A difícil escolha da creche

Papo de pracinha (*)

1444722355_88O bebê nasceu, já passou o momento mais difícil dos primeiros meses, o encantamento dos pais cresce a cada dia, mas cresce também a preocupação com o que está por vir. A licença-maternidade vai acabar, logo logo a mãe estará trabalhando. O pai nem teve licença, só uma semaninha quando o bebê nasceu! O que fazer? Creche ou babá? Deixar com a vovó? Do que meu bebê precisa para se sentir bem, feliz e se desenvolver plenamente?

A decisão pela creche, em maior ou menor grau, vem sempre carregada de sofrimento e insegurança. Afinal, é a primeira separação mãe-bebê após os nove meses de gestação e os primeiros meses de intensos cuidados! Mas vamos lembrar que também é um momento importante e necessário para a mãe, de retomada de suas atividades produtivas (para além de cuidar do seu bebê), e para a criança pode significar uma oportunidade de ampliar seus horizontes, já que passará a interagir com outras crianças e adultos, explorar outros espaços e objetos, e participar de atividades variadas.

Mas como escolher a creche? Qual a melhor? Qual o custo? Poderei pagar? Período parcial ou integral? Perto de casa ou perto do trabalho da mãe ou do pai?

Muitas famílias já fazem essa escolha no período da gestação. Hoje, conseguir uma vaga não é tão simples, é preciso que a reserva seja feita com antecedência. É assim que funciona nas creches privadas. Nas públicas, a questão é ainda mais complicada, já que a oferta de creches é muito pequena diante da demanda existente. A inscrição é feita em uma das creches da rede e depois é preciso sorte, uma vez que as vagas são preenchidas por meio de sorteio.

Visitar creches para observar o espaço e conversar sobre a proposta é um caminho fundamental para se fazer uma boa escolha. Mas o que observar? Para responder a essa questão, é preciso primeiro responder a outra: o que estamos buscando para o nosso(a) filho (a)?

A escolha de uma creche, onde a criança ficará grande parte do dia convivendo com outras crianças e adultos, e aprendendo com estes sobre o mundo em que vive, não é algo simples. Envolve valores, ideais e as referências que temos das nossas experiências pessoais relacionadas à escola. Sem falar nos sentimentos de ansiedade, medo e insegurança já mencionados acima.

O que queremos para os nossos filhos? Como queremos vê-los crescer? Como desejamos que eles vivam a sua infância? Que relações queremos que eles tenham com a escola, com as pessoas, com a vida? O que significa para nós uma creche: um espaço que oferece os cuidados básicos necessários à saúde e à segurança das crianças ou, muito além disso, um lugar em que a criança possa se desenvolver de forma integral e viver plenamente a experiência de ser criança?

Há muitos pais que já se preocupam desde aí com a escolarização da criança. É de assustar, mas há pais que já escolhem a creche pensando na preparação da criança para a alfabetização, e até mesmo para o vestibular e para o mercado de trabalho. Já viram propagandas de instituições de educação infantil com os dizeres: daqui sairão engenheiros, advogados, médicos… estampando imagens de crianças com diplomas nas mãos? E não faltam espaços de educação infantil que enchem as crianças, desde pequenas, com exercícios de cobrir letras e numerais, colorir figuras, entre outras atividades que não fazem nenhum sentido para elas.

O que devemos observar, perguntar, numa visita a uma creche? Dependendo da forma como respondemos a essas questões – filosóficas – criamos as lentes que irão nos ajudar na nossa escolha. De diferentes formas, essas questões se materializam em aspectos mais concretos do cotidiano desses espaços.

Uma primeira e grande preocupação que a maioria das mães têm se refere aos cuidados: a creche é limpa? Arejada? Bem iluminada? Existem adultos competentes e em número suficiente para cuidar do bebê? Ele terá atenção individualizada? Como será o sono, a alimentação e o banho? O espaço é seguro? etc. etc. etc. Alguns pais limitam suas preocupações a esses aspectos, que costumam ser chamados de “cuidados” – e que não significam pouca coisa! Mas os cuidados não se separam de um modo de educar, de compreender a criança. Não basta a creche ser limpa, ter local adequado para o banho, ter uma alimentação planejada por nutricionistas competentes, entre outros aspectos. É importante conhecer a forma como os adultos interagem com a criança no banho, nas refeições, no sono e nas demais atividades que ocorrem na creche. Essas atividades ocorrem de forma burocrática, como uma linha de montagem, ou são realizadas como atividade educativa, de forma acolhedora e afetuosa, respeitando a singularidade das crianças, ou seja, levando em conta suas preferências e particularidades? Como é a rotina da creche?

É preciso lembrar também que as crianças não são só um corpo que necessita de cuidados. São sujeitos que estão se conhecendo e conhecendo o mundo, são curiosas, precisam de oportunidades de observar, refletir, descobrir …. E aí, outras tantas perguntas fervilham: Como meu bebê será tratado? Será respeitado nas suas escolhas e no seu modo de ser? Terá autonomia e liberdade para brincar e se expressar em diferentes linguagens, descobrir o mundo com alegria e respeito ao outro? Terá oportunidades de explorar a natureza? Terá espaço para ser criança?

A criança precisa estar inteira nas instituições de educação infantil, o que significa estar ali, de corpo presente, com toda a sua vitalidade, curiosidade, movimentos espontâneos e brincadeiras, nos corredores, nas salas, nos parquinhos etc.. É a criança, com suas particularidades, que precisamos enxergar nas produções expostas nos murais (e não um conjunto de trabalhinhos formatados e iguais), e também no tipo de atividades propostas, no mobiliário e na estética do espaço. Enxergar verdadeiramente a criança é muito diferente de olhá-la como um projeto de adulto, que precisa ser preparado para se tornar racional e competente, como muitas creches e pré-escolas fazem. É preciso enxergar a potência da criança e sua diferença radical em relação ao adulto, levando em conta a sua lógica própria, os seus modos peculiares de pensar, ser e agir no mundo.

É preciso, principalmente, reconhecer a brincadeira como aquilo de mais sério que a criança faz! Adentrar o espaço da creche e ver crianças brincando felizes já é um bom indício da proposta educativa de uma creche. E o que mais? Esse é apenas o início da conversa, ainda temos muitos assuntos, mas fica para o próximo papo.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

3 comentários sobre “A difícil escolha da creche

  1. Excelente texto, reflete em palavras exatamente o que eu quero. Estou entrando no mundo das maes agora e comecei a pensar na creche. Ainda nao comecei a visitar as creches e acho que para quem nao é educadora, como eu, é um pouco dificil identificar esses detalhes, mas esse texto já foi um ótimo começo. Obrigada

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    1. Que bom que o texto te ajudou Amanda! É mesmo difícil escolher a creche em que nosso/a filho/a passará grande parte do seu dia. Para isso, é bom conversar sobre as nossas preocupações e expectativas. Vamos continuar conversando por aqui, no Papo de pracinha, sobre esse e outros temas relacionados às crianças. Abs

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