial e caro, muito caro!. Muitas crianças aderiram a tais modelos, e suas famílias também. É comum ouvir os pais dizerem que preferem contratar festas desse tipo porque não dá trabalho e oferece segurança! E pior, há pais que competem entre si sobre qual é a melhor festa “ostentação”. O que esperar então dos filhos de pais que pensam assim?

Hoje, até mesmo festas simples que aconteciam pelo prazer de estar com os amigos, como a festa do pijama, em que todos se reúnem na casa do aniversariante para brincar, assistir filmes, conversar e dormir juntos, já entrou na indústria de festas e já se organiza com kits de pijamas ou camisolas com o nome do aniversariante, lembrancinhas e outros apetrechos tornando dispendioso o que era simples e barato. O pior é que o valor que se cria no grupo, em torno do aspecto material, leva a que todos queiram ter a sua festa dentro dos modelos em voga.

As festas parecem seguir um protocolo que uniformiza tudo, deixando muitas vezes o sentido original da comemoração de aniversário em segundo plano. A diferenciação entre uma e outra festa se faz no mais, cada vez mais (e mais caro!): animadores, shows, cenários super-coloridos, DJs, mesas lotadas de doces e enfeites, brinquedos, brindes etc.?

Na maioria das festas, nem se entrega mais o presente nas mãos do aniversariante, que muitas vezes fica sem saber quem deu o quê. Onde fica a emoção e a surpresa de presentear e ser presenteado? Hoje, já podemos até escolher – ou melhor, selecionar – algo que antecipadamente sabemos que vai agradar o aniversariante, pois ele próprio fez sua lista de presentes! Sim, nas festas de crianças e adolescentes já existem listas de presentes, como é usual nas festas de casamentos. Prático, não? Mais um protocolo adicionando burocracia e reduzindo delicadeza, singularidade e sensibilidade!

E assim, vamos abandonando a surpresa e a sensação de expectativa, de alegria ou de frustração envolvidas no receber e oferecer um presente. Sob a ótica utilitarista e consumista, vamos abandonando o sentido original de presentear, que é a manifestação de carinho em relação ao outro, e também o sentido de celebrar as datas que marcam momentos importantes na nossa vida, como é o caso do aniversário, que é compartilhar a nossa alegria com os amigos fortalecendo os vínculos de afeto, respeito e amizade.

Do que realmente a criança precisa? O que a torna feliz? O que é importante para que ela cresça cultivando valores humanos? O que esse tipo de festa pode trazer para a criança? Precisamos fazer essas perguntas, do contrário, podemos facilmente nos enredar na lógica do consumo.

Mas ainda bem que existe resistência a tudo isso. Há um movimento que se contrapõe às festas-espetáculo e que aposta na simplicidade e nas relações de amizade e convivência. Temos relatos de festas infantis em que o foco da comemoração está no encontro das crianças e nas brincadeiras coletivas. Brincadeiras da nossa cultura, como pular corda, amarelinha, elástico, mamãe posso ir etc., ou nas brincadeiras inventadas pelas crianças com materiais simples e variados. Esperamos que muito mais crianças e famílias resgatem e criem formas de comemoração mais sensíveis e menos consumistas, baseadas no encontro com o outro e na alegria de viver mais um ano de vida, celebrando esse momento com simplicidade e, nem por isso de modo menos feliz, ou melhor, e por isso mesmo de modo mais feliz!

Quem me dera ao menos uma vez que o mais simples fosse visto como o mais importante (Renato Russo)

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

9 comentários sobre “Os aniversários e as festas-espetáculo

  1. Aplausos! Que texto veloz! Intenso e muito bem escrito. Queria entregar na mão de cada responsável pelos alunos da minha escola. Concordo na íntegra com tudo que foi dito e me preocupo com essa crescente desvalorização das manifestações de afeto simples e cinsero!

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  2. Nossa! Que texto! Que crítica sensacional! Essa é uma crítica feita especialmente a esse tipo de festa, mas que eu, particularmente, vejo se expandindo por toda a sociedade é mesmo a perda da simplicidade. Perdendo a simplicidade, os laços afetivos se afrouxam e perdemos a oportunidade de aprofundarmos as amizades, de termos aquelas amizades realmente sinceras e profundas. Da mesma forma que pode acontecer com as crianças, acontece com outras faixas etárias. Os jovens, por exemplo, preferem sair com amigos para uma balada, onde mal iria ver um a cara do outro e muito menos conversar sobre qualquer coisa! Infelizmente, essa inversão de valores está tomando a sociedade! Ainda bem que temos os grupos que não se rendem a isso, como foi exemplificado no texto… Enfim… Ótimo! Todos deveriam ler esse texto!

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  3. Já me peguei pensando mto sobre esse assunto! Hj em dia se vc dá de brinde um saquinho de doces, todo mundo acha estranho, pois os brindes tem que ser muitos e bons, pq tem comparação! Enfim n pode sair da festa de mãos vazias… Absurdo! !!

    Curtido por 1 pessoa

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