Pré-escolas: aprender mais e cada vez mais cedo?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Tudo é muito rápido, e quando os pais menos esperam já é hora de mudar a rotina de suas crianças. Aos 3 anos e 11 meses é preciso pensar na pré-escola que frequentarão a partir dos 4 anos, até os 5 anos e 11 meses. Isso vale para todas, as que estão em casa com babás, vovós e, também, para as que já frequentavam creches.

Sim, há uma lei que obriga que todas as crianças brasileiras sejam matriculadas na educação básica a partir dos quatro anos de idade. A mesma Lei nº 12.796/2013 estabelece que a educação infantil, para crianças de 4 e 5 anos, deverá ser organizada com carga horária mínima anual de 800 horas, distribuída por no mínimo 200 dias letivos. Ou seja, pelo menos por quatro horas diárias para o turno parcial e sete horas para a jornada integral.

Por que é importante que os pais e responsáveis saibam disso? Bem, no nosso país é comum o pensamento equivocado de que as leis devam valer apenas para as instituições públicas e não, para as particulares. A primeira etapa da educação básica, que inclui as creches e pré-escolas, é de responsabilidade municipal, sejam elas públicas, particulares, conveniadas e comunitárias. Assim, as crianças completam 4 anos e uma pequena parte delas poderá continuar na instituição que já frequentavam antes, agora nas turmas de educação infantil. Às vezes há na sequência da creche, a pré-escola e até mesmo alguns, ou todos os anos do ensino fundamental dentro de uma mesma instituição. Às vezes, ou na maioria das vezes, não. Mudança de rumos, escolha de novos espaços para as crianças! Ansiedade e angústia, de novo. Agora que todos, a criança e seus pais, estavam tão tranquilos e felizes…

Como escolher esse novo espaço, o da pré-escola? Algumas questões precisam ser discutidas e pensadas com cuidado. É comum, por exemplo, que nessas instituições grandes, que contemplam vários segmentos escolares, da creche ao vestibular, que cada segmento venha a ocupar um prédio diferente, tenha coordenações distintas e que, também, se diferenciem muito em relação aos ideários que defendem. Nesses casos, passar da creche para a pré-escola, ou desta para o ensino fundamental, pode significar quase o mesmo que uma mudança de escola! Assim, é muito importante conhecer cada um desses segmentos, suas especificidades e a relação desejada entre eles, buscando saber se são mantidas as questões que lhe fizeram escolher essa, e não outra instituição para a sua criança.

Se você efetivamente irá matricular a sua criança num novo espaço, precisará ter claras as suas prioridades para seu filho/a e buscar, necessariamente, aquele que se coaduna com o seu projeto de educação. E a questão relativa à carga horária da criança, por dia, no estabelecimento, poderá vir a reduzir um pouco as opções.

Aconselhamos que os adultos primeiro conheçam esses espaços, que façam uma seleção prévia para depois levar as crianças para uma, ou mais, visitas. A opinião delas, o sentimento expresso e suas intuições também devem ser considerados, mas não cabe a elas a responsabilidade pela decisão, em última análise.

Um conselho, vale? Visitem as instituições em período de atividades, com as crianças lá. Observem as paredes e os murais, o barulho das crianças, os deslocamentos delas pelos espaços, os adultos que as acompanham, a higiene, a iluminação, a alimentação, materiais disponíveis como livros, brinquedos etc. O ideário que dá suporte à toda a ação deverá ser motivo de conversa com algum profissionais da equipe: a equipe em si, o projeto político pedagógico, os processos de avaliação e de acompanhamento, as reuniões de pais etc. Uma dica, onde há crianças há uma sonoridade muito própria delas. Silêncio e organização excessivos não combinam com autonomia, alegria e parceria. Escutem os sons. A pré-escola não deve trabalhar com salas de aulas, mas salas de atividades e, se esses espaços estão repletos de mesinhas e de cadeiras, não poderão favorecer os deslocamentos das crianças, nem as atividades em pequenos grupos e nem, tampouco, as diversificadas: livres, dirigidas e semi-dirigidas; atenção quanto aos pátios para brincadeiras ao ar livre, em contato direto com a natureza, coisa cada vez mais escassa e difícil de se achar. Vale tentar.

