As crianças, os adultos e as mídias

(*) Papo de pracinha

1444722355_88É visível a aproximação de crianças muito pequenas com as mídias digitais. Algumas, com dois ou três anos já manipulam ipads, smartphones e tablets, quando não estão com o controle remoto da televisão, ou do vídeo, em suas mãos, em casa. Há bebês que ficam algumas horas paralisados diante da televisão, sem reclamar e, às vezes, ali mesmo dormem. O que costuma acontecer é que quando os adultos querem ter um pouco de sossego à mesa de um restaurante, para dirigir seu automóvel, ou na hora de assistir a um jogo de futebol, por exemplo, eles entregam seus dispositivos, como tablets e smartphones, para as crianças se distraírem.

Essa relação de crianças tão pequenas com a televisão, os computadores e todas as outras mídias vem sendo motivo de preocupação de pais, pedagogos, pediatras e psicólogos, além de ser o foco de pesquisas por todo o mundo. Parece ser a Inglaterra um rico celeiro de estudos sobre esse tema, tendo como representante principal a profa. dra. Sonia Livingstone[1], do Department of Media and Communication da London School of Economics and Political Science (LSE). Ela vem buscando entender, junto às famílias britânicas, a função das tecnologias digitais em suas vidas e os desafios que os pais enfrentam para administrar o uso da mídia com as crianças pequenas. Inegavelmente, diz Livingstone, existe uma “alteração da ecologia da infância” e os reflexos disso precisam ser estudados.

Claro, não queremos propor nenhuma equiparação entre o Brasil e a Inglaterra, mas sugerir que pais, responsáveis e pedagogos conheçam parte desse trabalho e que tirem proveito deles.

Segundo a pesquisadora, os pais apresentam uma contradição entre o medo que dizem ter, e as atitudes que tomam. Quando esses pais narram um dia muito interessante com suas crianças, não está nele incluída nenhuma mídia digital. Eles relatam como um dia produtivo aquele onde, juntos, leem livros com boas histórias, quando vão ao parque, quando jogam ao ar livre, ou usando tabuleiro e, algumas vezes, quando praticam atividades de arte. No entanto, quando a pesquisadora pergunta a esses mesmos pais (de crianças de três a oito anos) sobre o que pensam sobre o contato de suas crianças com as mídias digitais, eles afirmam favorecer esse acesso e reconhecem que entregam seus dispositivos nas mãos de seus filhos, embora tenham sempre muita dúvida sobre os usos que eles fazem deles. Apesar da preocupação e do medo, eles os compram com entusiasmo e os entregam às suas crianças. O medo e a preocupação que sentem não são impeditivos, como demostram pela forma como agem.

E mais, a grande maioria desses pais afirma que gostaria que suas crianças, com três ou quatro anos, conhecessem sites divertidos, criativos, que ampliassem suas estruturas cognitivas, desde que essa não fosse uma tarefa deles, mas das escolas das crianças. Algumas delas o fazem, ainda que a maioria, não.

O que se observa é que na Inglaterra, também no Brasil, as mídias servem como alternativas úteis e eficientes para ocupar as crianças quando os adultos estão ocupados, ou cansados, e estes admitem essa conduta “contraditória”. Geralmente sem supervisão do que fazem com os smartphones e os tablets, as crianças mostram adorar esses momentos, por significar ​que podem fazer o que realmente gostam, sem que os adultos estabeleçam qualquer controle.

Não cabe a nós criticar os pais e responsáveis e nem, muito menos, dizer como eles devem agir em relação aos seus filhos. O que podemos dizer é que até os dois anos de idade, pelo menos, não existe qualquer indicação para que crianças vejam televisão, nem para terem acesso a smartphones e tablets. Como seu tempo de interesse ainda é bastante curto em relação aos brinquedos, às brincadeiras, às experiências de toda ordem, o fato de ficarem olhando firmemente para a televisão não significa que isso lhes faça bem, embora cause-lhes algum fascínio. Os médicos dizem que, no mínimo, ver Tv é perda de tempo porque as crianças precisariam de muito mais estímulos do que os que a Tv lhes oferece, ainda mais no momento em que sua ação sobre/no mundo exigiria deslocamentos, movimentos variados, conversas e relação com outras crianças e adultos. Elas podem ouvir boas músicas e histórias em Cds, por exemplo, enquanto se deslocam livremente.

A partir dos dois anos, embora seja complicado trabalhar com idades, talvez elas possam, não dissemos que “devam”, ver desenhos animados na televisão, ver alguns vídeos de histórias encantadas, curtas e movimentadas, coloridas, sem exagero quanto ao volume do som, nunca por muito tempo seguido.

“Mas elas pedem para mexer no meu celular. Elas adoram o tablet, querem jogar usando o tablet”, dizem seus pais. É verdade, mesmo reconhecendo ser até certo ponto inevitável, elas querem o que os adultos a sua volta valorizam, usam e lhes apresentam quando estão juntos. Não se trata de esconder esses dispositivos das crianças da mesma forma que dirigimos automóvel, usamos facas e canetas cotidianamente, na frente delas. Só que não ficamos horas e horas mexendo em facas e em canetas, não as levamos para passeios, quando estamos juntos. E se for o caso, sabemos dizer não para as crianças, quando elas nos solicitam certas coisas impróprias e inadequadas.

Quem ainda não recebeu um telefonema inesperado de uma criança bem pequena que teclou, teclou e conseguiu discar? Quantas vezes não falamos com orgulho, para amigos que uma criança de dois anos já consegue tirar foto usando o tablet?

É importante que consigamos abrir espaços de discussão entre nós, adultos, incluindo a opinião de alguns estudiosos sérios, para tentar, em primeiro lugar, equacionar essa dúvida que se instala sobre, de um lado, facilitar o uso de dispositivos digitais em crianças tão pequenas e, de outro, como responder a essa preocupação diária sobre o impacto desse uso nessas mesmas crianças.

Ficamos aqui nos perguntando porque as crianças de dois, três e quatro anos não estariam brincando de fazer bolo com balde e terra, apertando massa de modelar, correndo, saltando, transpondo obstáculos? Por que elas não estão buscando entrar e sair de caixas, de túneis feitos com cadeiras e tecidos, empilhando objetos ou blocos de plástico e de madeira?

O interesse delas por esses dispositivos úteis e muitas vezes também divertidos para os adultos só existe em função do que não vêm experimentando e, junto com isso, devido ao interesse que despertam nos adultos com quem convivem. A mídia e o consumismo voraz fazem com que os objetos de desejo dos adultos cheguem às crianças, precocemente, e isso pode vir a ser muito ruim para elas.

A televisão, a mídia mais acessível à grande parte das famílias brasileiras, e também os sites a que as crianças podem ter acesso via internet costumam veicular e também comercializar produtos e valores que são pensados, em quase cem por cento dos casos, por pessoas com interesses outros que sequer tangenciam o que conhecemos como uma infância feliz, saudável e rica em experiências.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

[1] Informações retiradas do blog “Parenting for a Digital Future”, disponível na internet em 4/11/2015.

http://blogs.lse.ac.uk/parenting4digitalfuture/2015/10/15/is-there-such-a-thing-as-good-screen-time-for-young-children/

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