Quem tem medo de bruxa?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Não estamos aqui na pracinha, dessa vez, para discutir se os países que vivem na parte debaixo da linha do Equador devem, ou não, comemorar o dia das bruxas como se faz na América do Norte, embora isso pudesse vir a ser um papo de muitos dias no banco da nossa praça. Viemos conversar dessa vez sobre a relação de crianças e adultos com os medos, como algo que caracteriza a vida dos seres humanos, e de todas as culturas.

Afinal, quem é que nunca sentiu em algum momento de sua vida um certo medo do bicho-papão, ser horrendo que come criancinha? Ou do homem-do-saco, velho maltrapilho que leva embora os pequeninos? Mais recentemente conhecemos a avassaladora loura do banheiro. Bem, nós adultos precisamos saber que a tal loura, o bicho-papão e o homem-do-saco são seres criados pela imaginação dos adultos para amedrontar as crianças, para conseguir que elas fiquem quietas, ou que obedeçam.

Quem também não criou seus próprios monstros? Quem nunca imaginou que havia um morto-vivo escondido debaixo da cama ou jurou que atrás da porta do quarto escuro se escondia um fantasma, ou um ser de olhos maus e flamejantes?

Pois é. Não é pouco comum que os adultos fiquem tentando entender e explicar os seus próprios medos, e também o das suas crianças, utilizando-se de raciocínio lógico na busca de explicações racionais que justifiquem, baseados em dados reais, sua existência e sua força. Ela tem medo de cachorro porque um dia um cão latiu muito forte e avançou nela, ou eu tenho medo de elevador porque fiquei presa quando era criança, e por aí vai. Mas isso não funciona, nem se resolve assim.

Sabe-se que experiências muito assustadoras podem deixar marcas, às vezes até alguns traumas que permanecem por uma vida inteira, mas nem sempre acontece assim. A maior parte dos medos de crianças e de adultos não remetem a um fato e, raramente, podem ser explicados a partir deles. Os medos e suas origens não podem ser explicados logicamente e nem sempre são conhecidos na sua totalidade. Conseguimos, com esforço, estabelecer algumas relações, às vezes frágeis, entre o nosso imaginário e inconsciente (sonhos, medos, fantasias etc.), e os fatos e dados que consideramos reais e concretos. Embora as ruas do medo não se cruzem com as das experiências efetivamente vividas, nem racionalmente ordenadas, eles são indispensáveis e estruturantes da vida humana. Seres totalmente destemidos provavelmente teriam vida curta e jamais seriam endeusados.

Os medos estão presentes na vida de todos os seres humanos, com maior ou menor intensidade, em especial na vida das crianças e, em todos os casos, eles não podem ser motivo de desonra, ou de vergonha. Embora quase sempre os medos infantis não tenham uma “existência concreta”, na maioria das vezes, eles são avassaladores e doem, concretamente. Aceleram a respiração, tiram o sono e fazem as crianças chorarem apavoradas, quase sempre durante as noites. E quando isso acontece, em geral, o lugar mais seguro e cobiçado pelas crianças costuma ser a cama dos pais, ou a de adultos de sua confiança.

Como podemos explicar a presença do medo em nossas vidas? Bem, tudo o que é desconhecido quase sempre é amedrontador. Claro que nós não gostamos de admitir o medo, e então, para justificá-lo, povoamos o desconhecido com seres imaginários.

Isso acontece desde os mais remotos tempos, quando os homens conviviam com muito mais coisas e situações desconhecidas, para as quais não tinham explicação. Tinham medo dos trovões, das tempestades. Das florestas escuras, dos mares. Tinham medo da morte, da fome e dos animais ferozes. Para todos esses medos os homens criaram seres imaginários, que comandavam cada uma dessas coisas e situações. Alguns eram horrendos, violentos e malvados. Outros ajudavam os homens em sua luta para sobreviver: elfos, duendes, fadas, centauros, dragões … e tantos outros.

