Pra viver um grande amor

Joanna Armada [1]

Mais que casar, mais que conhecer o mundo inteiro, mais que grana e pompa, meu sonho dourado tinha a forma de uma casinha repleta de amor de mãe, pai e filho. E foi do alto de uma relação de 10 anos, coroada com uma viagem incrível para a Ásia, que Antonio foi planejadíssimamente encomendado.

Nasci de parto normal, meu irmão também. Parir sempre me pareceu natural, eu não pensava muito sobre o assunto. Por isso o estranhamento quando comentários esquisitos começaram a aparecer, junto com a barriga que crescia. “Já marcou a data?”; “Normal? Que coragem!” ; “A medicina avançou tanto, por que você quer sentir dor? ” Era o interrogatório mais comum, ao qual eu respondia também sem pensar: como assim, marquei? Ele vai nascer na hora que estiver pronto. Nosso corpo é perfeito para parir. Quem roubou sua coragem? Dor não significa sofrimento. Dezenas de vezes.

Na mesma época começou uma campanha do Ministério da Saúde para incentivar o parto e me inscrevi em grupos sobre maternidade no Facebook. E então comecei a entender a necessidade de ser grifado “Parto Natural” ou “Humanizado” nos textos sobre o tema. Descobri que no Brasil, quando o parto acontece, traz intervenções tão desnecessárias quanto desrespeitosas, beneficiando apenas a figura do médico. Descobri que para parir naturalmente eu tinha que querer muito, me informar muito, me preparar muito. E assim foi.

Brinco dizendo que meu trabalho de parto começou aos 5 meses de gestação, quando conheci minha nova obstetra. Indicada por uma amiga, ela me conquistou com doses exatas de doçura e firmeza, e me apresentou ao seu modelo de trabalho, em que uma enfermeira obstetra participa do pré-natal com mais foco na parte psicológica do processo. Junto com a confiança plena na obstetra, considero essa a parte mais importante da nossa preparação. A cada dúvida sobre a hora H, além da explicação técnica, vinha sempre a recomendação da enfermeira obstetra para que eu não me preocupasse, pois eu saberia o que fazer, meu corpo saberia. Compreendi que o parto é um evento fisiológico – e não cirúrgico – e SE algo não ocorresse como o planejado, uma equipe competente estaria a postos. Um discurso oposto ao da minha primeira obstetra que afirmou na primeira consulta que SE tudo desse certo eu teria meu parto normal. Uma sutil, mas crucial diferença.

A essa altura, meu marido, que até então não tinha nenhuma opinião formada sobre o assunto, já estava 100% envolvido na “Partolândia”, participando de todas as consultas com o coração aberto, me apoiando e até incentivando vários casais de amigos grávidos a buscarem informação. O clássico documentário “O Renascimento do Parto[i]”, foi um divisor de águas para a gente, e as palestras do Instituto Aurora com médicos humanistas, muito esclarecedoras. Ao longo do processo fomos ficando muito seguros e felizes com nossas escolhas e com os profissionais que nos acompanhavam. É importante dizer que essa turma também se preocupou em nos preparar para as reais possibilidades de uma cesárea, indicada em no máximo 15% dos casos, segundo a OMS. Aprendemos que trata-se de uma ferramenta maravilhosa e que salva muitas vidas quando não há mais opção, mas confesso que seria uma baita decepção se acontecesse comigo. Queria muito ser a protagonista do nascimento do meu filho, trazê-lo ao mundo com toda a força do meu corpo, sentir o poder dos meus hormônios trabalhando junto com o meu coração.

Com 37 semanas Antonio deu os primeiros sinais que queria nascer. No domingo saiu o tampão mucoso e recebi a recomendação de ficar tranquila, relaxar e fazer coisas felizes, pois poderia demorar horas ou dias para começarem as contrações. Fui à praia, tomei sorvete de tangerina, assisti a um showzinho na orla. Continuei trabalhando normalmente porque a partir das 37 semanas, se parasse, que cruel, minha licença maternidade já contaria. E só no início da madrugada de sexta a bolsa estourou. Não foi como nas cenas de filme, aquela cachoeira pernas abaixo, dor, desespero. Na verdade, foi uma “aguinha” de nada e nada mais. Desta vez a recomendação foi para eu me alimentar bem e descansar bastante, pois o dia seguinte seria intenso. Dormi razoavelmente bem e às 7h de sexta, nada de contração ainda. Às 9h fui para a Perinatal fazer um exame para ver se era a bolsa mesmo – sim, era – e também, para fazer uma cardiotocografia, exame para avaliar o coraçãozinho do Antonio.

Este exame deu uma leve alteração e isso foi o suficiente para as plantonistas montarem um furdunço na sala de exame. Liga pra obstetra, aciona o centro cirúrgico, caras de apreensão. A minha obstetra pediu uma foto do exame antes de falar comigo. Quando percebeu minha voz chorosa, receosa, me tranquilizou e disse que nossos planos continuavam os mesmos, para eu não dar “ibope” para o exagero da cena. Que apenas iríamos monitorar mais o Antonio e que, já que eu estava na maternidade, preferia que eu continuasse lá e não iniciasse meu trabalho de parto em casa. E foi nessa hora que eu entendi a importância de ter escolhido uma obstetra humanista, que confiava no meu poder de parir e que estava preparada para os “imprevistos”.

Com essa mudança de percurso, só então avisamos aos amigos e familiares mais próximos. Aos poucos as contrações vieram e às 12h lá fomos eu e Duda iniciar a maior viagem das nossas vidas. Sala pré-parto quentinha, luz azul, musiquinha do celular da nossa obstetra, bola de pilates pra aliviar as contrações, massagem… A evolução da dilatação aconteceu em um bom ritmo. Quando chegou a 6 cm, a obstetra comentou que, no nosso plano inicial, eu estaria a caminho da maternidade naquele momento. Agradeci por não estar no transito do (túnel) Rebouças, e sim ali, em plena concentração e conexão com meu filhote, contando cada minuto até que a contração passasse e o trouxesse para mim. A dor, aliás, não foi um problema, me preparei bastante para ela. Sabia que não me ofereceriam anestesia e nem me lembrei dessa possibilidade durante as 6 horas de trabalho de parto.

Com 9 cm de dilatação, por volta das 16h, me conduziram para a sala de parto. Comecei o período expulsivo de cócoras na banqueta, depois fiquei em pé, depois de lado na maca. Duda o tempo todo comigo, fazendo força junto, muita força, incontáveis forças e nada do Antonio nascer. Aquela alteração identificada no exame no início do dia começou a aparecer de novo, os batimentos dele baixavam e demoravam para recuperar. Meu filhote estava cansando. A obstetra optou por usar fórceps para ajudá-lo a nascer e às 18:13h estava com ele em meus braços. Inesquecível a sensação, a emoção, o cheirinho dele, o primeiro olhar, os dedinhos compridos.

Confesso que não gostei de ter precisado do fórceps. Na minha idealização não tinha espaço para ele. Mas, ainda na sala de parto aceitei que as ferramentas existem para serem usadas. Ele nasceu com índice 9/10 na escala de Apgar, não sofreu nada, só precisava mesmo de um empurrãozinho. E hoje percebo que ali foi a primeira demonstração para o meu Tomtom de que eu, e também o pai dele, jamais hesitaremos em ajudá-lo em cada desafio. Ah, e que estar sempre em boa companhia ajuda um bocado também.

[1] Joanna Armada é jornalista, 32 anos, carioca.

[i] O Renascimento do Parto, 2013, filme de Érica de Paula e Eduardo Chauvet, direção de Eduardo Chauvet.

 

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