Casinha de bonecas: encanto para meninos e meninas

Papo de pracinha (*)

No início do mês de outubro do corrente ano, o portal de notícias globo.com publicou uma matéria, por ocasião da festa de Halloween nos EUA, sobre um pai americano de 28 anos, que aceitou o pedido de seu filho, um menino de 3 anos, para vesti-lo como a princesa Elsa, do filme Frozen. E, para apoiar o filho e acompanhá-lo à festa das bruxas, ele mesmo decidiu vestir-se de Anna, a outra princesa do filme. Para defender-se da chuva de possíveis críticas, Paul Henson se antecipou, dizendo: “fiquem com seus preconceitos masculinos e suas fantasias infantis ‘quadradas’. O Dia das Bruxas é sobre crianças que fingem ser seus personagens favoritos. Isso vai ser assim mesmo, esta semana ele quer ser uma princesa”.

Na verdade, as crianças e os poetas são tacitamente “autorizados” pela sociedade para “agirem como se”, para vestirem-se de quem não são. Chico Buarque, e não só ele, canta e retrata a alma feminina lindamente sem ter sua masculinidade ameaçada. No entanto, se um menino de três anos, que tem a ludicidade e o pensamento mágico como um direito de expressão e de linguagem, deseja vestir-se de princesa, em geral pais e mães reagem por sentirem-se ameaçados, como homem, como mulher e como pais. Um menino que quer ser e agir como se fosse uma princesa e, também, uma menina, que deseja ganhar uma bola de futebol e uma chuteira, certamente, serão impedidos pelos adultos e com certeza não terão possibilidade de entender o porquê dessa proibição.

Costumo observar as crianças. Estive vendo um grupo formado por Isabela, com três anos e seus cinco primos. Eles se encontram com frequência na casa ampla dos avós onde há um pula-pula daqueles bem bacanas, além de um campo de futebol histórico, que vem acolhendo gerações de jogadores: pais, filhos, netos e amigos, para rolar a bola.

Isabela brinca com um “harém “ às avessas, sendo a mais nova dos primos. Os meninos a cercam e ela demonstra não aceitar para si o lugar de menininha frágil, doce, nem desprotegida. Ao contrário, ela é bastante decidida, resolvida e forte para enfrentar os impasses “do seu jeito”: entra em campo e disputa as bolas entre os primos e os amiguinhos.

Pude perceber naquela tarde, o imenso encanto dela e desses meninos diante de um brinquedo novo para as crianças, uma casinha de bonecas. O sucesso foi total, as crianças entravam e saíam dela, cantavam, ficavam de pé lá dentro, faziam comidinhas, disputavam espaços e brigavam entre si; todos usavam as panelinhas com pedras e pedaços de folhas, e disputavam o controle da porta. Todos queriam mandar e determinar quem poderia sair e entrar para brincar nessa casinha.

Numa circunstância de impasse entre as crianças, um adulto gritou de longe: saiam daí meninos, a casa é da Isabela que é menina. Esse discurso me surpreendeu a ponto de querer saber mais sobre a tal casa de bonecas dentro daquela família, os usos possíveis para todos, ou só para alguns. E fiquei mais feliz do que poderia imaginar.

A casa de bonecas é de todos e, eventualmente, os meninos queriam ficar muito tempo mexendo em panelinhas e nos outros objetos disponíveis no espaço. Os meninos e a Isabela brincam de casinha, brigam entre si para escolher quem vai ser o pai, a mãe, o filho e o porteiro, quem cuida da porta, e quem poderá entrar. Às vezes, um deles é o bebê e os meninos cuidam dele, brincam com ele e, num piscar de olhos, o bebezinho passa ser a mãe e o pai vira o bebê. Eles também brincam de experimentar certas profissões e ali, com os amigos, mostram como entendem e representam o mundo dos adultos. Numa prateleira da casinha há maquiagens disponíveis, além de um espelho que ajuda no uso das mesmas. E os meninos adoram as maquiagens e o espelho.

O que entendi foi que a voz daquele determinado adulto soou como palavra vazia, como uma voz sem significado para as crianças que não entendem ser a casinha um brinquedo destinado apenas às meninas. O encanto da brincadeira foi maior. As crianças conversavam entre elas sem parar e continuaram brincando por toda a tarde.

Nesse dia, lembrei do pai e do filho que, sem medo de nada, foram à festa de Halloween juntos e felizes, vestidos de princesas do Frozen. O pai não teve qualquer insegurança ao se transformar em mulher e nem seu filho, uma criança, que aos três anos não titubeia em correr atrás do seu desejo com vigor, sem supor o que pode passar pela cabeça dos adultos. De alguns adultos.

Eu desejo, ardentemente, é que todas as crianças, meninos e meninas possam ter oportunidade de brincar com casinhas de bonecas, de príncipes e de princesas, sem serem cerceados por esses adultos inseguros e medrosos, que acabam criando impedimentos para a vida e para às brincadeiras infantis.

Precisamos de crianças felizes e de pais que entendam os seus comportamentos com delicadeza, sem julgamentos precários e sobretudo sem preconceitos.

Todos, meninos e meninas, crianças precisam poder entrar, sair, brincar de casinha!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

3 comentários sobre “Casinha de bonecas: encanto para meninos e meninas

  1. Ótimo texto! Gosto muito da fluidez e suavidade do texto de vocês! Essa é uma discussão realmente muito importante! Às vezes os adultos reproduzem atitudes preconceituosas sem ter a mínima consciência disso, e eu me incluo nisso! É sempre bom lembrar que as coisas podem seguir mais a sensibilidade do coração. Muito bom!

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