Hoje, boa parte desses seres fantásticos foi transformada em personagem de histórias que vemos na televisão, no cinema, nas revistas em quadrinhos. Quase mais ninguém acredita nos monstros, nem mesmo naqueles inventados na nossa era tecnológica, como os extraterrestres, andróides, robôs e tantas espécies de alienígenas, dotados de superpoderes. Parece que deixamos de acreditar na existência de certos monstros, só que continuamos a assustar uns aos outros. Será que o medo desapareceu? Será que eles se transformam ao longo da vida? O que podemos dizer é que as bruxas ainda rondam as crianças e têm um merecido lugar no imaginário delas em todas as partes do mundo. E por merecimento histórico: vassoura, narigão, chapelão, roupas pretas, morcegos, corujas e asas de barata, caldeirões e unhas grandes. Querem mais encanto?

Vamos responder honestamente? Quantos de nós, ainda hoje, numa escura noite de tempestade, ao ouvir estranhos ruídos na casa, não ficamos imaginando que há algum fantasma ou monstro atrás da porta?

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

 

5 comentários sobre “Quem tem medo de bruxa?

  1. Ótimo texto! Muito importante a observação de que seres totalmente destemidos teriam vida curta. Realmente! O medo, às vezes, pode ser muito útil. Uma pessoa sem medo (se é que existe isso) não é uma pessoa corajosa, mas sim uma pessoa imprudente, inconsequente e, quem sabe “irracional”. A pessoa corajosa talvez seja aquela que sabe lidar com seus medos de forma saudável.

    Bom… Ainda ouço pelas ruas sobre o tal homem-do-saco. Isso me faz pensar… uma educação baseada em medos não é bem uma educação. Talvez seja mais um tipo de ditadura psicológica. Está aí um bom papo!

    Excelente blog! Continuem postando sempre!

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  2. De fato é muito comum assustar os pequenos com historias amedrontantes que da a nós adultos um certo sentimento de poder e controle em relação a eles e isso nao vai se extinguir, mas acredito q precisamos pensar ate onde podemos ir com essas atitudes, principalmente porque ja estamos inseridos na cultura do medo. Que tenha historias de bruxas, do homem da “caramba” (caminhão de lixo. Mari 2 anos) rs!Desde que seja sem exagero!

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  3. É preciso ter medo. Lembro que minha filha precisava inventar motivos para dormir comigo e com a mãe. Primeiro eram os medos. Como ficaram desgastados, resolveu criar dores, as mais diversas. Certa vez, quando esgotados todos os órgãos que conhecia, resolveu sofisticar sua razão: “pai, tô com dor no esôfago”, apontando para o baixo ventre. Caímos de rir, todos nós. A abraçamos, eu e a mãe, e deitamos com ela na cama, na nossa, é claro! Dormiu feliz!

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  4. Aprendemos que o medo é necessário. Ele nos torna cautelosos e nos faz ficar atentos.
    Como vocês deixaram bem claro acima, os adultos se utilizam do medo muitas vezes para conseguirem o que querem das crianças. É preciso atenção para que isso não ocasione traumas nas crianças. Mas penso que assim como a brincadeira é algo característico da infância, o sentir medo (medo da bruxa, do homem-do-saco e tantos outros) também é algo comum e que não se extingue ao final da infância…eu diria que ele se aprimora(não sei se seria o termo certo), ele se torna talvez até mais concreto (medo de perder alguém, de não conseguir um sonho etc).
    Ótimo texto!

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  5. O sentimento de medo vivido por crianças é certamente assunto que interessa a pais, mães, avós e que, volta e meia, surge nas conversas enquanto a criançada brinca ou toma sol. Não importa tanto como o tema foi abordado pelo psicólogo Bruno Bettelheim em suas considerações sobre a influência dos contos de fada na infância. Dessa vez, parece que o que dá mesmo vontade de saber é como os outros fazem quando passam pela experiência de medo vivido por suas crianças. Típico de papo de pracinha, esse espaço virtual, criado pelas talentosas educadoras Ângela e Inês, já está sendo um lugar a ser buscado para que se possa pensar o que acontece nas cabecinhas dos pimpolhos, quando dizem que não querem que apague a luz ou feche a porta do quarto. É desse cotidiano tão nosso e tão informal que tiramos ideias e trocamos emoções para lidar também com nossos medos -por que não? – de filhos e netos sentirem medo.

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