No mais, voltamos ao começo. O vocês querem para suas crianças com quatro e cinco anos? Os tempos estão bicudos e o momento se mostra conservador. A infância corre perigo quando os espaços que frequentam trabalham antecipando conceitos e conteúdo do ensino fundamental. Sim, há pais querendo seus filhos sabidos a qualquer preço e as crianças, já pautadas por uma mídia voraz, querem crescer rápido para fazer outras coisas, acessíveis ao mundo adulto como ter o seu próprio Ipad, celular, dirigir automóvel. São exemplos. Vemos pais e famílias que esperam ansiosamente pela pasta de “trabalhinhos” gráficos, desenhos e escritas espontâneas para passar a crer que suas crianças, de fato, façam algo de produtivo na pré-escola. A função mais importante da educação infantil, e em especial a da pré-escola não se resume a ensinar a ler, escrever e contar. É urgente garantir às crianças o que lhes é de direito estimulando-as a ser o que são, de verdade: CRIANÇAS!

Agendas muito amarradas, para o horário em que não estão na pré-escola, com atividades como dança, pintura, tênis, natação, língua estrangeira etc. que, por si sós poderiam ser preciosas, acabam não permitindo que as crianças tenham tempo livre para brincar, para ficarem parados, para descansar e brincar na sua própria casa, com as crianças da vizinhança, com seus livros, com seus amigos imaginários.

Ouvimos certos comentários preocupantes: ele gosta de ir para lá, ele encontra e brinca com os amiguinhos e isso já é bom demais para essa idade. Brincar é mesmo a atividade essencial da criança, mas não é menor, nem menos importante como esse tipo de discurso parece dizer “é pouco, mas está bom”. Não, não é pouco. É muito, é indispensável. E, nesse viés, quando as crianças completam quatro e cinco anos, vemos essa “descontração equivocada” dar lugar a uma ansiedade muito grande, a uma pressa louca ao que “devem e precisam aprender. E nessa circunstância, mais um mito se instala, de que a pré-escola boa, a “pré-escola forte” não devesse estimular mais a brincadeira e, em seu lugar, investir em ensinamentos voltados para as letras, os números, as formas geométricas e outros conteúdos escolares. Perigo!

Por isso tudo, estamos aqui conclamando parceiros para engrossar o coro da pracinha com vigor, para garantir às crianças experiências “escolares” felizes, criativas, que lhes garantam o direito de brincar como um direito de liberdade. Não é o caso de impedir que elas aprendam coisas novas, ao contrário, elas se desenvolvem e aprendem o tempo todo. Brincar, sim, é a atividade indispensável e um direito de todas. Isso é importante demais para suas vidas e por toda a vida, não apenas na creche e na pré-escola.

Se não defendermos as brincadeiras livres infantis, sem outras intenções (mesmo as pedagógicas), tememos que, em pouco tempo, existam médicos e engenheiros formados antes mesmo de poderem votar e de dirigir automóvel. E pior, sob os aplausos de alguns adultos.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

3 comentários sobre “Pré-escolas: aprender mais e cada vez mais cedo?

  1. Ouço comentário de mãe orgulhosa dizendo que seu filho de 1 ano e 9 meses conta até dez. Da outra, que sua filha de 2 anos e 8 meses conta até 20, sabe os meses do ano entre outras informações. E a convivência com os amigos, com as funcionárias, o aprendizado de seus limites e comportamentos longe dos familiares nem são citados como conhecimento, como avanços… Números e letras são mais importantes do que as primeiras interações desses pequenos com o mundo.

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