1444719083_023_011_feather_poem_muse_poetry_toolA Menina Avoada                                                                                                                           Manoel de Barros[1]

Foi na fazenda do meu pai antigamente. Eu teria dois anos, meu irmão, nove. Meu irmão pregava no caixote duas rodas de lata de goiabada. A gente ia viajar.

As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote: uma olhava para a outra. Na hora de caminhar as rodas se abriam para o lado de fora. De forma que o carro se arrastava no chão. Eu ia pousada dentro do caixote com as perninhas encolhidas. Imitava estar viajando.

Meu irmão puxava o caixote por uma corda de embira. Mas o carro era diz- que puxado por bois. Eu comandava os bois: _ puxa, Maravilha! _ avança, Redomão!

Meu irmão falava que eu tomasse cuidado porque Redomão era coiceiro.

As cigarras derretiam atarde com seus cantos. Meu irmão desejava alcançar logo a cidade_ porque ele tinha uma namorada lá. A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele. Isso ele contava.

No caminho, antes, a gente precisava de atravessar o rio inventado. Na travessia, o carro afundou e os bois morreram afogados. Eu não morri porque o rio era inventado.

Sempre a gente só chegava no fim do quintal. E meu irmão nunca via a namorada dele, que diz-que dava febre em seu corpo. 

[1] Barros, Manoel de : EXERCÍCIOS DE SER CRIANÇA. Ed. Salamandra, 1999.

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